Cultura

Leituras do universo fotográfico

Evitei escrever sobre fotografia até esse momento, soaria muito óbvio, visto que, esse é meu campo de atuação. Há uma consciência – ou inerência pra quem não percebe em sã consciência – de que o mundo é tomado de imagens, essas, nem sempre necessariamente fotográficas; agora em um contexto urbano mercadológico, posso dizer só com minha intuição que a fotografia tem um peso enorme naquilo que tomamos como imagem.

A parafernália tecnológica fotográfica e o seu acesso expandiram-se, seja para os leigos, seja para o uso profissional. Muito se fala sobre a técnica, muitos cursos sobre o tema surgiram. A classe dos profissionais aumentou. O número de imagens geradas pelos fotógrafos – e aqui incluem-se os leigos – ficou incontável. A demanda fotográfica mudou. São raros os álbuns de família, organizados em caixas e mostrados pras visitas; por outro lado, são numerosas as imagens de documentação social, isto é, registros gerados com intuito prévio de aprovação social, mas vamos lá, servem pra velha história da lembrança também.

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Quanto mais eu me aprofundo em literatura específica sobre o tema, mais humildemente eu chego à conclusão que, de alguma forma, todas essas pessoas entendem de fotografia também. Diversas vezes levantei esse ponto pra indivíduos que me questionavam coisas específicas como se eu as soubesse mais que eles. E de fato, minha bagagem teórica e o meu conhecimento técnico do ponto de vista funcional poderiam ser maiores, mas não a aplicação deles.  A lógica é como se fosse o criador e a criatura: o criador tem o domínio daquilo que formou o seu ser, mas não mais da autonomia de tal criatura. O que eu quero dizer é: todo mundo entende de fotografia, uma vez mergulhados num mar incontável delas. Não entendem da fotografia como narrativa, nem da abertura do diafragma, nem da história e nem da composição, mas entendem aquilo que a sua autonomia diante dessas imagens permite entender.

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É injusto dizer que eu entendo mais do que o “leigo” sobre uma determinada imagem, ou que minha imagem técnica é superior a um registro instantâneo para o Instagram. Entender uma fotografia é conseguir fazer uma leitura aplicada para o seu universo. É lidar direto com um mundo referencial que não se tem mais controle, e que muito foi formado pela própria fotografia. Me perdoem os técnicos e os profissionais consagrados da velha guarda, a fotografia é um filho solto pelo mundo, pronta pra ser vista por olhos que percorreram diferentes caminhos; mais uma vez, como acontece na literatura, não temos o controle da mensagem. A fotografia foi insaturada, e nos rodeou de tal maneira, que nos serve pro fim que queremos. Não julguemos valores aqui, mas sejamos humildes com a memória dos outros, e respeitosos com suas leituras.

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