{"id":2164,"date":"2018-06-04T03:00:00","date_gmt":"2018-06-04T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/temas\/quando-o-desabastecimento-for-solucionado-a-crise-ira-permanecer-ou-nos-iremos-mudar-apontamentos-para-uma-reflexao-socioambiental-por-lorena-fleury\/"},"modified":"2018-06-04T03:00:00","modified_gmt":"2018-06-04T03:00:00","slug":"quando-o-desabastecimento-for-solucionado-a-crise-ira-permanecer-ou-nos-iremos-mudar-apontamentos-para-uma-reflexao-socioambiental-por-lorena-fleury","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/temas\/quando-o-desabastecimento-for-solucionado-a-crise-ira-permanecer-ou-nos-iremos-mudar-apontamentos-para-uma-reflexao-socioambiental-por-lorena-fleury\/","title":{"rendered":"&#8220;Quando o desabastecimento for solucionado, a crise ir\u00e1 permanecer ou n\u00f3s iremos mudar? Apontamentos para uma reflex\u00e3o socioambiental&#8221; por Lorena Fleury"},"content":{"rendered":"<p>Estamos em crise. Nas conversas de elevador \u00e0s filas nos caixas de supermercado, nos grupos de WhatsApp \u00e0s reuni\u00f5es de associa\u00e7\u00f5es e coletivos, proliferam as constata\u00e7\u00f5es sobre a crise e seus in\u00fameros sintomas, assim como proliferam as explica\u00e7\u00f5es, interpreta\u00e7\u00f5es, proposi\u00e7\u00f5es. A partir da perspectiva socioambiental, que \u00e9 o lugar de onde eu falo, eu tamb\u00e9m quero dar os meus dois tost\u00f5es \u2013 ou, melhor dizendo, lutar pelos meus vinte centavos.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o isso lembrando do que a antrop\u00f3loga indiana Veena Das fala sobre o Estado e suas margens. Das afirma que \u00e9 compreendendo o sofrimento social das pessoas em suas vidas cotidianas e em eventos cr\u00edticos que se entende como funciona o Estado, ou, mais do que isso, entende-se como as sociedades nacionais s\u00e3o feitas das vidas das pessoas, em complexas rela\u00e7\u00f5es entre o local e o global. Veena Das observa, tamb\u00e9m, como eventos cr\u00edticos, enquanto momentos de &#8220;quebra do cotidiano&#8221;, permitem explicitar as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas nas no\u00e7\u00f5es e nas pr\u00e1ticas da pol\u00edtica contempor\u00e2nea. Sendo assim, uma crise n\u00e3o \u00e9 um desvio, um ponto fora da curva, mas, ao contr\u00e1rio, o momento em que se escancara o que n\u00f3s somos, como vivemos<\/p>\n<p>Na crise de desabastecimento que estamos vivenciando nesse momento, se escancara a aus\u00eancia de legitimidade do governo, que nem mesmo cedendo, consegue fazer com que seja obedecido. Se escancara a total desconfian\u00e7a das pessoas em rela\u00e7\u00e3o a toda a classe pol\u00edtica ao exigir \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d \u2013 e aqui, me somo aos colegas que identificaram que o \u201cmilitar\u201d importa menos que o \u201cinterven\u00e7\u00e3o\u201d, isto \u00e9, que o que as pessoas t\u00eam clamado \u00e9 para uma interdi\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtica atual, por um agente externo que possa \u201czerar o jogo\u201d e a partir da\u00ed recome\u00e7armos. <\/p>\n<p>Especialmente, me interessa destacar que nessa crise se escancara a precariedade da economia f\u00f3ssil como estrutura socioecol\u00f3gica. <\/p>\n<p>O historiador ambiental sueco Andreas Malm, no livro \u201cFossil Capital\u201d, argumenta pela imbricada rela\u00e7\u00e3o entre o controle dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e o controle da for\u00e7a de trabalho, sendo justamente esse o n\u00f3 que sustenta o capitalismo. Discute como a economia f\u00f3ssil tem o aspecto de uma totalidade, na qual \u201cum certo tipo de din\u00e2mica econ\u00f4mica e uma certa forma de energia est\u00e3o soldadas\u201d, aparecendo como indistingu\u00edveis entre si e da pr\u00f3pria vida, como \u201cbusiness-as-usual\u201d. Mas, continua Malm, \u201ca economia f\u00f3ssil foi historicamente constru\u00edda e, desde ent\u00e3o, tem sido reproduzida e ampliada, e tudo que foi constru\u00eddo ao longo do tempo pode potencialmente ser destru\u00eddo (ou escapado)\u201d<\/p>\n<p>Na crise de desabastecimento que estamos vivendo, a estrutura socioecol\u00f3gica de depend\u00eancia de combust\u00edveis f\u00f3sseis est\u00e1 expl\u00edcita: a pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobr\u00e1s repercute na mobilidade urbana, no transporte de cargas, na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, cada