ANÁLISE DE CONJUNTURA INTERNACIONAL
Autonomia estratégica ou dependência administrada? Os minerais críticos na disputa entre G7 e China
por William Gerhardt
23 de junho de 2026
Entre os dias 15 e 17 de junho deste ano, o Presidente da França, Emmanuel Macron, reuniu os líderes das sete economias mais industrializadas do mundo para a 52ª cúpula do G7, na cidade de Évian-les-Bains. Durante esse período, os representantes debateram questões que abrangeram desde os conflitos geopolíticos da Ucrânia, do Oriente Médio e do Indo-Pacífico até desafios econômicos e sociais, em especial desequilíbrios comerciais globais, segurança digital e saúde pública. Ao final do encontro, as lideranças realizaram a assinatura de nove comunicados conjuntos. Um deles, referente às cadeias de minerais críticos, destaca-se por seu conteúdo diplomático implícito.
O documento não menciona a China uma vez sequer. Embora não impeça que cada um de seus parágrafos seja endereçado à potência asiática, evidente nas menções a um “alto grau de concentração de mercado”, “restrições arbitrárias de exportação” e “coerção econômica”. Essas descrições nomeiam, nada sutilmente, as práticas que Pequim tem adotado desde 2025, quando restringiu as exportações de ímãs permanentes. Como consequência, houve uma interrupção de cadeias produtivas no Ocidente, que expôs uma dependência construída ao longo de décadas. Já no dia seguinte ao comunicado, reconhecendo seu teor, a China respondeu defendendo a legitimidade de suas políticas, além de acusar o G7 de tentar impor regras formuladas em um grupo fechado.
A omissão no documento do G7 não é acaso. Alguns dias antes da cúpula, Macron organizou uma videoconferência que incluiu o Vice-Premier chinês Zhang Guoqing para debater desequilíbrios econômicos globais. Um acontecimento incomum, visto que Pequim historicamente trata o grupo como ilegítimo para discutir a governança global. O aceite excepcional do convite pela China indica seu interesse em manter canais abertos, uma vez que depende dos mercados que o G7 representa quase tanto quanto o grupo necessita dos minerais que a China processa. É compreensível que a nomeação do rival em um comunicado formal tornaria insustentável pressionar e dialogar simultaneamente, e o G7 adotou essa estratégia dual.
O problema em tentar exercer pressão na mesma medida em que mantém as negociações é exatamente o que torna o comunicado tão pouco vinculante. A meta publicada de reduzir a dependência de um único fornecedor externo para menos de 60% das importações de terras raras e ímãs permanentes até 2030, buscando chegar a 50% o mais rápido possível, é particularmente ambiciosa para uma dependência que ultrapassa 80% em diversos minerais. Desde o início de 2026, 195 projetos nesse âmbito foram anunciados por países do G7 e parceiros, com €64 bilhões em investimento, indicando que os esforços já começaram a se materializar. No entanto, o próprio documento expõe os limites ao recorrer a expressões como “continuar a discutir a viabilidade” de mecanismos como pisos de preço e acordos comerciais plurilaterais, essenciais para a diversificação. Ou seja, o G7 chegou a Évian com seu desafio bem mapeado, mas saiu sem um consenso prático sobre a solução, que permaneceu vaga.
Isso ocorre porque a diversificação implica um custo que ninguém quer assumir explicitamente. A produção fora da China encarece o processo e essa despesa precisará ser absorvida, seja pelo consumidor, pelo fabricante ou pelo contribuinte. No comunicado, a questão é evitada, preferindo apostar na coordenação e financiamento, por meio da atuação dos bancos de desenvolvimento e do papel ampliado da Agência Internacional de Energia na coleta de dados e na emissão de alertas sobre possíveis disrupções. Esses mecanismos mostram-se úteis ao facilitarem investimentos e melhorarem a previsibilidade de mercados, mas são insuficientes para resolver o impasse central.
O que o G7 proporciona, portanto, é um diagnóstico claro do desafio que enfrenta, com uma resposta ainda inconclusiva. Caso a China decida aumentar as restrições às exportações antes de 2030, o Ocidente estará em uma posição melhor do que estava em 2025, mas não tão favorável quanto o comunicado sugere. A disputa pelos minerais críticos permanecerá sendo travada, em grande medida, nas condições favoráveis à China, cuja posição dominante no processamento de terras raras ainda lhe permite definir os termos desta competição.
Referências
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PAYNE, Julia. G7 sets up critical minerals alliance, platform to cut reliance on China. Reuters, 17. jun. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/europe/g7-sets-up-critical-minerals-alliance-crisis-platform-2026-06-17/. Acesso em: 21 jun. 2026.
ROSE, Michel; WANG, Ethan. China urges economic cooperation on Macron-led video call ahead of G7 summit. Reuters, Londres, 11 jun. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/china/china-joins-macron-led-video-call-rare-economic-talks-ahead-g7-summit-france-2026-06-11/. Acesso em: 21 jun. 2026.
