Quais as principais lesões oculares por exposição à solda elétrica e como deve ser o manejo inicial na APS?

A exposição à solda elétrica sem o uso de proteção adequada pode ocasionar diferentes tipos de lesão ocular como corpo estranho ou queimaduras na córnea e conjuntiva (fotoceratoconjuntivite). O manejo consiste em medidas sintomáticas e orientação do uso de equipamentos de proteção individual adequados. 

O paciente geralmente se apresenta com dor ocular, hiperemia, lacrimejamento e fotofobia, com início após a exposição sem proteção (ou proteção insuficiente) à solda elétrica.

Nos casos de queimadura (fotoceratite ou fotoceratoconjuntivite), as alterações costumam ser bilaterais e aparecem de  6 a 12 horas após a exposição, ocasionados pela absorção da radiação ultravioleta pelo epitélio corneano, levando à inflamação e, em alguns casos, abrasão corneana. Eventualmente pode ser visualizada hiperemia das pálpebras devido à queimadura da pele pela radiação. A acuidade visual pode estar levemente diminuída. 

O epitélio corneano geralmente se regenera em 24 a 72 horas, sendo necessárias apenas medidas de suporte como uso de pomada oftálmica com antibiótico, colírio lubrificante e analgesia oral. 

Apesar de não termos evidências claras para o uso de antibiótico tópico, no manejo de abrasão corneana, é geralmente utilizado para prevenir superinfecção bacteriana, principalmente se identificado corpo estranho. São opções de antibióticos tópicos, por exemplo, ciprofloxacino 3,5mg/g ou tobramicina 3mg/g, sem associação com corticoides, 4 vezes ao dia, por 2 a 3 dias ou até o paciente estar assintomático por 24 horas. 

Não está indicado uso de curativos oclusivos, visto que não acrescentam benefício, podendo retardar a regeneração do epitélio corneano. Anestésicos tópicos podem ser utilizados  apenas no consultório médico para viabilizar o exame, e nunca devem ser prescritos para uso pelo paciente pois há risco de piora da lesão e perfuração ocular. 

Em caso de suspeita de corpo estranho, com aparecimento de sintomas de início abrupto e unilateral, deve-se realizar ectoscopia. Se o corpo estranho estiver visível e na conjuntiva, pode ser removido com cotonete umedecido com soro fisiológico, porém se for visualizado corpo estranho na córnea, ou haja suspeita mas não seja possível visualizá-lo, deve-se irrigar abundantemente com soro fisiológico e encaminhar para emergência oftalmológica para avaliação e remoção. 

Encaminhar para avaliação oftalmológica:

  • ausência de melhora com tratamento instituído; ou
  • suspeita de corpo estranho associado.

É fundamental reforçar a necessidade de proteção adequada em futuras exposições.

Referências:

  1. Lim CHL, Turner A, Lim BX. Patching for corneal abrasion. Cochrane Database Syst Rev. 2016 July;7(7):CD004764. Doi 10.1002/14651858.CD004764.pub3.
  2. Wipperman JL, Dorsch JN. Evaluation and management of corneal abrasions. Am Fam Physician. 2013 Jan 15;87(2):114-120. Disponível em: https://www.aafp.org/afp/2013/0115/p114.html.
  3. Jacobs, DS. Photokeratitis. Literature review current through [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2018 July 26 [citado em 22 Maio 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/photokeratitis
  4. DynaMed. Record No. T917267, Photokeratitis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995; [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 22 Maio 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/photokeratitis.
  5. Conselho Brasileiro de Oftalmologia, Alves MR, coordenador. Doenças externas oculares e córnea. 4a ed. Rio de Janeiro: Editora Cultura Médica; 2016. [Série Oftalmologia Brasileira]. p. 331.
  6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Bulário Eletrônico. Brasília, DF; c2017 [citado em 22 Maio 2020]. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/index.asp.
  7. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2020. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2020 [citado em 22 Maio 2020]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relacao_medicamentos_rename_2020.pdf. 

Teleconsultoria por:

Bárbara Gastal Borges Fortes

Oftalmologista

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Revisão por:

Anelise Decavatá Szortyka

Oftalmologista

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Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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