Eritema pérnio (perniose): como diagnosticar e qual o manejo?

O diagnóstico de eritema pérnio, ou perniose, é feito com base na história e no exame clínico e seu tratamento primário consiste em evitar condições precipitantes e manter áreas afetadas aquecidas [1].

Também conhecida como perniose, sua fisiopatologia é desconhecida, mas sugere-se que haja uma resposta vascular anormal ao frio e, como consequência, desenvolvimento das lesões cutâneas. O quadro se apresenta como máculas, pápulas, placas ou nódulos, com coloração eritematosa a violácea. Nos casos mais severos pode haver presença de vesículas, bolhas e ulcerações. Normalmente as lesões surgem 12 a 24 horas após exposição a ambientes frios e úmidos, com melhora em 2 a 3 semanas. As regiões do corpo mais envolvidas são dedos das mãos e dos pés, normalmente de maneira simétrica, podendo menos frequentemente também acometer nariz e orelhas. Sintomas como prurido, dor ou queimação costumam estar associados [1-3].

Foto 1. Lesões maculopapulares eritematosas e arroxeadas com formação de vesículas nos dedos dos pés.

Fonte: Gordon, Arikian, Pakula (2014) [4].

Foto 2. Máculas eritematosas a violáceas e pápulas planas no primeiro e segundo pododáctilos esquerdo.

Fonte: Kenner (1997) [5].

Foto 3. Múltiplas pápulas eritematosas e edematosas em região palmar.

Fonte: Basal e Goel (2014) [6].

Foto 4. Máculas eritemato-purpúricas e edema nos dedos das mãos.

Fonte: Tonoli e Souza (2012) [7]. 

 

O eritema pérnio pode ser idiopático ou secundário a distúrbios hematológicos, doenças autoimunes, hepatites virais e malignidade. Fatores de risco incluem o gênero feminino, a história familiar de perniose e o índice de massa corpórea. Contudo, as evidências científicas existentes são insuficientes para confirmar relação causal entre a perniose e a maioria dessas doenças sistêmicas [1,3].

O aparecimento de lesões acrais semelhantes ao eritema pérnio foi relatado em pacientes com a COVID-19. No entanto, a relação entre essas manifestações e a COVID-19 ainda está em investigação [1].

Não existem exames diagnósticos que confirmem o eritema pérnio. Em algumas situações são necessários exames complementares para excluir doenças subjacentes. As indicações são:

  • idade acima de 65 anos; ou
  • eritema pérnio crônico (duração > 3 semanas ou quando há recorrência anual); ou
  • suspeita de doença subjacente: persistência dos sintomas nos meses mais quentes do verão, presença de artralgias e artrite, úlceras orais, erupção cutânea malar,  convulsões ou psicose.

A investigação laboratorial, quando indicada, inclui hemograma completo, FAN e eletroforese de proteínas. Outros exames podem ser solicitados de acordo com a suspeita clínica [1,2,8]. 

De maneira geral, as medidas não medicamentosas são suficientes para controle da perniose, que tende a se resolver em 2 a 3 semanas, se a área afetada for mantida aquecida e seca. Além do uso de proteção contra frio, com roupas apropriadas como luvas, meias, chapéus e gorros, recomenda-se a cessação do tabagismo, já que a nicotina é um vasoconstritor, podendo, portanto, piorar o quadro clínico [1,2,3,8]

Os achados são conflitantes a respeito dos benefícios de tratamentos medicamentosos. O uso de corticoide tópico de média a alta potência, como dipropionato de betametasona 0,05% creme 2 vezes ao dia na área afetada, por até 2 semanas, pode ser considerado em casos de edema e prurido, mas a evidência de benefício é limitada, especialmente nos quadros crônicos [1,2,3,8]. Já o uso da pentoxifilina 400 mg,  3 vezes ao dia, por 2 a 3 semanas [3] ou da nifedipina 20 mg,  3 vezes ao dia, por até 6 semanas [2] podem ser considerados para quadros crônicos ou refratários às demais medidas

Outros tratamentos sem comprovação de benefício incluem ganho de peso em pacientes com baixo peso, injeção intralesional de corticosteróide, prednisona oral, prazosina, nicotinamida, minoxidil tópico, pasta de nitroglicerina e tacrolimo tópico. Estudos adicionais são necessários para determinar a eficácia dessas terapias [2,3,8].

Referências:

  1. Kroshinsky D. Pernio (chilblains) [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 21 Mai 2020, citado em 24 Jul 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/pernio-chilblains.
  2. Whitman PA, Crane JS. Pernio (Chilblains). StatPearls, Treasure Island (FL); 2020.
  3. DynaMed. Record No. T114295, Chilblains [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995 [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 24 Jul 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/topics/dmp~AN~T114295.
  4. Gordon R, Arikian AM, Pakula AS. Chilblains in Southern California: two case reports and a review of the literature. J. Med. Case Rep. 2014 Nov 22; 8(381):1-5. Doi 10.1186/1752-1947-8-381.
  5. Kenner JR. Perniosis. MedPix, Bathesda (MD); 1997 [citado em 24 Jul 2020]. Disponível em: https://medpix.nlm.nih.gov/case?id=f4c98e41-f406-4eff-9432-297698d269e2#.
  6. Bansal S, Goel A. Chilblain lupus erythematosus in an adolescent girl. MedPix, Bathesda (MD); 2014 [citado em 24 Jul 2020]. Disponível em: https://openi.nlm.nih.gov/detailedresult?img=PMC4252947_IDOJ-5-30-g001&query=pernio&it=xg&req=4&npos=6.
  7. Tonoli RE, Souza PRM. Case for diagnosis. An. Bras. Dermatol. 2012 July-Aug;87(4):649-50. Doi 10.1590/S0365-05962012000400027.
  8. Cole MB, Smith ML. Enviromental and Sports-Related Skin Diseases. In: Bolognia JL, Jorizzo JL, Schaffer JV, editors. Dermatology. 3a ed. Philadelphia (PA): Elsevier Saunders; 2012. p. 1493-4

 

Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Eritema pérnio (perniose): como diagnosticar e manejar? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; Jul 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/eritema-pernio-perniose-como-diagnosticar-e-qual-o-manejo/.

Teleconsultoria por:

Luiza Emília Bezerra Medeiros

Médica de Família e Comunidade

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Revisão por:

Kelli Wagner Gomes

Médica Dermatologista

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Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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