O que é Síndrome da Ardência Bucal (SAB) e como tratar?

A Síndrome da Ardência Bucal (SAB) é definida como “sensação crônica de queimação intrabucal, que não apresenta nenhuma causa identificável, tanto local como sistêmica” [1,2]. Essa condição afeta principalmente mulheres na pós-menopausa com idade entre 50 e 70 anos [3,4,5]. Além da ardência, os pacientes com SAB podem queixar-se de parestesia, disgeusia e disestesia [6]. As causas da SAB ainda são incertas. Algumas condições como dor neuropática [7], disfunções endócrinas, fatores psicológicos e distúrbios do sono, podem estar associadas à manifestação da doença [8,9]. 

O diagnóstico da SAB é realizado por exclusão. Para diagnóstico e manejo é necessária a realização de uma detalhada anamnese e exame físico, conforme é apresentado no fluxo 1.

 

Figura 1 – Diagnóstico e manejo da Síndrome da Ardência Bucal

Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2020).

Faça download do fluxograma sobre diagnóstico e manejo da Síndrome da Ardência Bucal

 

São causas de ardência bucal, porém não configuram SAB:

  • Lesões bucais: língua geográfica e/ou língua fissurada, trauma mecânico crônico, candidíase bucal, líquen plano, reação liquenóide [10]. Se presentes,  realizar tratamento específico.
  • Hipossalivação e xerostomia: podem ser efeitos colaterais do uso de drogas antidepressivas e ansiolíticas, também podem estar relacionadas a manifestação de doenças sistêmicas, como por exemplo: Síndrome de Sjogren. Estas situações podem propiciar eventos traumáticos nas mucosas orais, tendo o paciente também queixa de ardência [2,11]. Orientar medidas locais como saliva artificial, gomas de mascar sem açúcar, aumento da ingestão de alimentos ou bebidas cítricas.
  • Secundária a tratamentos oncológicos: pacientes com histórico de radioterapia e/ou quimioterapia também podem ter queixa de ardência bucal [12]. 
  • Secundária a medicamentos:  ver tabela 1 [10,13]. Avaliar possibilidade de troca das medicações.
  • Comorbidades: doenças como diabetes mellitus descompensado, hipotireoidismo,  gastrite crônica, doença do refluxo gastroesofágico,  hipoacidez gástrica crônica, ansiedade e depressão podem estar relacionadas a queixa de ardência bucal [2,10]. 

Na ausência dessas condições, sugere-se investigação por meio da solicitação de exames laboratoriais como: hemograma, ferritina, glicemia, TSH, vitamina B12, ácido fólico e zinco [11,14,15]. A suplementação, caso haja alguma deficiência, pode levar a melhora dos sintomas de ardência bucal [11,16].

 

Tabela 1 – Medicamentos associados a queixa de ardência bucal.

Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2020).
Classe medicamentosa Medicamentos
Anti-histamínicos Maleato de dexclorfeniramina.
Anti-hipertensivos Captopril, enalapril, losartana, valsartana, propranolol, atenolol.
Antimicrobianos Anfotericina B, ampicilina, metronidazol, estreptomicina, tetraciclina.
Antineoplásicos ou imunossupressores Doxorrubicina, metotrexato, vincristina, azatioprina.
Antiparkinsonianos Baclofeno, levodopa.
Antipsicóticos ou anticonvulsivantes Carbamazepina, lítio, fenitoína, haloperidol.
Antirreumáticos Alopurinol, colchicina.
Antissépticos Hexatidina, clorexidina.
Antitireoidianos Metimazol, propiltiouracil.
Hipoglicêmico Metformina.
Opiáceos Codeína, morfina.
Simpaticomiméticos Anfetaminas, fenmetrazina.
Vasodilatador Oxifedrina.

Excluídas todas as causas acima, o diagnóstico de SAB pode ser considerado. O tratamento é dividido em 3 grupos: tópico, sistêmico e alternativo [2,17]. 

 

Terapia tópica

  • Clonazepam: Dissolver ¼ a 1 comprimido de 0,5 mg na boca com a saliva, sem deglutir, e cuspir após 3 minutos até 4 vezes ao dia. Manter o tratamento por 10 dias após a última sensação de ardência. A dose pode chegar a 3 mg (1 mg 3 vezes ao dia), de acordo com a avaliação dos sintomas [18,19].

