Quando crianças com hérnia umbilical devem ser tratadas cirurgicamente?

O tratamento cirúrgico eletivo da hérnia umbilical em crianças está indicado quando [1-4]:

  • a hérnia umbilical persistir após 4 a 5 anos de idade; ou
  • o defeito fascial for maior do que 1,5 a 2 cm, após 2 anos de idade, e não houver redução após um 1 ano ou mais de acompanhamento na Atenção Primária à Saúde (APS).

A resolução espontânea das hérnias umbilicais ocorre em cerca de 80 a 90% dos casos até os 5 anos de idade [1,3,4,5,6,7,8]. Assim, em geral, casos assintomáticos com anel umbilical que continua diminuindo podem ser observados na APS, independentemente da idade [3,5,6,9]. Defeitos fasciais maiores que 1,5 a 2 cm, quantidade significativa de pele protuberante e/ou idade maior que 5 anos dificultam seu fechamento completo [1,3,4]. De forma geral, o risco de recorrência e de complicações cirúrgicas é maior quando a correção é realizada em crianças com menos de  4 anos [4,6,9].

A redução da hérnia e a fixação da pele sobre a parede abdominal com uso de cintos, faixas, moedas ou botões não modifica sua evolução natural. Essa prática deve ser desencorajada já que pode levar a complicações cutâneas, como maceração e infecção [1,2,4,8].

A hérnia umbilical ocorre em decorrência de fechamento imperfeito ou fraqueza do anel umbilical. Seu diagnóstico é clínico, não sendo necessário exames de imagem de rotina [7]. É detectada como uma protuberância leve coberta por pele, principalmente quando há aumento da pressão intra-abdominal, como quando ocorre no choro ou na tosse. A hérnia umbilical é facilmente reduzida, mesmo se volumosa, e as bordas do defeito fascial podem então ser palpadas [1,3,6].  Condições como prematuridade, baixo peso ao nascer (< 1.500 g), cor de pele preta, Síndrome de Ehlers-Danlos, Síndrome de Beckwith-Wiedemann e Síndrome de Down são possíveis fatores de risco para seu aparecimento [3,4,8]. 

A cirurgia de urgência/emergência está indicada na presença de complicações, como encarceramento e estrangulamento herniário. Apesar de raro, o encarceramento, definido como a incapacidade de reduzir a hérnia por manipulação, indica correção cirúrgica em serviço de urgência/emergência para evitar o estrangulamento, evento ainda mais incomum entre crianças. Suspeita-se deste último na presença de sinais de obstrução intestinal, como náusea, vômito, dor abdominal, ausência de eliminação de flatos e distensão abdominal, que podem estar acompanhados de sintomas sistêmicos, como febre, taquicardia e hipotensão, se ocorrer necrose intestinal [1,3,4,5,6]. 

Referências:

  1. Kliegman RM, Stanton BF, St. Geme III JW, Schor NF, Behrman RE. Nelson Tratado de Pediatria. 20a ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2018. p. 891.
  2. Hoffenberg E, Liu E, Brumbaugh D, Furuta GT, Kobak G, Soden J, et al. Trato gastrointestinal. In: Hay Jr WW, Levin JM, Deterding RR, Abzug MJ. Current Pediatria: diagnóstico e tratamento. 22a ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. Cap. 21, p. 651-694.
  3. Dynamed. Record No. T115363, Umbilical hernia in infants and children [Internet].  Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 1995 [atualizado em 30 nov. 2018, citado em 29 Out 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/topics/dmp~AN~T115363
  4. Palazzi DL, Brandt ML. Care of the umbilicus and management of umbilical disorders [Internet]. Waltham (MA): UpToDate [atualizado em 22 Jun 2020, citado em 28 Set 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/care-of-the-umbilicus-and-management-of-umbilical-disorders
  5. Almeflh W, AlRaymoony A, AlDaaja MM, Abdullah B, Oudeh A. A systematic review of current consensus on timing of operative repair versus spontaneous closure for asymptomatic umbilical hernias in pediatric. Med Arch. 2019 Aug;73(4):268-71. Doi 10.5455/medarh.2019.73.268-271.
  6. Halleran DR, Minneci PC, Cooper JN. Association between age and umbilical hernia repair outcomes in children: a multistate population-based cohort study. J Pediatr. 2020 Feb;217:125-30. Doi 10.1016/j.jpeds.2019.10.035.
  7. Canadian Association of Paediatric Surgeons. Six things physicians and patients should question. Toronto; June 2017 [citado em 29 Out 2020]. Disponível em: https://choosingwiselycanada.org/paediatric-surgery/
  8. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, Duncan MS, Giugliani C, editores. Medicina Ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4a ed. Porto Alegre: Artmed; 2013. p. 294-6, 1834.
  9. American Academy of Pediatrics – Section on Surgery. Five things physicians and patients should question. Philadelphia; 4 Nov 2019 [citado em 29 Out 2020]. Disponível em: https://www.choosingwisely.org/societies/american-academy-of-pediatrics-section-on-surgery/. 

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Quando crianças com hérnia umbilical devem ser tratadas cirurgicamente? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano da citação”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quando-criancas-com-hernia-umbilical-devem-ser-tratadas-cirurgicamente/.

Teleconsultoria por:

Luíza Emília Bezerra Medeiros

Médica de Família e Comunidade

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Revisão por:

Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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Renata Rosa de Carvalho

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