Filosofia com Moradores de Rua

Professor Fernando Fuão
José Luiz Ferreira
Marcelo Kiefer

Atividades

Oficina de Sabão Para Geração de Renda
Produção de Mudas Para Geração de Renda

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O projeto Filosofia com moradores de Rua é uma forma inovadora de encontro e  integração de moradores em situação de rua através da filosofia, acreditamos que a filosofia deve ser um instrumento popular de reflexão, uma  ferramenta de conhecimento e crescimento pessoal e social.  Trata-se de uma ação que desconstrói a pedagogia da disciplina tradicional e apresenta como proposta a pedagogia do “dar-se conta” e do “inédito viável”, em que as habilidade e vontades do público alvo são inseridas no projeto como pontos positivos. Uma forma de conversar com a vida.

Os encontros do Filosofia com Moradores de Rua, se constitui-se em uma das ações que compõem o Programa Universidade na Rua. UFRGS – PROREXT – Mec-sisu 2015-16, que se realiza em Porto Alegre. Esses encontros acontecem uma vez por semana; durante o segundo semestre de 2015 aconteceram todas as quintas feiras e no primeiro semestre de 2016, nas sextas feiras. Os encontros tem como coordenadores e executores os Profs. Jose Luiz Ferreira da Associação Vila Chocolatão, profs Fernando Fuão e Marcelo Kiefer da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

“Utopia e acolhimento andam juntas”, disse Solismar, um morador de rua, durante uma conversa do curso Filosofia com moradores de rua, ‘uma depende da outra para poder se realizar, acolhimento é o respeito ao outro”. Bruno um outro participante complementa explicando que ‘acolher é cuidar’, com formação de mecânico seu sonho, sua utopia é também ser enfermeiro, não só para cuidar dos carros mas sobretudo de gente que precisa ser cuidada. “As pessoas deveriam aceitar o que pessoa é, o morador de rua é, e não o que elas gostaria que ele fosse”.

É consenso para todos os participantes desses encontros que há um desrespeito ao ser humano, ao morador de rua, por incrivel que pareça  ”as pessoas que muitas vezes vão ajudar os moradores de rua, dando roupas, agasalhos, e comida estão sempre querendo nos usar para promover suas caridades, tirando fotos, posando ao lado de nós para colocar no facebook ou num jornal qualquer, muitos moradores se submetem a isso, por um café e um pão com chimia”, comenta Claudiomiro.

“Ninguem nos escuta mesmo quando a gente fala, grita, não entra”. Segundo Claudiomiro: “esse abraço na hora da foto é falso, na maioria das vezes não se abraça de verdade; infelizmente quem tem abraçado o abandonado tem sido o tráfico. Muitos se dirigem ao trafico por necessidade ultima mesmo de existencia, e alguns que trabalham ou já trabalharam não consomem. Lá em cima cima se drogam por poder, aqui se drogam pela droga mesmo”. Essas e outras falas nos encontros timpanizam em nós constantemente.

. Nesses encontros tem-se por norte a filosofia da desconstrução de Jacques derrida, Deleuze, Foucault entre outros.  Nesse dialogo buscamos colocar em pauta também  o planeta como nossa casa no cosmos e assim construirmos relações ecológicas conscientes e responsáveis. Entendendo também que a filosofia pela filosofia nas condições que se encontram o pessoal em situação de rua perde um pouco de seu sentido, nos acompanha nesse encontro o apoio de uma oficina de produção de sabão, a cargo da profa Natalia Sorney, como forma de geração de renda.

Os assuntos correntes e recorrentes: droga (crack), trabalho e desemprego, alcoolismo, temas relativos ao âmbito familiar (pais e ou filhos),  falta de albergues, a violência policial. Os participantes são todos  moradores de rua, alguns já estão há anos nas ruas, as idades variam desde jovens ate pessoas com 50-60 anos, são homens, mulheres e também pertencentes ao grupo LGTB. Alguns são usuários de crack os mais jovens, os mais maduros de álcool, no período que frequentam o curso estão sem consumir álcool ou drogas, que é uma condição de ingresso na escola.  Os encontros tem-se dado na Escola Porto Alegre, também conhecida por EPA, localizada proxima ao centro da cidade,  numa area proxima as margens do Rio Guaiba onde vivem alguns grupos de moradores de rua nos parques e praças adjacentes, no que costumam chamar de ‘aldeias’. O EPA é uma escola publica municipal, uma escola modelo aberta, inclusiva, onde a maioria de seus alunos são moradores de rua. É uma escola referencia em termos de educação em Porto alegre e no rio Grande do Sul l especializada no atendimento de adultos e jovens a partir dos 15 anos de idade para o acesso ao Ensino Fundamental  completo  em situação de vulnerabilidade social.