Terapias sistêmicas

  • Ácido alfa-lipóico (ALA): iniciar com dose de 400 a 800 mg, 1 vez ao dia, durante 1 a 2 meses e reavaliar. Orientar o paciente a retornar caso haja piora da dor neste período. O tratamento com ALA associado com  acompanhamento psicológico ou gabapentina apresentou melhores respostas [2,20,2122]. 
  • Clonazepam: iniciar com 1 comprimido de 0,5 mg antes de dormir por 2 semanas. Se houver melhora da ardência, manter por mais 2 semanas a mesma dosagem. Se não houver melhora, aumentar a dose para 0,75 mg, 2 vezes ao dia, por mais 2 semanas. A dose deve ser ajustada em 0,25 mg a cada semana de acordo com a sintomatologia do paciente, até atingir a dose de 3 mg/dia. Quando houver melhora dos sintomas deve-se tentar reduzir a dose gradativamente.  Se ocorrerem efeitos colaterais indesejáveis, em particular sonolência grave e/ou tontura, deve-se reduzir a dose pela  metade [1,2,18,23]. Saiba mais sobre a retirada de benzodiazepínicos.
  • Amitriptilina: iniciar com 12,5 mg antes de dormir. Se não houver melhora ou apenas melhora parcial, a dose pode ser aumentada semanalmente, podendo chegar a 50 mg/dia [1,3,24]. Aconselha-se a reavaliação semanal até a significativa melhora. Ao atingir o efeito desejado é indicado a redução gradual da dose, buscando um equilíbrio entre dose e efeito [19,24]. Esta terapia pode ter resposta positiva em 6 semanas a 3 meses após o início do medicamento. Saiba mais sobre prescrição de antidepressivos tricíclicos.
  • Gabapentina: iniciar com dose de 300 mg/dia. Sugere-se reavaliação quinzenal a fim de mensurar sintomas, até estabilizar queixa. Se não houver melhora, a dose deve ser ajustada de acordo com a resposta obtida, podendo atingir dose máxima de 2.700 mg dia [22]. A Gabapentina, em geral, é utilizada quando todas os outros medicamentos citados acima fracassam em relação a melhora da sintomatologia. Este medicamento deve ser prescrito em doses baixas e com precaução para pacientes com doenças pulmonares obstrutivas crônicas, doença renal crônica, idosos ou uso concomitante de opióides ou outros depressores do SNC [1], devido ao risco de depressão respiratória grave. Estudos mostram uma melhor resposta quando a gabapentina é associada ao ácido alfa-lipóico (ALA) [2]. 
  • Pramipexol:  iniciar com dose de 0,25 mg a 1 mg, 1 a 2 vezes ao dia. O uso desse medicamento teve bons resultados, em alguns artigos de relato de casos clínicos, porém a qualidade das evidências são baixas [25,26].

Outros medicamentos têm mostrado resultados para tratamento da SAB, como catuama e bupivacaína. Porém, os estudos encontrados não têm nível de evidência que possa suportar essas indicações com segurança[27].

Por serem mais suscetíveis a efeitos adversos, é necessário cautela na prescrição dos medicamentos para idosos, uma vez que pode haver interações medicamentosas e efeitos adversos.  

Sugere-se realizar escala visual para dor (VAS ou EVA) a cada consulta para monitoramento dos sintomas [1]. 

Tratamentos alternativos

  • Laserterapia: a terapia com laser de baixa potência (LBP) é associada com redução da sintomatologia para pacientes com SAB. O LBP tem propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e bioestimuladoras [28].
  • Psicoterapia: tem mostrado bons resultados para SAB, principalmente quando associada ao uso de medicamentos sistêmicos, como ALA [20,21]

 

Referências: 

  1. McMillan R, Forssell H, Buchanan JA, Glenny AM, Weldon JC, Zakrzewska JM. Interventions for treating Burning Mouth Syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2016 Nov 18;11(11):CD002779. Doi 10.1002/14651858.CD002779.pub3.
  2. Dynamed. Record No. T253047, T911960, Burning Mouth Syndrome [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995 [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 13 Ago 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/topics/dmp~AN~T911960
  3. Jääskeläinen SK. Pathophysiology of primary Burning Mouth Syndrome. Clin Neurophysiol. 2012 Jan;123(1):71-7. Doi 10.1016/j.clinph.2011.07.054.
  4. Moghadam-Kia S, Fazel N. A diagnostic and therapeutic approach to primary Burning Mouth Syndrome. Clin Dermatol. Sep-Oct 2017;35(5):453-60. Doi 10.1016/j.clindermatol.2017.06.006.
  5. Kohorst JJ, Bruce AJ, Torgerson RR, Schenck LA, Davis MD. A population-based study of the incidence of Burning Mouth Syndrome. Mayo Clin Proc. 2014 Nov;89(11):1545-52. Doi 10.1016/j.mayocp.2014.05.018.
  6. Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia, 2018;38(1):1-211. Doi: 10.1177/0333102417738202.
  7. Lopez-Jornet P, Molino-Pagan D, Parra-Perez P, Valenzuela S. Neuropathic pain in patients with Burning Mouth Syndrome evaluated using painDETECT. Pain Med. 2017 Aug 1;18(8):1528-33. Doi 10.1093/pm/pnw304.
  8. Patton LL, Siegel MA, Benoliel R, De Laat A. Management of Burning Mouth Syndrome: systematic review and management recommendations. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod. 2007 Mar;103 Suppl:S39.e1-13. Doi 10.1016/j.tripleo.2006.11.009.
  9. Feller L, Fourie J, Bouckaert M, Khammissa RAG, Ballyram R, Lemmer J. Burning Mouth Syndrome: aetiopathogenesis and principles of management. Pain Res Manag. 2017;2017:1926269. Doi 10.1155/2017/1926269.
  10. Neville BW, Damm DD, Allen C, Chi AC. Oral and maxillofacial pathology. 4a ed. Philadelphia: Saunders; 2015.
  11. Imamura Y, Shinozaki T, Okada-Ogawa A, Noma N, Shinoda M, Iwata K, et al. An updated review on pathophysiology and management of burning mouth syndrome with endocrinological, psychological and neuropathic perspectives. J Oral Rehabil. 2019 Jun;46(6):574-87. doi: 10.1111/joor.12795.
  12. Ho CC, Khan SA, Garza I. Overview of craniofacial pain [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 14 Jul 2019, citado em 13 Ago 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/overview-of-craniofacial-pain.
  13. Millsop JW, Wang EA, Fazel N. Etiology, evaluation, and management of xerostomia. Clin Dermatol. Sep-Oct 2017;35(5):468-476. Doi 10.1016/j.clindermatol.2017.06.010.
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Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). O que é Síndrome da Ardência Bucal (SAB) e como tratar? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, Ago 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/o-que-e-sindrome-da-ardencia-bucal-sab-e-como-tratar/.

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