ANÁLISE DE CONJUNTURA INTERNACIONAL
Zeitenwende: o rearmamento alemão e a nova segurança europeia
por André Reginatto Küllinger
05 de junho de 2026
A invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 produziu uma transformação significativa na arquitetura de segurança europeia. Se antes da guerra a Europa vivia um período marcado pela redução relativa da centralidade militar e por uma maior dependência econômica e energética em relação à Rússia, o conflito recolocou a segurança e a defesa no centro da política continental. Nesse contexto, a revitalização da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o rearmamento alemão representam alguns dos principais sinais da reorganização geopolítica europeia no pós-2022.
Nos anos anteriores à guerra, a OTAN enfrentava questionamentos sobre sua relevância estratégica. Em 2019, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a aliança vivia uma situação de “morte cerebral”, em referência às divisões internas e à ausência de um direcionamento claro após o fim da Guerra Fria. Ao mesmo tempo, muitos países europeus mantinham baixos investimentos em defesa, apoiando-se amplamente na proteção militar fornecida pelos Estados Unidos. A própria Alemanha simbolizava essa postura: desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o país adotava uma política de relativa contenção militar, priorizando estabilidade econômica, integração europeia e cooperação energética com a Rússia.
A Guerra da Ucrânia alterou profundamente esse cenário. A invasão russa reintroduziu na Europa a percepção de ameaça territorial e militar em larga escala, algo que parecia distante desde o fim da Guerra Fria. Como consequência, a OTAN passou por um processo de revitalização estratégica, ampliando sua presença militar no Leste Europeu e fortalecendo sua coordenação política e militar. A entrada da Finlândia e da Suécia na aliança evidencia essa mudança no cenário europeu, demonstrando que a guerra ampliou a percepção de insegurança no continente e fortaleceu a centralidade das alianças militares como instrumento de contenção estratégica da Rússia.
O caso alemão talvez seja a manifestação mais clara dessa transformação. Poucos dias após o início da guerra, o chanceler Olaf Scholz declarou que a Alemanha vivia uma “Zeitenwende”, expressão que pode ser traduzida como “mudança de época” ou “virada histórica”. O governo anunciou a criação de um fundo extraordinário de 100 bilhões de euros para modernização das forças armadas e assumiu o compromisso de ampliar os gastos militares para além da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN. Nos anos seguintes, o governo alemão manteve a ampliação dos investimentos em defesa e aprofundou programas de modernização militar, consolidando uma mudança de postura histórica na política externa e de defesa alemã do pós-1945.
O rearmamento alemão possui relevância que ultrapassa as fronteiras nacionais. Como principal economia da Europa e ator central da União Europeia, a mudança de postura da Alemanha sinaliza uma transformação mais ampla da política europeia de segurança. A guerra revelou os limites de uma estratégia baseada majoritariamente em interdependência econômica e cooperação energética com a Rússia, levando diversos países europeus a priorizarem novamente capacidades militares, segurança territorial e autonomia estratégica.
Dessa forma, a guerra na Ucrânia não se limita a um conflito regional entre Rússia e Ucrânia, mas configura um marco de transformação na conjuntura geopolítica europeia. A revitalização da OTAN e o rearmamento alemão evidenciam o retorno da lógica clássica de segurança e do poder militar ao centro da política internacional na Europa. Embora ainda seja cedo para determinar os desdobramentos de longo prazo desse processo, o aumento significativo dos gastos militares em diversos países europeus, conforme apontam relatórios recentes do SIPRI, sugere a consolidação de um cenário pós-2022 marcado por maior militarização, crescente orientação estratégica das políticas de defesa e uma reorganização em torno da contenção de ameaças geopolíticas.
Referências Bibliográficas:
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