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Game of Thrones: o mundo medieval é das mulheres

AVISO: Esse será um texto sobre Game of Thrones. Não é necessário ver a série ou ter lido os livros para entender, mas aos espectadores: conterá spoilers dos acontecimentos ocorridos até o final da quarta temporada da série.

Game of Thrones, ou As Crônicas de Gelo e Fogo (série de livros), é uma saga que gira em torno da disputa pelo poder dos “Sete Reinos”, que foram reunidos há algumas gerações, quando a história começa. Diversos personagens e famílias julgam serem os verdadeiros merecedores do trono, do título de Rei (ou Rainha). Inicialmente, pensamos haver mocinhos e vilões, mas com o desenrolar da história, fica quase impossível “colocar a mão no fogo” por algum personagem. Além das disputas políticas, a série se caracteriza por ser uma renovadora da literatura fantástica, sendo por vezes comparada a clássicos como “Senhor dos Anéis”, seja pela criação de um novo mundo e idiomas (os continentes onde se passam as histórias da série se diferem bastante, mesmo geograficamente, dos reais) ou pelas criaturas mitológicas e fantasiosas descritas por George R. R. Martin e adaptadas na série de TV.

Se, inicialmente, temos a impressão de que será uma saga marcada pelas presenças masculinas constantes, ao acompanharmos a história percebemos que quem domina Game of Thrones são as mulheres. Elas não são a maioria – os homens têm papel fundamental em uma sociedade medieval, que é o caso da série -, mas se destacam individualmente pelas suas pequenas vitórias, cada uma delas em seu âmbito. Evidentemente, o mundo criado por Martin é sexista e misógino, e não poderia ser diferente. Pelo contexto histórico – mesmo que não se passe no mundo como o conhecemos, a história ocorre em uma sociedade de valores e regras semelhantes aos da Idade Média – e social, não seria verossímil que os homens não tivessem o papel de governantes e chefes de família, enquanto as mulheres, em maioria, ficam em casa criando os filhos e aguardando seus homens voltarem da guerra. O que surpreende é a tentativa constante de quebra desse perfil esperado das mulheres, através de certas personagens femininas que se diferem entre si, mas têm algo em comum: elas dão as cartas. Escolhi, pra trabalhar aqui, 07 personagens que, pra mim, representam bem o que Game of Thrones vem fazendo em termos de feminismo: descontruir a imagem ideal da mulher na sociedade – que é mais reforçada nessa sociedade específica –, e dar a elas a chance de decidirem sobre os próprios destinos.

 

Daenerys Targaryen

Quando pensamos nas figuras femininas da saga, Daenerys certamente é a primeira a ser lembrada. Distante de Westeros, continente onde se passa a maior parte dos acontecimentos, a única sobrevivente conhecida da família Targaryen – logo, herdeira por direito de todos os Sete Reinos – é querida por muitos fãs da série. A Filha da Tormenta, a Náo Queimada, Mãe de Dragões, Khaleesi dos Dothraki e Primeira do Seu Nome – entre vários outros títulos que ocupariam um parágrafo inteiro – ganhou a torcida de muitos já na primeira temporada, quando era explorada pelo irmão e foi vendida para casar-se com Khal Drogo. Embora o casal não tenha tido um final feliz, o marido conquistou o coração da loirinha. Ao longo da primeira temporada, Daenerys, ou Dany, como é carinhosamente chamada, aprendeu a se impor perante o irmão e ganhou diversos seguidores fieis. Depois disso, deu vida aos seus três dragões, que, vamos combinar, são adições e tanto ao time da Khaleesi, né? A trajetória da moça marca a série por sua luta por seu discurso de justiça e igualdade, e, por mais que algumas atitudes suas sejam questionáveis, é a favorita de muitos para conquistar o trono, enquanto vem ganhando mais e mais apoiadores e aumentando seu exército. Uma personagem mulher ser uma das principais concorrentes aos Sete Reinos nos prova que, talvez, a disputa não esteja tão na mão dos homens quanto era de se esperar, certo?

 

Arya Stark

Arya é outra personagem feminina queridinha dos fãs. No livro, a garota tem apenas 9 anos de idade quando os acontecimentos de Westeros abalam sua família. Na série, começa com 11. Fato é que, em ambos, é muito nova, tem toda a sua estrutura familiar destruída, e mesmo antes disso, nunca foi compreendida por sua família. Arya sempre passou longe de ser uma “dama”, de se portar da maneira que era esperada por ser garota, de ter a ambição de se casar e se tornar Lady. Ao ver seu pai ser enforcado injustamente, iniciou sua saga de fugas. Arya assumiu a identidade de um garoto para não ser reconhecida, e se manteve a salvo, mesmo procurada. Com o tempo – e as aulas proporcionadas pelo pai anteriormente – a garota tornou-se excelente espadachim, e tem como objetivo vingar a morte trágica dos pais e do irmão mais velho. Com temperamento forte, Arya talvez não estivesse viva se não recebesse algumas ajudas pelo caminho, mas é fato que é uma personagem que questiona, desde sempre, os estereótipos dados às mulheres. O futuro de Arya é incerto, e ela certamente deve cuidar mais da língua e agir menos por impulso, mas a garotinha já ganhou os corações dos fãs da saga.

