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Always on my mind: Elvis, mamãe e eu

1977. Como muitas famílias, todos os dias, os Gomes de Oliveira assistiam ao noticiário naquela noite de agosto. A nota de abertura daquele Jornal Nacional, contudo, era a que milhões de pessoas jamais queriam ouvir: “morre Elvis Presley”.

Leila tinha sete anos e nunca tinha visto ninguém importante assim morrer. Elvis era quase uma entidade; era o protagonista dos seus filmes preferidos, o moreno de olhos azuis e voz única que conduzia um par de moças pelas praias. Nunca se esqueceria da notícia dada por Cid Moreira, do olhar de choque do pai, da comoção toda que vira na TV. Elvis simplesmente não era mais.

Por mais que a infância tenha sido embalada pelos roteiros leves e músicas pegajosas dos filmes do Rei do Rock, ela nunca teve muito acesso ao material musical dela. Quando finalmente as condições financeiras lhe permitiram possuir um toca-discos, Leila já era uma adolescente plenamente inserida nos anos 1980, ouvindo Bon Jovi, A-Ha e Titãs. O “Feitiço Havaiano” virou “De Volta Para o Futuro” e, para o gigante fenômeno que fora, Elvis cada vez menos dava as caras por aí. A histeria se dissipava e o público voltava a atenção para outros artistas. Tinha um menino Michael aí que parecia vir pra ficar…

Hmm…

1992. Nasce a primeira filha de Leila: eu! À primeira vista, eu havia herdado dela os olhos pequenos e os dedos dos pés; com o tempo, muitas outras semelhanças apareciam, como o gosto por desenhar (ela, casas. Eu, pessoas.), mania de sair cantando por aí sem respeito pelos outros moradores da casa e paixão por música, filmes, livros e gatos. Muitos dos filmes e músicas mais memoráveis da infância vieram da minha mãe, e eu, à medida que fui descobrindo meus próprios gostos, apresentei coisas novas a ela. A mulher que me apresentou Star Wars conheceu Neil Gaiman por mim.

Em 2006, eu tinha 14 anos e andava meio enjoada de ser gótica. Na busca por músicos menos cavernosos para desopilar, esbarrei em alguns clássicos que conhecia só de nome, como The Doors, Johnny Cash e Elvis Presley. Não que os dois primeiros fossem pináculos da alegria e da leveza, mas o terceiro era bastante divertido. Eventualmente, comprei uns dois CDs do Elvis e os mostrei para minha mãe – certa de que ela até conhecia, mas nem era muito ligada nesse tipo de música. Descobri que não apenas ela ERA muito ligada nesse tipo de música, mas também nos filmes – que ela me descreveu em detalhes – e tinha toda uma nostalgia em torno de Elvis Presley.

Fig. 1: As tardes da Globo nos anos 1970

Não demoramos a recuperar o tempo perdido: conseguimos vários filmes e assistimos a todos naquele verão. Toda viagem de carro tinha, obrigatoriamente, Elvis na trilha sonora. Começamos uma pequena coleção que conta com uma dúzia de DVDs, um punhado de CDs, algumas revistas e outras coisinhas. Não é uma coleção pra trancar num quarto e chamar um canal de TV para documentar; é algo para nosso consumo sagrado, que alegra os verões, que provoca conversas, que nos faz aumentar o volume do rádio até sermos como os vizinhos inconvenientes de quem adoramos reclamar.

Ano passado, fomos juntas ao Elvis Experience, uma exposição de memorabília do astro que passou por Porto Alegre. Guiar minha mãe por aqueles corredores históricos, traduzir os materiais em inglês e experienciar toda aquela mitologia tão emocional para nós foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Todas as peças expostas nos evocavam alguma lembrança, alguma história, algum “ó, lembra disso?”. Elvis reforçou os laços que tenho com a minha maravilhosa Leila e eu cheguei a ele sem passar por ela. É como se fosse genético. É como se fosse nosso.

Olha só a alegria dela <3

Ao fim da exposição, havia uma sala com quatro paredes brancas e enormes, para serem assinadas pelos visitantes. Como ela já estava aberta há algumas semanas, as paredes já estavam praticamente cobertas por dedicatórias multicoloridas. Leila e eu fomos procurar espacinhos em paredes opostas e só vimos o que a outra escrevera logo antes de ir embora: as duas referenciaram a música “Always on my mind”, eu com o always, ela com o sempre. Não sei nem por que ficamos surpresas; não havia como ser diferente.

E acreditem: o sorriso dela tirando a foto era ainda maior do que o meu aqui.

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