um desses eixos com seus tentaculares efeitos domin\u00f3 (aulas em escolas e universidades canceladas, alimenta\u00e7\u00e3o sem verduras e produtos frescos, instabilidade no governo, para citar alguns exemplos dentre os v\u00e1rios poss\u00edveis em cada). <\/p>\n<p>A crise escancara, mas n\u00e3o \u00e9 um desvio: muitas pessoas t\u00eam apontado uma rela\u00e7\u00e3o de afinidade intensiva entre os acontecimentos das \u00faltimas semanas com aqueles de junho de 2013. De fato, em meio a todas as diferen\u00e7as \u2013 e talvez a mais politicamente marcante seja a de que em 2013 os protestos tinham como alvo o governo progressista-desenvolvimentista de Dilma\/Lula, e agora confrontam a pol\u00edtica neoliberal e privatizante de Temer \u2013 a estrutura socioecol\u00f3gica em pane \u00e9 a mesma. A disputa pela mobilidade urbana j\u00e1 estava l\u00e1, \u00e9 claro, mas n\u00e3o apenas. Como afirma a soci\u00f3loga argentina Maristella Svampa, os governos neoextrativistas que atuaram na primeira d\u00e9cada dos anos 2000 na Am\u00e9rica Latina, ao seguirem o \u201cConsenso de Commodities\u201d como uma maneira de sustentarem suas pol\u00edticas econ\u00f4micas e sociais, minimizaram as enormes consequ\u00eancias ambientais e pol\u00edticas de aprofundarem o lugar latino-americano de \u201cexportador de natureza\u201d (isto \u00e9, de g\u00e1s, petr\u00f3leo, metais, minerais e produtos agr\u00e1rios). Se o ciclo de protestos de junho de 2013 n\u00e3o foi pelos conflitos ambientais ocasionados pela cont\u00ednua expropria\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios habitados por comunidades tradicionais, ind\u00edgenas e quilombolas, causada pelo avan\u00e7o da soja ou de grandes projetos de infraestrutura, sem d\u00favida estes conflitos ajudaram a fraturar o interior de movimentos sociais e do pensamento cr\u00edtico no campo da esquerda, fraturas que seguem expostas na crise atual.<\/p>\n<p>Afinidade intensiva, portanto, entre os protestos de 2013 e os protestos das \u00faltimas semanas, porque n\u00e3o se trata de uma continuidade por extens\u00e3o, n\u00e3o se tratam de pontos que se ligam linearmente, mas por serem movidos por uma pot\u00eancia comum, por serem desdobramentos m\u00faltiplos de uma crise socioecol\u00f3gica. Volto a Veena Das, que afirma que a sensa\u00e7\u00e3o de crise tal qual vivenciada pelas pessoas atua como elemento crucial na reelabora\u00e7\u00e3o dos sentidos, das narrativas sobre sujeitos, espa\u00e7os e acontecimentos. Ao olharmos ao redor, em meio \u00e0 crise, vemos que as pessoas t\u00eam conseguido seguir com a vida cotidiana deixando o carro e andando a p\u00e9 ou de bicicleta; que enquanto no supermercado n\u00e3o h\u00e1 mais frutas frescas, a pequena feira de agricultores que acontece no bairro continua abastecida. Vemos imagens de aves e porcos sofrendo sem alimenta\u00e7\u00e3o em caminh\u00f5es de carga, e nos damos conta de que aves e porcos s\u00e3o transportados centenas de quil\u00f4metros em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias ainda antes do abate. A pergunta que agora nos podemos fazer \u00e9: quando o desabastecimento for solucionado, a crise ir\u00e1 permanecer ou n\u00f3s iremos mudar?<\/p>\n<p>Gosto da afirma\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo franc\u00eas Fran\u00e7ois Zourabichvili, de que \u201co poss\u00edvel chega pelo acontecimento, e n\u00e3o o inverso\u201d. Que a irrup\u00e7\u00e3o da crise enquanto um acontecimento, que tem sacudido o cotidiano de todas e todos nos \u00faltimos dias e que nos tem feito enfrentar o que somos enquanto sociedade, abra um novo campo de poss\u00edveis, no qual nossa estrutura socioecol\u00f3gica possa se reconfigurar a partir de bases mais sustent\u00e1veis para as pessoas (humanas e n\u00e3o-humanas) que nela vivem. <\/p>\n<p>Este artigo que foi publicado no jornal Sul21 em 31.05.2018: <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/opiniaopublica\/2018\/05\/quando-o-desabastecimento-for-solucionado-a-crise-ira-permanecer-ou-nos-iremos-mudar-por-lorena-c-fleury\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sul21.com.br\/opiniaopublica\/2018\/05\/quando-o-desabastecimento-for-solucionado-a-crise-ira-permanecer-ou-nos-iremos-mudar-por-lorena-c-fleury\/<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos em crise. 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