ANÁLISE DE CONJUNTURA INTERNACIONAL
Atuação Russa no Mali: imperialismo ou parceria estratégica?
por Luca Franklin Primon
22 de maio de 2026
Em 25 de abril deste ano, ataques coordenados a bases militares e residências de políticos no Mali causaram a morte de Sadio Camara, Ministro da Defesa, e o abandono de cidades no norte, por parte do exército maliense. Esse evento, muito noticiado pela imprensa ocidental, trouxe à tona novamente a guerra civil no Mali, iniciada em 2012, na qual estão em combate o governo central, grupos secessionistas – como o Movimento Nacional para a Libertação de Azawad – e organizações fundamentalistas islâmicas, a exemplo do Estado Islâmico no Grande Saara.
Ademais, a imprensa não hesitou em criticar a presença russa no Mali, argumentando que Moscou reproduziria práticas de caráter imperialista, por meio de seus mercenários (Africa Corps). No entanto, esse argumento não se sustenta, sobretudo ao realizar uma comparação entre Rússia e França, a antiga metrópole colonial do Mali. Após o início da guerra civil, o governo do Mali requisitou intervenção francesa, visando obter auxílio militar contra os rebeldes. Apesar de ter havido um avanço inicial contra os insurgentes, a guerra civil perdurou e as forças francesas permaneceram no país, aprofundando da dependência do Mali em relação à França nos âmbitos militar (os franceses operavam de forma independente ao exército malinês) e econômico (a presença militar francesa fortaleceu a prevalência de Paris na Zona do Franco). Por fim, o objetivo militar da França nunca foi engajar em combates pesados e reconquistar os territórios rebeldes, mas sim manter uma posição defensiva em cidades estratégicas.
Em razão da perduração da guerra civil e do sentimento anti-francês crescente no Mali, houve um golpe de Estado em 2020, perpetuado por uma junta militar nacionalista e anti-ocidental. O resultado direto disso foi a expulsão das tropas francesas do país, em 2022, e a assinatura de diversos acordos de cooperação militar com a Rússia, visando fortalecer as forças armadas no combate aos insurretos. É nesse contexto em que se deu a parceria estratégica do Mali com os mercenários do Africa Corps, cuja presença é crucial para a segurança do governo. Ao contrário da intervenção francesa, a Rússia visa a retomada de todo o território do Mali e opera como uma “prestadora de serviços”, em que há o fornecimento de armamentos e pessoal – que ficam sob o comando do exército do Mali –, em troca de pagamentos em dinheiro ou na forma de concessões de exploração de minas.
É claro que não se pode ser ingênuo: a Rússia possui interesses na região e realiza esses acordos visando ganhos de influência e financeiros. No entanto, deve-se entender claramente a diferença entre a presença neocolonial francesa e a parceria estratégica com a Rússia para o Mali. Enquanto no primeiro caso perpetua-se uma relação de subjugação, na qual prevalecem os interesses franceses, no segundo o Mali consegue ter maior autonomia sobre a sua política interna e externa e um maior controle dos seus recursos. Sob essa ótica, é possível compreender o porquê da aproximação de diversos países africanos à Rússia, sobretudo nos setores de segurança e defesa: Moscou é vista como um potencial fornecedor de armamentos e equipamentos militares às nações africanas (que, muitas vezes, tem dificuldades em adquirir armamentos estadunidenses ou europeus), e como o principal rival militar do ocidente.
Após mais de um mês da retomada das tensões entre os separatistas e o exército do Mali, os combates continuam. Há relatos de combates em diversas regiões do país, inclusive nos arredores da capital do país, Bamako. Além disso, também estão sendo utilizados drones, helicópteros de ataque e peças de artilharia em escala considerável pelas forças malineses. É notável o aprofundamento da guerra civil e a intensificação do conflito. Deve-se observar, nesse momento, o desenrolar dos combates, observando a atuação das forças conjuntas do Mali e Africa Corps e a forma como se dará a resposta ocidental.
Referências:
ENTENDA os interesses da França no Mali. BBC Brasil, São Paulo, 16 jan. 2013. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/01/130116_mali_franca_bg. Acesso em: 22 abr. 2026.
GUNMEN stage simultaneous attacks across Mali, army says. Al Jazeera, Doha, 25 abr. 2026. Conflict. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/4/25/mali-army-says-armed-groups-launch-nationwide-attacks-gunfire-near-airport. Acesso em: 22 maio 2026.
MALI drone strikes kill at least 10 civilians at wedding. Al Jazeera, Doha, 18 maio 2026. Conflict. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/5/18/mali-drone-strikes-kill-at-least-10-civilians-at-wedding. Acesso em: 22 maio 2026.
MINISTRO da Defesa do Mali é morto em ataque de grupo ligado à Al-Qaeda. CNN Brasil, São Paulo, 26 abr. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/ministro-da-defesa-do-mali-e-morto-em-ataque-de-grupo-ligado-a-al-qaeda/. Acesso em: 22 maio 2026.
SOUZA, Bento. Novos ataques jihadistas no centro do Mali ceifam dezenas de vidas. Segunda Base, S.l., 11 maio 2026. Disponível em: https://www.segundabase.com.br/estatisticas/novos-ataques-jihadistas-no-centro-do-mali-ceifam-dezenas-de-vidas/278202/. Acesso em: 22 maio 2026.
THE Africa Corps: The Sahel Front. RT, Moscou, 7 maio 2026. https://www.rt.com/shows/documentary/639501-africa-corps-sahel-front/. Acesso em: 22 maio 2026.
WHAT’S driving the coordinated attacks across Mali?. Al Jazeera, Doha, 28 abr. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/video/newsfeed/2026/4/28/whats-driving-the-coordinated-attacks-across-mali. Acesso em: 22 maio 2026.
