ANÁLISE DE CONJUNTURA INTERNACIONAL
Hegemonia em declínio e reordenamento atlântico: a retirada militar dos EUA como catalisador da emancipação europeia
por Daniel Golembiewski Ribeiro Mendes
06 de junho de 2026
ERNST, Jonathan. U.S. President Donald Trump and German Chancellor Friedrich Merz meet in the Oval Office at the White House in Washington, D.C., on March 3, 2026. 2026. 1 fotografia. Reuters. Disponível em: https://www.cfr.org/articles/europes-disjointed-response-to-the-u-s-israeli-war-with-iran. Acesso em: 6 jun. 2026.
No dia 30 de abril, Trump declarou aos jornalistas em entrevista: “Vamos reduzir muito. E vamos cortar bem além de 5.000.”, referindo-se ao extenso contingente de soldados norte-americanos estacionados na Alemanha. A declaração ampliou uma redução já anunciada previamente, com Trump sinalizando ainda possíveis retiradas da Espanha e da Itália. Evidentemente, a decisão ocorre como uma tentativa do presidente dos EUA de retaliar seus aliados europeus, em vista da recusa dos líderes do continente em apoiar sua campanha militar contra o Irã. A estratégia envolve atacar publicamente líderes como Merz, o espanhol Pedro Sánchez e o britânico Keir Starmer por não se envolverem diretamente nos esforços militares. Em contraste, o ministro da Defesa alemão tentou moderar o tom: Boris Pistorius afirmou que a retirada era “previsível” e que os países europeus precisam assumir mais responsabilidade pela própria defesa, mas frisou que “a presença de soldados norte-americanos na Europa, e especialmente na Alemanha, é do nosso interesse e do interesse dos EUA.”
Em primeira análise, a redução do contingente, por si só, não é uma catástrofe para as relações bilaterais entre EUA e União Europeia. Todavia, o sinal político é de que Washington demonstra disposição de rever os próprios fundamentos de sua presença no outro lado do Atlântico. A Alemanha é um dos países da OTAN que, diferentemente de Espanha e Itália, autorizou o uso de bases militares para ataques contra o Irã. Mesmo após essa generosa concessão, a Casa Branca anunciou tarifas de 25% sobre automóveis e caminhões europeus e, ainda na mesma semana, acusou a UE de violar o acordo comercial negociado com Washington. O presidente da comissão de comércio do Parlamento Europeu, Bernd Lange, rebateu afirmando que a UE está respeitando o acordo e que são os EUA que têm violado compromissos em mais de 400 produtos, sujeitos a uma tarifa média de 26%.
Ademais, o chefe do Instituto de Pesquisa Econômica alemão, Clemens Fuest, alertou que a Alemanha corre risco de recessão em 2026 caso as tarifas gerem uma guerra comercial. Nesse cenário, é possível que os europeus busquem um aliado norte-americano alternativo: o Canadá, cujo primeiro-ministro Mark Carney foi o convidado de honra do encontro da Comunidade Política Europeia ocorrido recentemente em Ierevan, na Armênia, para coordenar respostas às ameaças tarifárias e à retirada militar.
Diante disso, a perda de credibilidade dos Estados Unidos como aliado militar pode ser a consequência mais grave de todo o conflito para os norte-americanos. Nenhum líder europeu ou da própria OTAN foi consultado previamente aos ataques de EUA e Israel ao território iraniano. Não é surpreendente, portanto, que os demais atores ocidentais recusem envolver-se em um conflito decidido unilateralmente por Trump, sem qualquer processo de deliberação coletiva no âmbito da Aliança Atlântica. Com efeito, os custos econômicos estão sendo pagos por países que sequer participaram da tomada de decisão.
A longo prazo, o risco não é apenas o enfraquecimento da OTAN como estrutura militar, mas a erosão da própria confiança na liderança norte-americana como alicerce sobre o qual se construiu a ordem liberal do pós-guerra. Essa aliança, por mais que tenha fortalecido ambas as partes, sempre manteve os europeus subordinados aos norte-americanos, coniventes com o sistema enquanto era possível crescer junto ao ator hegemônico. Entretanto, no contexto hodierno, os europeus podem ter percebido que a sua dependência, outrora benéfica, não traz os mesmos frutos de antes. Muito por conta da ingerência dos EUA em sustentar sua posição frente ao crescimento de outras potências. Nesse cenário, a possibilidade de uma autonomia europeia multilateral revela-se não apenas como um projeto idealista, mas como imperativo para a sua própria sobrevivência geopolítica.
