Quais as estratégias de prevenção eficazes para reduzir o risco de pré-eclâmpsia e suas complicações na gravidez?

Até o momento, nenhuma intervenção provou ser inequivocamente eficaz na eliminação do risco de pré-eclâmpsia [1]. A administração profilática de ácido acetilsalicílico (AAS) parece reduzir o risco de pré-eclâmpsia e suas complicações em grupos de risco, bem como, garantir a ingestão mínima de cálcio por meio de dieta e/ou suplementação e a prática de atividades físicas parecem ser medidas benéficas para todas as gestantes, conforme detalhado a seguir.  

A administração profilática de AAS a mulheres grávidas têm capacidade modesta de reduzir o risco de desenvolver pré-eclâmpsia e suas complicações, como nascimento pré-termo e restrição de crescimento intrauterino. Essa afirmação é sustentada pela evidência de estudos randomizados [2,3,4,5]. A recomendação atual é o uso de doses baixas de AAS 75 a 150 mg, 1 vez ao dia, a partir de 12 semanas de gestação e idealmente antes de 16 semanas, podendo ser iniciada até 28 semanas e mantido até o parto [3,6,7] para mulheres com pelo menos um fator de alto risco para pré-eclâmpsia ou com pelos menos dois fatores de risco moderado [1,3], conforme quadro 1. Não se deve recomendar uso de AAS em outras situações.

Quadro 1. Gravidade dos fatores de risco para pré-eclâmpsia e recomendação quanto ao uso de AAS.

Nível do Risco Fatores de risco Recomendação
Alta
  • História de pré-eclâmpsia, especialmente quando acompanhada por um resultado adverso;
  • Gestação multifetal;
  • Hipertensão crônica;
  • Diabetes tipo 1 ou 2;
  • Doença renal;
  • Doença autoimune (ex. lúpus eritematoso sistêmico, a síndrome antifosfolipídica).
Recomendar AAS em baixa dose se o paciente tiver um ou mais destes fatores.
Moderado
  • Nuliparidade;
  • Obesidade (índice de massa corporal maior que 30);
  • História familiar de pré-eclâmpsia (mãe ou irmã);
  • Características sociodemográficas (raça afro-americana, baixo nível socioeconômico);
  • Idade 35 anos ou mais;
  • Antecedentes obstétricos de risco (ex. baixo peso ao nascer ou pequeno para a idade gestacional, resultado adverso anterior da gravidez, intervalo de gravidez superior a 10 anos).
Considerar uma dose baixa de AAS se o paciente tiver pelo menos 2 destes fatores.*

*Uma combinação de múltiplos fatores de risco moderado pode ser usada para identificar mulheres com alto risco de pré-eclâmpsia e auxiliar na decisão sobre a prescrição de AAS.

Fonte: Adaptado de ACOG (2020) [1].

A suplementação de cálcio para garantir uma ingestão mínima adequada é estratégia possivelmente eficaz na prevenção de pré-eclâmpsia e suas complicações, conforme resultados positivos de revisões sistemáticas [8,9]. Recomenda-se que todas as mulheres grávidas atinjam a dose diária recomendada de cálcio elementar por meio de dieta e/ou suplementação, em populações onde a ingestão inicial de cálcio na dieta é baixa (<800mg/dia) [8]. A Organização Mundial da Saúde (OMS) [10] recomenda 1.500 a 2.000 mg de suplementação de cálcio elementar por dia para mulheres grávidas para reduzir o risco de pré-eclâmpsia, particularmente entre aquelas com maior risco de desenvolver hipertensão [7,9].

As evidências de efetividade de vitaminas C e E, óleo de peixe, alho, vitamina D, ácido fólico,  restrição de sódio, metformina, estatinas ou sildenafil para redução de risco de pré-eclâmpsia são insuficientes. Não se deve, portanto, recomendar a utilização desses para este fim [11].

As  mulheres podem manter a maior parte de suas atividades físicas normais, não sendo o repouso estratégia terapêutica de rotina para controle pressórico [12]. Exercício físico ao menos três vezes por semana por 50 minutos, em uma combinação de exercícios aeróbicos, de reforço muscular e alongamentos, são recomendados para todas as gestantes, na ausência de outras contraindicações, pois auxiliam na manutenção do peso saudável e diminuem risco de desordens hipertensivas na gestação [13]. Mulheres com hipertensão crônica que engravidam devem ser precocemente alertadas sobre controle de peso, prática de exercícios, alimentação saudável e redução de sal em sua dieta [14].