 

Catelyn Tully

Catelyn sempre dividiu opiniões entre os fãs. É odiada por muitos, por nunca ter tratado o filho bastardo do seu marido, Jon Snow, de maneira muito carinhosa. No entanto, quando viu Eddard Stark, pai dos seus filhos, morrer, assumiu as rédeas de conselheira e matriarca dos Stark. Andou ao lado do filho Robb na sua luta contra o Rei Joffrey, e deu importantes conselhos a ele e seus vassalos. Cometeu deslizes, como deixar seu principal prisioneiro escapar, na esperança de ver suas filhas salvas mais cedo. Suas atitudes são questionáveis, mas até o último momento ao lado de seu filho, lutou pela honra de sua família e segurança de suas crianças. É guiada pela emoção, mas quem pode culpa-la? Catelyn morreu buscando cumprir seu dever, e por mais que seja questionada por muitos, era a mente por trás das atitudes de Robb durante suas diversas vitórias. É, sem dúvidas, uma das mortes mais tristes da série, não só pelo contexto, mas por representar o fim dos Stark, enquanto família.

 

Brienne de Tarth

Nobre de caráter, é uma exímia guerreira, e nunca se preocupou muito em parecer feminina. Brienne é extremamente alta e considerada feia para os padrões do reino. Seu único desejo sempre foi lutar. Só consegue ser reconhecida como guerreira pelo seu Rei, Renly, quando vence um torneiro, e, apenas então, tira seu capacete e revela ser mulher. Surpreendendo a todos, tem seus méritos reconhecidos e se torna fiel a Renly, que morre logo depois. Com isso, vira súdita de Catelyn, e está buscando, até hoje, cumprir com as promessas que fez antes da mãe dos Stark morrer. Brienne desafia todos os padrões femininos da sociedade em que se encontra, é questionada por homens durante toda a sua jornada, mas se mantém firme na luta pelo que acredita ser certo.

 

Cersei Lannister

Cersei, a Rainha Regente, é uma das personagens mais criticadas pelos fãs da série. É compreensível, visto que ela causou muito mal a personagens queridinhos de todos. O problema acontece quando as críticas se direcionam a conduta sexual da Rainha. Cersei cometeu muitos atos duvidosos, todos pensando unicamente nos seus filhos, seu irmão, e em si própria. O que difere Cersei, então, de Catelyn? Ambas lutam por suas famílias, cada uma com suas armas. Cersei é dona de uma beleza invejável, e a usa a seu favor. Já foi parar na cama de algumas figuras de Westeros, sempre buscando atingir seus objetivos, e, por isso, é taxada com diversos adjetivos nada agradáveis. Cersei não é puta. Cersei não é vadia. Cersei não é piranha. Ela é bem odiável, sim, mas criticá-la por sua sexualidade é tão medieval quanto o seriado. Xingada ou não, a Rainha influencia quase todos os homens ao seu redor – Tywin, seu pai, e Tyrion, irmão, não cedem tão facilmente aos pedidos dela. Odiada por quase todos os personagens da série, Cersei sabe bem como é ser mulher naquele mundo:

“Quando éramos jovens, Jaime [seu irmão mais velho, com quem mantém um caso] e eu nos parecíamos muito. Nem o nosso pai conseguia nos separar. Eu nunca entendi porque nos tratavam de maneiras diferentes. Jaime foi ensinado para lutar com espadas, e lanças, e escudos, e eu fui ensinada a sorrir e implorar. Ele é herdeiro de Rochedo Casterly [terra pertencente aos Lannister], e eu fui vendida para um estranho como um cavalo pra ser montado quando ele desejasse.”

 

Melisandre

Bela mulher, sempre vestida de vermelho, com um rosto em forma de coração, olhos vermelhos e grande calor emanando do seu corpo. Chamada de Sacerdotisa Vermelha, a Mulher Vermelha, a Sombra Vermelha do Rei, é uma feiticeira de R’hllor, o Deus Vermelho, a serviço de Stannis Baratheon, candidato ao trono e autoproclamado Rei. A misteriosa mulher tem poderes proféticos, e acredita fielmente na sua interpretação dos acontecimentos futuros. Ela é conselheira de Stannis, que, por ser o herdeiro legítimo de Robert Baratheon, o antigo Rei, é uma figura importantíssima no jogo dos tronos. Se Stannis vai ser bem sucedido ou não, ninguém sabe, mas a Sacerdotisa Vermelha garante que o vê nas chamas. A influência que ela exerce sobre Stannis, e, portanto, todo seu exército, não deixa dúvidas: há quem não goste, mas Melisandre é uma das figuras mais poderosas de Game of Thrones.

