Quando deve ser solicitado FAN (Fator Antinuclear)?

O FAN (Fator Antinuclear) deve ser realizado apenas em pacientes com suspeita de doença autoimune [1]. O FAN é um marcador sorológico de distúrbios autoimunes que apresenta grande sensibilidade e baixa especificidade, tem uma alta capacidade de detectar indivíduos com a doença, mas uma baixa capacidade de excluir o diagnóstico nas pessoas não doentes [2].

Na ausência de sinais e sintomas sugestivos de doença reumática autoimune e inflamatória (DRAI), o FAN positivo confunde o diagnóstico, pois pode ser encontrado na população geral e em desordens em que não apresenta valor diagnóstico ou prognóstico [1]. Estima-se que a prevalência de doenças associadas ao FAN na população geral seja de 1% e que a presença do FAN na diluição de até 1:40 ocorra em 30% da população geral [3].

Ao avaliar o resultado de um FAN positivo é imprescindível a descrição do padrão e titulação [3]. Independente do padrão, o valor preditivo positivo específico para DRAI é baixo para título de 1:80 ou menor (≤4%), mas aumenta conforme o incremento na titulação de anticorpos, sendo títulos altos,  ≥ 1:640 mais associados a DRAI [4].

Em relação aos seus padrões, o nuclear pontilhado centromérico, o nuclear pontilhado grosso e o nuclear homogêneo são os que apresentam maiores valores preditivos positivos para DRAI. Por outro lado, o padrão nuclear pontilhado fino denso, mesmo em altos títulos, sugere anticorpo sem contexto clínico específico e frequentemente está presente em indivíduos hígidos ou em condições não associadas à autoimunidade [1].

Em pacientes com FAN reagente, principalmente com  baixos títulos (<1:160), com padrões inespecíficos e sem sinais e sintomas sugestivos de DRAI, não há necessidade de realizar investigação adicional, nem  de encaminhar para reumatologia. Assim, a presença de sintomas inespecíficos, como artralgia e astenia, e exames laboratoriais gerais normais, como hemograma, exame simples de urina, creatinina sérica e transaminases, não é suficiente para indicar a realização do FAN ou subsidiar um achado laboratorial positivo em título baixo e com padrão de fluorescência pouco específico. Nesses casos, deve-se proceder ao acompanhamento clínico do paciente [1,5].

Em pacientes que já foram diagnosticados com doença associada ao FAN, mudanças nos títulos não são úteis para monitorizar a atividade da doença, portanto, repetições do FAN não estão indicadas [6].

Tabela 1: Principais padrões de FAN e possíveis antígenos envolvidos e associações clínicas.

Padrão do FAN Possíveis antígenos envolvidos Condições clínicas associadas
Nuclear pontilhado fino Anticorpo anti-SSA e anti-SSB Síndrome de Sjogren, lúpus eritematoso, polimiosite.
Nuclear pontilhado fino denso Anticorpo antiproteína p75 É um dos padrões mais frequentes encontrados na rotina, cuja correlação clínica ainda não está bem estabelecida, sendo frequentemente encontrado em indivíduos sem evidência objetiva de doença sistêmica.
Nuclear pontilhado grosso Anticorpo anti-SM e anti-RNP Anti-SM: marcador para lúpus eritematoso;
Anti-RNP: critério obrigatório de doença mista do tecido conjuntivo, também presente no lúpus eritematoso e esclerose sistêmica.
Nuclear pontilhado centromérico Anticorpo anticentrômero Esclerose sistêmica forma CREST (calcinose, fenômeno de Raynaud, disfunção motora do esôfago, esclerodactilia e telangiectasia), cirrose biliar primária e síndrome de Sjögren.
Nuclear homogêneo Anticorpo anti-DNA nativo, anti-histona e anti-cromatina Anticorpo anti-DNA nativo: marcador de lúpus eritematoso sistêmico;
Anticorpo anti-histona: marcador de lúpus eritematoso sistêmico induzido por drogas;
Anticorpo anti-cromatina: lúpus eritematoso sistêmico.
Nucleolar homogêneo Anticorpo anti-To/Th e anti-B23 Anticorpo anti-To/Th: ocorre na esclerose sistêmica;
Anticorpo anti-B23 (nucleofosmina): descrito na esclerose sistêmica, alguns tipos de câncer, síndrome do anticorpo antifosfolípide.
Nucleolar pontilhado Anticorpo anti-NOR 90 e anti-RNA polimerase I Anticorpo anti-NOR 90: Descrito na esclerose sistêmica;
Anticorpo anti-RNA polimerase : Esclerose sistêmica de forma difusa com tendência para comprometimento visceral mais frequente e grave.
Citoplasmático pontilhado fino denso Anticorpo antiproteína P-ribossomal Esse padrão ocorre no lúpus eritematoso sistêmico e está particularmente associado ao anticorpo antiproteína P-ribossomal.
Citoplasmático pontilhado fino Anticorpo anti-histidil t RNA sintetase (Jo1) Anticorpo marcador de polimiosite no adulto. Descrito raramente na dermatomiosite.
Citoplasmático pontilhado reticulado Anticorpo anti-mitocôndria Marcador da cirrose biliar primária. Raramente encontrado na esclerose sistêmica.

Fonte: Adaptado de Francescantonio et al (2009) [7].

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Referências:

  1. Dynamed. Record No. T913880, approach to the patient with a positive antinuclear antibody (ANA) test [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995 [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 14 Set 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/topics/dmp~AN~T913880.  
  2. Dellavance A, Leser PG, Andrade LEC. Análise crítica do teste de anticorpos antinúcleo (FAn) na prática clínica. Rev. Bras. Reumatol. 2007 July-Ago;47(4):265-75. Doi 10.1590/S0482-50042007000400005. 
  3. Bloch DB. Clinical significance of antinuclear antibody staining patterns and associated autoantibodies [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 3 Mar 2020, citado em 14 Set 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-significance-of-antinuclear-antibody-staining-patterns-and-associated-autoantibodies
  4. Soares JLMF, Scalco G. Fator antinuclear (FAN), detecção de. In: Soares JLMF, Rosa DD, Leite VRS, Pasqualotto AC. Métodos diagnósticos: consulta rápida. 2a ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. p. 284-6. 
  5. Wallace DJ, Gladman DD. Clinical manifestations and diagnosis of systemic lupus erythematosus in adults [Internet]. Waltham (MA): UpToDate;  [atualizado em 10 Dec 2019, citado em 14 set 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-systemic-lupus-erythematosus-in-adults
  6. Bloch DB. Measurement and clinical significance of antinuclear antibodies [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 19 Jul 2019, citado em 14 Set 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/measurement-and-clinical-significance-of-antinuclear-antibodies.  
  7. Francescantonio PLC, Andrade LEC, Cruvinel WM et al. III Consenso Brasileiro para Pesquisa de Autoanticorpos em Células HEp-2: perspectiva histórica, controle de qualidade e associações clínicas. J. Bras. Patol. Med. Lab. 2009 June;45(3):185-99,  June  2009. Doi 10.1590/S1676-24442009000300003.  
  8. Hochberg MC, Silman AJ, Smolen JS, editors. Rheumatology. 6a ed. St Louis: Elsevier Mosby; 2015. v. 2.

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Quando deve ser solicitado FAN (Fator Antinuclear)? Porto Alegre; Set 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quando-deve-ser-solicitar-fan-fator-antinuclear/

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