 

Referências  

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists’ Committee on Practice Bulletins—Obstetrics. Gestational Hypertension and Preeclampsia: ACOG Practice Bulletin, Number 222. Obstet Gynecol. 2020 Jun;135(6):e237–60. Doi 10.1097/AOG.0000000000003891.
  2. Duley L, Meher S, Hunter KE, Seidler AL, Askie LM. Antiplatelet agents for preventing pre-eclampsia and its complications. Cochrane Database Syst Rev. 2019 Oct 30;2019(10):CD004659.. Doi 10.1002/14651858.CD004659.pub3.
  3. Rolnik DL, Wright D, Poon LC, O’Gorman N, Syngelaki A, de Paco Matallana C, et al. Aspirin versus Placebo in Pregnancies at High Risk for Preterm Preeclampsia. N Engl J Med. 2017 Aug 17;377(7):613–22. Doi 10.1056/NEJMoa1704559.
  4. Roberge S, Nicolaides K, Demers S, Hyett J, Chaillet N, Bujold E. The role of aspirin dose on the prevention of preeclampsia and fetal growth restriction: systematic review and meta-analysis. Am J Obstet Gynecol. 2017 Feb;216(2):110–20.e6. Doi 10.1016/j.ajog.2016.09.076.
  5. Meher S, Duley L, Hunter K, Askie L. Antiplatelet therapy before or after 16 weeks’ gestation for preventing preeclampsia: an individual participant data meta-analysis. Am J Obstet Gynecol. 2017 Feb;216(2):121-8.e2. Doi 10.1016/j.ajog.2016.10.016.
  6. LeFevre ML, U.S. Preventive Services Task Force. Low-dose aspirin use for the prevention of morbidity and mortality from preeclampsia: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Ann Intern Med. 2014 Dec 2;161(11):819–26. Doi 10.7326/M14-1884.
  7. Brown MA, Magee LA, Kenny LC, Karumanchi SA, McCarthy FP, Saito S, et al. Hypertensive disorders of pregnancy: ISSHP classification, diagnosis, and management recommendations for international practice. Hypertension. 2018 July;72(1):24–43. Doi 10.1161/HYPERTENSIONAHA.117.10803.
  8. Cormick G, Betrán AP, Romero IB, Lombardo CF, Gülmezoglu AM, Ciapponi A, et al. Global inequities in dietary calcium intake during pregnancy: a systematic review and meta-analysis. BJOG. 2019 Mar;126(4):444–56. Doi 10.1111/1471-0528.15512.
  9. Hofmeyr GJ, Lawrie TA, Atallah ÁN, Torloni MR. Calcium supplementation during pregnancy for preventing hypertensive disorders and related problems. Cochrane Database Syst Rev. 2018 Oct 1;10:CD001059. Doi 10.1002/14651858.CD001059.pub5.
  10. World Health Organization. WHO recommendation: calcium supplementation during pregnancy for the prevention of pre-eclampsia and its complications. Geneva: World Health Organization; 2019 [citado em 21 Dez 2020]. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/277235
  11. American College of Obstetricians and Gynecologists’ Committee on Practice Bulletins—Obstetrics. ACOG Practice Bulletin no. 203: chronic hypertension in pregnancy. Obstet Gynecol. 2019 Jan;133(1):e26–50. Doi 10.1097/AOG.0000000000003020.
  12. American College of Obstetricians and Gynecologists. Ten things physicians and patients should question. Washington, DC; 2016 [citado em 21 Dez 2020]. Disponível em: https://www.choosingwisely.org/wp-content/uploads/2015/02/ACOG-10things-List_Updated103119.pdf

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Quais as estratégias de prevenção eficazes para reduzir o risco de pré-eclâmpsia e suas complicações na gravidez? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; Dez 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano da citação”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quais-as-estrategias-de-prevencao-eficazes-para-reduzir-o-risco-de-pre-eclampsia-e-suas-complicacoes-na-gravidez/.

Teleconsultoria por:

Rafaela Fernandes Barreto

Médica de Família e Comunidade

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Revisão por:

Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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Ellen Machado Arlindo

Médica Ginecologista e Obstetra

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