 

Sansa Stark

Deixei Sansa por último porque há muitas opiniões controversas sobre a personagem. Muitos a consideram fútil, mimada, desimportante, patricinha, burra, etc. Sansa, de fato, não é uma guerreira como Brienne, nem desafia os padrões como Arya. Sansa não é a mais forte, nem a mais sensual, nem a mais rica das mulheres. Sansa foi educada para ser uma Lady, para saber costurar, se portar de maneira adequada, adorar vestidos, canções, heróis e sonhar com um príncipe. Sansa implorou por misericórdia para o seu Rei prometido, e ganhou a visão da cabeça do pai estampada para todo o Reino ver. Sansa foi mantida em cativeiro pelos Lannister desde a morte do seu pai, que aconteceu na sua frente. E, mesmo em cativeiro, mesmo com toda a sua família jurando morte aos Lannister, mesmo torcendo diariamente pela morte de todos que a cercavam, Sansa está viva. Mais do que isso, escapou das mãos dos seus algozes. Se qualquer outro membro da família Stark estivesse no seu lugar, estaria, agora, morto. Sansa soube interpretar seu papel perfeitamente. Ela foi a Lady educada, charmosa e sempre com um sorriso no rosto que aprendeu a ser. Viu todos os contos de heróis que conhecia serem desmistificados e aprendeu a desconfiar de qualquer um a sua volta. Nunca, no entanto, desistiu do disfarce. Para todos, era apenas uma garota tola que estava morrendo de medo – e de fato estava – e jamais conseguiria surpreender ninguém. “A cortesia é a armadura de uma senhora”, ela diz. Sansa não precisou levantar nenhuma espada para ganhar a atenção de um dos principais jogadores dos Sete Reinos: Petyr Baelish. Mindinho, como é conhecido, tirou a garota da sua prisão quando ela lhe pôde ser útil. Estendeu a mão, sabendo que também tinha vantagens a ganhar em troca. Sansa agora tem um aliado poderoso ao seu lado, e já provou que aprendeu vários truques com ele. Ontem Sansa Stark, hoje Alayne Stone: precisamos parar de enxergar essa garota como fraca. Sansa não tem a força física, mas tem a inteligência. Acontece que há muitos espectadores elogiando Brienne e Arya por, justamente, fugirem dos seus papeis esperados de gênero, e esquecendo que ser feminina não é um problema. De nada adianta aplaudirmos as mulheres que fogem do que a sociedade machista impõe e sermos machistas ao supor que Sansa não está jogando, apenas porque ela esconde isso atrás de redes de cabelo e vestidos rendados. Sansa é tão Stark quanto Arya, mas não herdou a principal característica da família: confiar apenas na honra. Ned, Robb e Catelyn Stark foram traídos pelo discurso da honra. Sansa se manteve próxima às pessoas que odiava, e, bem… quem está em um castelo protegida e alimentada, mesmo?

Há outras figuras femininas significativas na série. Não poderia deixar de citar Ygritte, Asha Greyjoy, Olenna Tyrell, Lysa Tully – que foi quem, no fim das contas, iniciou a Guerra dos Cinco Reis. A saga de Gelo e Fogo, com certeza, está repleta de costumes machistas – e isso é perfeitamente compreensível no contexto em questão. São as mulheres, no entanto, que comandam os jogos por lá.

 

Se você não vê Game of Thrones e, por alguma razão, leu o texto até aqui, eis algumas razões pra começar a série já.

Links sobre o assunto:

Sobre feminismo e as Crônicas de Gelo e Fogo

Em Defesa de Sansa Stark (em inglês)

As mulheres de Game of Thrones

Um pouquinho de feminismo no Viés, por mim.

 

A quarta temporada da série acabou essa semana. Não vai perder essa oportunidade de fazer uma maratona, vai? :)

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4 comentários

  1. Thais Sardá says:

    Tá bom, Gabriela. Vou lá baixar Game Of Thrones :) E óbvio que só podia ter personagens femininos fortes assim pra atrair tua atenção. Um beijo.

  2. Cássia Tavares says:

    Acho a Olenna Tyrell e a Ygritte mais representativas na questão do “poder da mulher” do que a Sansa. Se bem que, pelo final da 4ª temporada, parece que o papel da Sansa na guerra dos tronos vai mudar bastante.

    Ps.: quero a 5ª temporada logo! ): hahah

  3. flahaneroza says:

    Adorei o texto! Contudo, como acontece em outras histórias que se passam em um contexto medieval principalmente, em Game of Thrones tem momentos em que me sinto pessoalmente ofendida e desconfortável assistindo. Mas, se tá na chuva…
    Enfim, acho importante ressaltar também mulheres que não nasceram Lady’s de nada e tiveram que se virar e aprender a se defender, como a Ygritte!

  4. Gabriela Trezzi says:

    Depois que eu finalizei o texto eu QUIS MORRER por ter esquecido da Ygritte. E olha que era a semana em que eu tava quase de luto (rs). Ela é uma ótima personagem mesmo, gurias <3

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