Os encontros de Filosofia com moradores de rua se organiza a partir de  uma conversa previa coloquial, ou de assuntos que estão em pauta no momento, as vezes já levamos alguma temática disparadora, como por exemplo: utopia e acolhimento, morar na rua, violência policial; geralmente começamos a conversa perguntando o que cada participante entende por tal e tal conceito, de entrada surgem respostas maravilhosas e profundas, o que nos permite a partir desse ponto lançar mão de conteúdos filosóficos aportados por um outro filosofo que gostariamos de trabalhar naquele encontro, no caso por exemplo da tematica  “utopia e acolhimento” estávamos fundamentados em Leonardo Boff e Jacques Derrida. A ênfase nunca recai em saber quem são os referidos filosofos, mas sim no pensamento desses filosofos. A partir daí começam a interlocução, “Meu pai e minha mãe nunca me deram uma utopia, um acolhimento” assim se expressou o jovem Lucas, quando percebeu o que poderia também  significar utopia. “Acolher é nos propormos a ter um olhar amoroso sobre o mundo” (Claudiomiro); “O acolhimento é um virus” comenta entusiasmadamente Bruno.

Os encontros se estabelecem nesse andar do dialogo de ideias, nesse entrecortado de reflexões e iluminações, sempre muito pautado pela escuta dos ministrantes e das falas dos participantes, sempre procurando trazer o assunto para o nível existencial de um aqui e agora.

Ao longo desse breve período tratamos alguns  temas, uns mais profícuos que outros,  uma das grandes dificuldades é manter um grupo único ao longo do tempo, há constante entradas e saídas de participantes, frequentam 2-3 aulas e depois desaparecem, outros retornam. Alguns dos temas tratados foram: ‘Acolhimento e hospitalidade’; esse tema foi o primeiro do curso e tomamos por leitmotiv ao longo dos encontros a hospitalidade e acolhimento do outro, do outro totalmente outro a partir do que conceituaram Jacques Derrida e Enmanuel Levinas.  Na sequencia trtatamos temática como: ‘A felicidade desesperadamente’ (Conte-Sponville), ‘Estar na rua… é possível ser feliz?,’ (R)estar (being) na rua, o ser e o lugar. O abrigo, a morada, a cidade, o planeta’ nesses dois norteados pelo pensamento de Martin Heidegger em seu classico texto “Construir habitar pensar”; o tema ‘A casa e a domesticação, onde vamos abrigar nossos sonhos?  trouxe de roldão a questão da morada, da casa propria e da domesticação humana, e foi pautada pelos estudos de Michel Foucault em Vigiar Punir,  e A sociedade de Controle de Gilles  Deleuze; ‘Está para vir… está chegando!; Como eu me sinto estranho? Como vejo o estranho? O que é o estranho?’(Derrida, Freud).

Outro tema que colocamos em crivo constantemente foi a domesticação humana (John Zerzan); para nós o modo de existir nas ruas  não deve ser definido como errado (errância), ou uma mera consequencia imediata da mazela do capitalismo,  mas sim algo atrelado ao capitalismo mas que está diretamente ligado a produção da domesticação e controle, nem todas as pessoas se ajustam às condições estabelecidas pela sociedade, pela domesticação, nem todo mundo nasceu para casar e ter filhos, constituir uma familia, ou para trabalhar dentro de um modelo de subserviencia moderno capitalista. Não é o modo de vida dos moradores de rua que deve mudar, mas nós é que precisamos urgentemente mudar nosso modo de vida, reaprender a existir na simplicidade da vida. A própria noção de ‘casa propria’ também é fruto dessa normativa social domesticante. Ironicamente em sua simplicidade da existencia o morador de rua carrega sua casa nas costas, ele está em casa em qualquer lugar que esteja.

“Eles dizem que moram em tal marquise, ou praça. É o olhar de que meu corpo é a minha própria casa, não sendo necessário uma residencia fixa para existir sobre o mundo. Assim portanto esses encontros são uma tentativa de deslocamento de um falso problema, e de um ‘dar-se conta’ da vida de cada um,e de quanto os moradores de rua estão fragilizados segundo essa logica perversa e punitiva da domesticação humana”.[1] O mais proprio do proprio, a propriedade do humano, não é a casa como propriedade privada mas o sentido de propriedade como singularidade da existência de cada um; infelizmente a casa, desde sua mais remota concepção ocidental (oikus grego) docilizou os corpos e conformou as cidades com sua ordem disciplinar de limites, ordens, leis e hierarquia, paredes, aberturas, muros e cercas. E pior, a partir do século XVIII desempenhou um papel primordial na institucionalização do morar, ou seja um modo unico quase universal de, existir sobre o mundo, onde a conquista da casa própria é agente dessa subserviência ao sistema.

[1] Fuão, Fernando,  em Klein Samantha. A solidão da Rua,  Caderno do Jornal da Universidade. N.36, edição 187, dezembro de 2015-janeiro de 2016, p.4. UFRGS. Porto Alegre