Ciência e Tecnologia

A Felicidade em Tempos de Facebook


Há cerca de duas semanas eu assisti esse curta sobre a falsa felicidade que encontramos e projetamos em nossas redes sociais (nesse caso o Facebook). O contato com esse vídeo veio bem na época que eu estava enlouquecida lendo infinitas páginas para a prova de Cibercultura da faculdade e um pouco antes de debatermos o mesmo assunto na aula de Laboratório de Web (a cadeira responsável por esse portal). Depois das leituras e dos debates, resolvi escrever sobre isso no meu último post para o Portal Viés.

Meu Facebook parece o paraíso, os perfis são perfeitos, as pessoas divertidíssimas, as melhores festas, os melhores amigos, as melhores famílias, os melhores empregos, os melhores namoros, as melhores viagens, blá blá blá…. No Facebook (Instagram/Foursquare/Twitter – nesse eu até vejo alguma desgraça, contada de uma forma super descolada-) não existe fim de mês, não existe demissão, TPM, “discutir a relação”, se afastar dos amigos ou curtir uma fossa. No Facebook ninguém recebe um “não”, ninguém fica inseguro, ninguém sente medo, ninguém briga, ninguém sofre. Na rede social, lemos os melhores livros, ouvimos as melhores músicas e nos transformamos em exímios críticos de cinema. Acho que algumas pessoas, quando usam o Facebook, levam bem a sério aquela ideia de Beleza Americana “Se você quer ter uma vida de sucesso projete uma imagem de sucesso” (algo assim). Onde está essa vida tão empolgante no nosso dia-a-dia?

Quando as pessoas são próximas da gente na vida real fica fácil saber o que é imagem e o que é verdade. Às vezes, a diferença entre a pessoa do teu lado e a pessoa na tela do computador é tão grande que chega a irritar, ou vira alvo de piada.  Briga com o namorado ~ 2 minutos depois~ post dos dois juntos com textinho romântico e sorriso no rosto; reclama da família e ~2 minutos depois~  “jantinha com a melhor família do mundo”; reclama todos os dias do trabalho, do chefe e dos colegas, mas não esquece de postar uma foto com a legenda “partiu trabalhar” e a hashtag  “#melhoremprego”; não sai de casa a semana inteira, mas posta uma foto no pátio com a legenda “curtindo a natureza”. Enfim, os exemplos são inúmeros e, provavelmente, se você está lendo esse texto já se lembrou de algum(a) amig@ com seus exemplos particulares.

Quando as pessoas não são próximas da gente seus perfis descolados, engraçados e cults podem gerar duas sensações em nós: 1- admiração, vontade de conhecer a pessoa, de ir nas mesmas festas e viagens, de conhecer aqueles amigos legais, conversar sobre aqueles filmes, livros e discos. (essa sensação geralmente vem seguida de uma grande decepção) ou 2- sensação de fracasso (essa sensação geralmente vem seguida de uma pergunta “porque eu não consigo ter uma vida assim?”).  Sim, nós, as mesmas pessoas que rimos e/ou nos irritamos com a falsa imagem dos nossos amigos nas redes sociais (e também montamos a nossa), nos iludimos com a imagem das pessoas que não conhecemos, mesmo sabendo que provavelmente elas vêm da mesma mentira. No caso do curta mencionado ao início de texto, a mesma pessoa que cria uma imagem de si mesma, fingindo ter uma vida bem melhor do que de fato tem, acaba se deixando afetar no momento em que a ex namorada faz a mesma coisa.

Porque perdemos tanto tempo tentando projetar uma imagem das nossas vidas? Porque os likes se tornaram tão importantes? Porque a vida real está nos causando tão pouca admiração? Em seu trabalho “Life on the Screen”,  Sherry Turkle (uma das autoras que estudei na cadeira de Cibercultura) estuda “como a mídia digital interativa nos permite viver vidas paralelas à que temos no cotidiano”. Inicialmente, a autora acreditava que essa característica das novas mídias poderia ser valiosa como uma forma de explorar “as várias tendências do eu”, a diversidade que encontramos dentro de nós mesmos. Posteriormente, a autora concluiu que, em excesso, a criação de avatares virtuais pode levar as pessoas à frustração com o seu cotidiano e com o contato junto às pessoas reais.  Segundo ela, cada vez mais o contato virtual é preferível à experiência concreta, fazendo com que evitemos os demais fora da nossa zona de conforto. Turkle afirma que “[…] não é incomum para as pessoas se sentirem mais confortáveis em um lugar irreal do que no real, porque elas sentem que, na simulação, elas revelam seu melhor e talvez mais verdadeiro eu”.

Algumas pesquisas dedicadas a estudar a grande insatisfação da geração Y com a vida pessoal e profissional tocam na questão das redes sociais. (algumas pessoas entendem a geração Y como os que nasceram entre 1980 e o final da década de 90, outros entendem a geração Y como os que nasceram entre meados da década de 70 e meados da década de 90) Talvez esse mundo virtual povoado de vidas perfeitas faça com que no balanço da felicidade (expectativa – realidade) as expectativas acabem sempre sendo maiores do que os resultados alcançados e a grama do vizinho seja sempre mais verde (mesmo que o tal “vizinho” esteja na mesma situação).

É estranho pensar que hoje em dia a felicidade, a realização e o sucesso de alguém é medido pelo número de likes (em sua maioria vindos de pessoas pouco ou nada conhecidas). É mais estranho ainda pensar o quanto isso nos afeta, o quanto dedicamos nosso tempo e nossos esforços para atingir esse tal reconhecimento. É como se um momento feliz só valesse alguma coisa se as outras pessoas soubessem (e curtissem), como se a felicidade só valesse de algo se alguém a invejasse.

Acho que isso tem mais a ver com as pessoas e com problemas da nossa sociedade do que com as tecnologias em si, talvez elas tenham somente facilitado, intensificado e ampliado essa supervalorização da imagem de si mesmo e essa preocupação em projetar uma imagem de vida perfeita. Todo mundo fica feliz com um like e todo mundo quer ter uma imagem legal perante os outros, o problema é quando a preocupação com a aprovação por parte das outras pessoas se torna mais importante do que a nossa busca por uma autorrealização. Existe um problema também quando a imagem que queremos e/ou conseguimos projetar se distancia muito da pessoa que somos de verdade, afinal, se fazemos isso é porque provavelmente não estamos felizes com o que estamos fazendo da nossa vida. Enfim, esse não é um texto para conclusões, é um texto para questionamentos (e pra mostrar um curta legal).

Ps.: Na parte que eu falo sobre a Sherry Turkle, usei referências do livro “As Teorias da Cibercultura: Perspectivas, questões e autores” de Francisco Rüdiger.

PS.2:   #100happydays  #facul #partiuacademia #luxopoderegloria #photooftheday #instafood #love …..

 

 

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1 comentário

  1. fabiano Serrano says:

    Gostei muito! Parabéns

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