Quando e como utilizar o dissulfiram no tratamento de dependência de álcool na atenção primária?

Publicado em 21/02/2018

O uso do dissulfiram é uma estratégia potencialmente útil para pacientes motivados a interromper o uso de álcool e em casos de pacientes já em abstinência alcóolica, mas em risco de recaída. É imprescindível que o paciente concorde com o uso do fármaco e esteja consciente dos efeitos esperados caso consuma álcool. Deve-se contar com o apoio de familiares, amigos ou profissionais de saúde para supervisão da ingesta.

Uma das vantagens do dissulfiram é o seu baixo custo. Cada caixa de 20 comprimido de 250 mg custa entre R$ 8,00 e R$ 10,00 (2017). Só pode ser iniciado após o período mínimo de 12 horas de abstinência total de álcool.

Recomenda-se iniciar com dose de 250 mg ao dia e aumentar para 500 mg (250 mg duas vezes ao dia, pela manhã e à noite) caso o indivíduo refira ter ingerido álcool e não tenha apresentado as reações esperadas. A melhora do status psicossocial do paciente e a aquisição de autocontrole são sinais de resposta ao tratamento. Pode-se então ajustar a dose para 125 a 250 mg ao dia como tratamento de manutenção. O tempo de tratamento é definido pelo padrão de melhora do paciente, podendo variar de meses a anos.

Quando o indivíduo consome álcool sob o efeito da medicação, há acúmulo de acetaldeído no organismo, provocando reações desagradáveis como palpitação, sudorese, cefaleia, náusea e vômitos – denominado efeito antabuse. É importante advertir o paciente que o dissulfiram permanece na corrente sanguínea por, em média, uma semana após a interrupção do uso. Assim, os sinais e sintomas do efeito antabuse podem ocorrer, em graus variáveis, em caso de ingesta de álcool durante este período. O paciente deve ser alertado também sobre a presença de álcool em vinagres, e a possível presença de álcool em alguns alimentos como bombons, molhos e sobremesas.

O dissulfiram está contraindicado em pacientes com insuficiência hepática ou hepatite aguda, devido ao seu potencial para induzir dano hepático, especialmente hepatite aguda. A condição é rara (incidência não estabelecida na literatura), podendo ocasionalmente causar falência hepática. Pacientes com doenças miocárdicas graves, psicose ou com conhecida hipersensibilidade ao fármaco também tem contraindicação ao uso do dissulfiram. O fármaco deve ser evitado na gestação pelo potencial risco de malformações.

O dissulfiram está contraindicado em uso concomitante com:

  • Fármacos que contém álcool na formulação: Kaletra (lopinavir e ritonavir), sertralina, antitussígenos
  • Fenitoína: a interação pode aumentar a toxicidade da fenitoína;
  • Metronidazol oral e tópico, pelo risco aumentado de toxicidade do SNC, psicose e efeito dissulfiram-like (se ingesta de álcool concomitante).

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Teleconsultoria respondida por:
Fernanda Lucia Capitanio Baeza, Psiquiatra – http://lattes.cnpq.br/0164626065007593
Revisão:
Elise Botteselle de Oliveira, Médica de Família e Comunidade – http://lattes.cnpq.br/8444756167343059
Ligia Marroni Burigo, Médica de Família e Comunidade – http://lattes.cnpq.br/7638159467989673

 

 

 

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