ANÁLISE DE CONJUNTURA INTERNACIONAL
A atual situação política-social na Bolívia como estudo de caso para a guinada à direita da América do Sul
por Helena Camillo
18 de junho de 2026
O cenário político conjuntural da América do Sul é marcado pela disputa profundamente polarizada entre direita e esquerda, o que caracteriza movimentos cíclicos de alternância — seguindo uma tendência mundial — entre governos progressistas e conservadores. Especialmente na região, a estrutura política construiu-se a partir de um passado marcado pela colonização exploratória e por um processo contínuo de desindustrialização e de baixo dinamismo econômico, intensificado após a crise de 2008, reforçando a sua dependência estrutural aos fluxos econômicos do centro capitalista. Portanto, conclui-se que o subcontinente é marcado por instáveis instituições e as análises recentes indicam uma tendência geral de erosão dos indicadores democráticos.
Ademais, a “Onda Rosa” que assistiu o surgimento de governos de esquerda e centro-esquerda, foi substituída por governos conservadores (majoritariamente, a partir de 2016), principalmente, porque a crise do próprio capitalismo internacional transferiu a responsabilidade para esses governos que passaram a ser vistos como culpados diretos pela recessão econômica. Resultou-se disso, na América Latina, um sentimento de crise generalizada, mal-estar coletivo e insatisfação popular (pela deterioração das condições de vida) contra essas administrações de esquerda, além de outros fatores. Isso beneficiou a ascensão de governos conservadores, que souberam instrumentalizar o descontentamento popular através das redes sociais, notícias falsas e de suas campanhas políticas, em benefício de uma euforia social que acabou elegendo-os.
A Bolívia, por sua vez, hoje, passa por uma situação turbulenta. A questão da falta de combustíveis no país e o esgotamento de suas reservas internacionais exerceram papel essencial na virada política das eleições bolivianas no ano passado. Rodrigo Paz, que se declara centrista, caracterizou a sua vitória como o fim de um ciclo político que prejudicou o país. A título de exemplificação, o MAS (Movimiento al Socialismo) governou a Bolívia por mais de 15 anos e teve como figura principal o ex-presidente Evo Morales.
Entre as medidas declaradas pelo novo presidente, as principais são: descentralização governamental, crescimento do setor privado, mantendo os programas sociais, abertura ao mercado internacional das vastas reservas de lítio e gás do país e a diminuição dos subsídios sobre o insumo de combustíveis. É compreensível o fato de que o presidente teve de tomar iniciativas impopulares para retirar o país da conturbada situação econômica, que, inicialmente, aprofundaram a crise. Assim, Paz, recentemente, anunciou medidas de austeridade e favoreceu grandes proprietários de terra. A lei 1720, sancionada em abril deste ano, autorizou recalcular pequenas propriedades rurais em médias propriedades, o que gerou protestos dos movimentos rurais e indígenas, uma vez que a medida favorece a entrada de bancos especulativos nas áreas rurais, fortalecendo a concentração fundiária e a expropriação. Além do mais, Paz prepara um pacote de reformas que inclui aumentar o preço dos combustíveis e incentivar o investimento externo e produção doméstica desses combustíveis.
Mas, somente após 7 meses de governo, camadas sociais, envolvidas nos recentes protestos (iniciados no final do mês de abril), pedem a renúncia do atual presidente Rodrigo Paz. Mineradores, movimentos rurais e indígenas (“Ponchos Rojos”) e outros movimentos trabalhistas organizados pedem a resolução da crise econômica e financeira do país, que se agrava com a falta de reservas, combustíveis, inflação alta e baixos salários. Como parte dos protestos, os manifestantes bloquearam rodovias, levando à falta de suprimentos em diferentes partes do país, como oxigênio aos hospitais, equipamentos médicos e comida. Ademais, apoiadores do antigo presidente, Evo Morales, intensificaram os protestos que cresceram e atingiram o país inteiro. Em meio ao agravamento da crise política-institucional, os ministros da defesa, da educação e do trabalho renunciaram no início do mês de junho, o que demonstra a baixa coesão do governo no entendimento de como resolver a turbulência social e econômica do país que se agrava com a intensificação dos protestos.
Dessa maneira, existem, além dos elementos conjunturais e estruturais já citados, os resultados das iminentes eleições no Brasil, Colômbia e Peru como fatores conectados à conjuntura e que indicam uma virada de chave em favor da guinada à direita na América do Sul. Na Colômbia, La Espriella, que não apresenta trajetória política anterior e que diz admirar governos de extrema-direita, como os de Bukele em El Salvador, Trump nos Estados Unidos e Javier Milei na Argentina, ganhou o primeiro turno das eleições presidenciais. No Peru, Fujimori (que construiu sua trajetória no Partido “Fuerza Popular” que é assume o espectro político-ideológico de direita e aborda pautas conservadores e do liberalismo econômico) declarou querer atrair investimentos dos Estados Unidos, fortalecer os laços peruanos com Washington e abrir o mercado de minerais estratégicos para investidores externos, principalmente os ocidentais, é a representante dos conservadores de direita no país e tem grandes chances de vencer o pleito e assumir a presidência em julho. Já os brasileiros, ainda esse ano, precisam decidir um novo presidente e um dos candidatos com maior expectativa de voto é Flávio Bolsonaro (filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pela tentativa de golpe de Estado, após perder às últimas eleições para o atual presidente Lula), que é alinhado aos Estados Unidos e representa a camada conservadora e de extrema-direita do Brasil.
À vista do exposto, o atual cenário político sul-americano aponta para o aprofundamento do conservadorismo e das lideranças de extrema-direita que de um lado representam o movimento político pendular da região, acompanhando Karst no Chile e Milei na Argentina, mas também, seguem tendências continentais e mundiais, com Trump nos Estados Unidos, entre outros líderes de direita. E, apesar da recente quebra da volta do conservadorismo em 2016, com governos de centro-esquerda no Brasil (Lula), no Chile (Boric) e Colômbia (Petro), os recentes protestos na Bolívia e o despreparo do novo presidente com a crise estrutural boliviana, evidenciam um contexto político no subcontinente que acompanha e é reforçado pela reeleição de Trump nos Estados Unidos.
REFERÊNCIAS
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