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O Bom Mocismo Reinventado

Já faz um tempo que figura no imaginário popular a figura do anti-herói – falando em sua constituição como personagem fictício-, quase que é irrisório fazer apresentações, mas vamos lá: aquele ser desprovido de altruísmo, geralmente age por motivos egoístas e tem uma vaidade que não cabe dentro de si, mas pasmem, não é de todo mal, quase sempre está meio perdido em suas emoções e tem um background violento que sempre o tenta justificar. Podemos pensar que em termos reais, quase todo ser humano é de natureza anti-heroica, afinal os absolutismos maniqueístas já deveriam ter se esgotado (infelizmente sabemos que não), mas esse não é o enfoque aqui.

Também já faz um tempo que há uma exploração midiática dos produtos de cultura em cima dos anti-heróis: é verdade que o grande público cismou em implicar um pouco com o “bom mocismo”… Será mesmo? Não acho que seja bem assim, entre tanto exemplos do cinema e da televisão, me soa que tudo esteja literalmente maquiado. Grandes personagens com esse apelo anti-heroico como o irreverente Jack Sparrow de Piratas do Caribe, o serial killer justiceiro Dexter ou ainda a narrativa que prioriza barbáries no seriado do momento Game of Thrones caíram no gosto popular e nos dão essa impressão de que o antagônico é novo ditador de sucesso e reflexo de um arquétipo mais tipicamente humano. Mas peraí, humano? Que humano estamos falando? Com certeza alguém bem distante da realidade, um pirata, pessoas de séculos atrás, casos policiais mirabolantes. E aquela figura de anti-herói que poderia perfeitamente ser o colega de trabalho sentado ao lado? Essa ainda majoritariamente é tabu (ainda que casos como o personagem Félix  na trama Global “Amor à Vida” provem que um estereotipo mais naturalista possa vir a ser bem aceito).

Fanpop.com

O anti-herói naturalista e contemporâneo  – esse sim, mal aceito, por ferir a moral de uma sociedade representada muito próxima da real –  geralmente é aquele que vai contra o “bom-mocismo” midiático reinventado que prioriza pequenas narrativas sobre os “underdogs” (convenhamos, outra definição que já poderia ter sido esgotada), em outras palavras: os perdedores. Essas narrativas sim: caíram no gosto do público e pela primeira vemos reinar estereótipos que não tinham espaço de protagonizar uma grande trama. Seriados como “Glee” da americana FOX e sucesso mundial e “Ugly Betty” da também americana ABC são grandes exemplos disso, e é louvável que finalmente haja espaço na grande mídia para discutir diferentes visões e modos de pensar não tão pasteurizados; a provocação é valida. O problema está em como isso se desenvolve: muito chororô, apego demasiado às fraquezas e um comodismo disfarçado de luta interna por aceitação própria.

Fox.com

Mas não era justamente assim que essas personagens eram tratadas em segundo plano nas antigas narrativas mais tradicionais? O que muda então? De certa forma, o público. Sem entrar naquele papo chato de gerações, mas principalmente o público mais jovem identifica-se com a vitimização aumentada em lupa desses estereótipos, como se fosse um rancor treinado contra as antigas figuras (padronizadas, bem sucedidas, tragáveis e esteticamente belas). Além de ser fácil reconhecer as fraquezas e tomar um sentimento de identificação por parte desse público, toda essa exacerbação da diferença não oferece uma solução palpável que não seja acomodar-se: reconhecer – e aceitar – as suas fraquezas, essas, que jamais deveriam ser vistas como tal. O erro está no discurso antes que na narrativa.

 

Talvez esse seja o reflexo de um novo comportamento acomodado, que prefere chorar as pitangas em vez de correr atrás das soluções… Ah, mas correr atrás das soluções reais gera esforço, e esforço pode vir a ser sacrificar essa ideia cheia de vitimização. O bom-mocismo na verdade não saiu de moda na indústria televisa ou cinematográfica, só está em uma roupagem mais exótica, tentando chegar mais perto do verdadeiro espectador , usando as táticas errôneas em seu discurso.

s-gelar.tumblr.com

 

É aí que volto a lembrar dos anti-heróis naturalistas, aqueles bem reais, que poderiam estar em qualquer lugar no presente momento, e que andam tão mal aceitos. Talvez a memorável personagem central e “vilã” (ué, não era para humanizar? Anti-heroína então.) “Kathryn Merteuil” de Segundas Intenções, filme americano de 1999, pudesse ensinar somente a essência do que é a força de vontade, de correr atrás das coisas sem muito choro, e traçar objetivos com determinação. Não, não acho que ninguém deveria abusar do caráter dessa personagem, mas os novos discursos esqueceram-se de priorizar a real aceitação, a vivida, a humana, baseada na tentativa e erro. Anti-herói bom é anti-herói longe da vista, maquiado e bem caracterizado. Bom moço que é bom moço tem um pé no “underdog” e de preferência ainda faz humor com a sua situação. Tudo está bem quando acaba bem.

 

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