Quais são os critérios para considerarmos um tratamento adequado de sífilis em gestante?

27/09/2019

Para fins clínicos e assistenciais, alguns fatores são considerados para o tratamento adequado da gestante com sífilis, como:

  • Administração de benzilpenicilina benzatina: a benzilpenicilina benzatina é a única opção segura e eficaz para tratamento adequado das gestantes. Embora outros antibióticos (como as tetraciclinas orais e os macrolídeos) tenham sido utilizados para tratamento de sífilis em adultos, estes não são recomendados no período da gestação por causa da toxicidade ao feto ou por não atravessarem a barreira placentária. Não existem estudos controlados em gestantes que tenham determinado a eficácia da ceftriaxona no tratamento do feto. Por essa razão, não é uma medicação recomendada para o tratamento de sífilis na gravidez.

Saiba mais na Pergunta da semana “Qual é o tratamento alternativo para sífilis, na impossibilidade do uso de penicilina?”.

  • Início do tratamento até 30 dias antes do parto.
  • Esquema terapêutico de acordo com o estágio clínico (conforme tabela abaixo):
Estágio Clínico Esquema Terapêutico
Sífilis recente (com menos de dois anos de evolução): sífilis primária, secundária e latente recente Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, intramuscular, dose única*
Sífilis tardia (com mais de 2 anos de evolução): sífilis latente tardia ou latente com duração ignorada e sífilis terciária Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, intramuscular, 1 vez por semana, por 3 semanas. Dose total: 7,2 milhões UI, intramuscular**
Neurossífilis Benzilpenicilina cristalina 18 a 24 milhões UI/dia, IV, administrada em doses de 3 a 4 milhões de UI, a cada 4 horas ou por infusão contínua, por 14 dias

*Em situações especiais como desabastecimento, a OMS recomenda utilizar Ceftriaxona 1g, intramuscular, por 10 a 14 dias, para tratamento de sífilis recente. Nesses casos será necessário notificar/investigar e tratar a criança para sífilis congênita.
** Não existem outras opções terapêuticas na literatura.

  • Respeito ao intervalo recomendado de doses: no tratamento da sífilis latente tardia ou latente com duração ignorada, o intervalo ideal entre as doses de benzilpenicilina é de 7 dias. Gestantes que ultrapassarem o intervalo de 14 dias entre as doses devem reiniciar o esquema terapêutico.

Saiba mais na Pergunta da Semana “Qual o intervalo máximo entre as doses de penicilina G benzatina para o tratamento da sífilis latente ser considerado adequado?”

  • Avaliação quanto ao risco de reinfecção: muitas vezes é difícil diferenciar entre reinfecção, reativação e resposta imunológica mais lenta. Por isso é fundamental a avaliação da presença de sinais ou sintomas clínicos novos, reexposição de risco, violência sexual, morbidades, histórico do tratamento (duração, adesão e medicação utilizada) e exames laboratoriais prévios para facilitar a elucidação diagnóstica.
  • Resposta imunológica adequada: documentação de queda do título do teste não treponêmico em pelo menos duas diluições em três meses, ou de quatro diluições em seis meses, após a conclusão do tratamento.  Nas gestantes, o teste não treponêmico deve ser solicitado mensalmente até o parto.

Saiba mais na Pergunta da Semana: Quais exames solicitar após tratamento de um paciente com sífilis adquirida?”.

Se os critérios acima não forem cumpridos, o tratamento da gestante é considerado inadequado. Assim, o recém-nascido será notificado como sífilis congênita e submetido a avaliação clínica e laboratorial. Reforça-se a importância do registro de todas as ações na caderneta de pré-natal da gestante, evitando, assim, que a criança exposta seja submetida a intervenções desnecessárias no pós-parto.

As parcerias sexuais de gestantes com sífilis podem estar infectadas, mesmo apresentando testes imunológicos não reagentes; portanto, devem ser tratadas presumivelmente com Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, intramuscular, dose única. Se o teste for reagente para sífilis, realizar o mesmo tratamento da gestante, conforme suspeita clínica e sorológica.

Saiba mais na Pergunta da Semana “Como devem ser tratadas as parcerias sexuais de pacientes com sífilis?”

Referências:

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Brasília: Ministério da Saúde; 2019.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília: Ministério da Saúde; 2019.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Coordenação-Geral de desenvolvimento da Epidemiologia em Serviços. Guia de Vigilância em Saúde: volume único [recurso eletrônico] 3a. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2019.
  4. Brasil. Nota informativa n°2 2017. Altera os critérios de definição de casos para notificação de sífilis adquirida, sífilis em gestantes e sífilis congênita. Sistema Eletrônico de Informações. 2017 set. 19. Disponível em: <http://portalsinan.saude.gov.br/images/documentos/Agravos/Sifilis-Ges/Nota_Informativa_Sifilis.pdf>.
  5. Errol RN, Charles BH. Syphilis in pregnancy. Waltham (MA): UpToDate, Inc.; 2019 [citado em 2019 Ago]. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/syphilis-in-pregnancy>.
  6. Dynamed. Record No. 115619, Primary syphilis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995 [atualizado em 30 nov. 2018]. Disponível em: <http://www.dynamed.com/login.aspx?direct=true&site=DynaMed&id=115619>.
  7. Dynamed. Record No. 115040, Latent syphilis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995 [atualizado em 30 nov. 2018]. Disponível em: <http://www.dynamed.com/login.aspx?direct=true&site=DynaMed&id=115040>.
  8. Schub T, March P, Pravikoff D. Sexually Transmitted Diseases During Pregnancy: Syphilis. CINAHL Nursing Guide. Database: Nursing Reference Center; 2018 Nov 9.
  9. World Health Organization. WHO Guideline for the treatment of Treponema pallidum (syphilis). Geneva: WHO; 2016. Disponível em: <https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/249572/9789241549806-eng.pdf?sequence=1>.

Teleconsultoria por:

Fabiane Elizabetha de Moraes Ribeiro

Enfermeira

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Revisão por:

Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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