Política

A liberdade sexual da mulher no Brasil

Brasil, “um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, terra do futebol, do carnaval e de “lindas morenas”. É também a terra do samba, do biquíni fio dental e até dá nome a um tipo de depilação. Os estrangeiros adoram falar sobre a sensualidade da mulher brasileira, sua beleza, seu “gingado” e sua  -suposta-  liberdade sexual. Somos conhecidos lá fora como um país de belas bundas e mulheres “fogosas”. Já li várias entrevista de artistas estrangeiros falando que as brasileiras têm uma energia sexual diferente, uma liberdade.

Será que somos assim tão livres ou será só um estereótipo, extremamente machista, para atrair turistas e satisfazer o olhar masculino?Se você é uma mulher, brasileira, e está lendo isso, você já sabe a resposta. Você vive, todos os dias, a resposta.

Desde o ano passado, o aumento significativo nas estatísticas de estupro e abuso ao redor do mundo impulsionou os debates e o maior engajamento das lutas sociais a respeito, dando nova força ao tema. A situação é complicada, em especial, nos países do Oriente Médio onde a submissão feminina muitas vezes é protegida pela lei e pela religião. Além disso, os casos de violência doméstica contra as mulheres seguem preocupando as autoridades mundo afora. Nos enganamos ao acreditar que no Brasil é muito diferente, os números nos provam o contrário. Em 2011, foram notificados 12.087 casos de estupro no Brasil. De 1980 a 2010, foram assassinadas no país perto de 91 mil mulheres, 43,5 mil só na última década.  (ver mais) As estatísticas de segurança pública no Brasil apontam que, em 2012, foram registrados 50.617 ocorrências de estupro, contra 47.136 assassinatos. Segundo pesquisas do  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 2009 e 2011, o país registrou 16,9 mil feminicídios, ou seja, mortes de mulheres decorrentes de conflito de gênero, crimes geralmente cometidos por parceiros íntimos ou ex-parceiros das vítimas. Mas, ainda há quem acredite, e não são poucos, que a luta por igualdade entre homens e mulheres não é mais necessária e que o feminismo não passa de uma bobagem.

Primeiramente, gostaria de esclarecer alguns pontos. Feminismo não é o oposto de machismo e não tem como objetivo favorecer as mulheres (não aguento mais ouvir isso). A expressão “machismo” se refere a práticas onde a figura feminina aparece submissa à figura masculina, enquanto que, a expressão “feminismo” se refere a uma corrente ideológica que busca a igualdade entre os sexos no mercado de trabalho, na família, na política, na religião, nas ruas e na expressão da sua sexualidade. É claro que hoje as mulheres possuem mais direitos e têm acesso a bens (materiais, culturais e intelectuais) que não tinham antes. Contudo, elas seguem com um salário inferior ao de seus colegas do sexo oposto, seguem tendo sua sexualidade reprimida desde a infância e, mesmo após tantos anos de inserção da mulher no mercado de trabalho, ainda precisam “provar” diariamente que possuem o mesmo nível de qualificação de seus colegas homens. Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) mostram que, em 2012, o salário mensal das mulheres era equivalente a 72,9% do dos homens.

Voltando a questão da liberdade sexual no Brasil, gostaria de relembrar alguns fatos recentes. No final do ano passado , 3 meninas tiveram sua vida transformada, em dois casos interrompida, depois que suas fotos íntimas foram espalhadas pela internet. Fran (Goiânia, 19 anos),  Júlia (Piauí, 17 anos) e uma jovem de Veranópolis (16 anos) da qual não foi divulgado o nome. A garota de Veranópolis e Júlia se suicidaram após os acontecimentos. As meninas foram apenas 3 casos que ganharam grande repercussão na mídia, no entanto, todos os dias milhares de mulheres sofrem violência física e/ou psicológica de pessoas nas quais confiam, o marido, o namorado, o chefe, o professor, o pai, o tio, ou um caso de uma noite. A culpa não é da tecnologia e muito menos das garotas, a culpa é da sociedade machista na qual vivemos, a culpa é de todos nós. As 3 garotas foram condenadas, chamadas de “vagabundas” e ridicularizadas, como se ninguém fizesse sexo, como se ninguém tivesse fantasias e momentos de intimidade. Mais uma vez, as mulheres passaram de vítimas para culpadas graças aos ensinamentos machistas que aprendemos desde criancinhas. Vimos muitas vezes essa lógica se aplicar também em casos de estupro, onde a culpa foi colocada na mulher que bebeu, que usou uma roupa curta, que estava tarde da noite na rua ou que dançou demais na festa. O homem só estava “cumprindo seu papel de homem”. Nos casos de violência doméstica, a mesma lógica se repete, a mulher é induzida a aceitar o comportamento do parceiro e muitas vezes é  culpabilizada por ele.

O culpado de um estupro não é a mulher, é o estuprador. O culpado dos casos como os do Whatsapp não são as gurias, que mostram seu corpo num momento de intimidade, e sim a pessoa que divulgou esse momento particular. O culpado da violência doméstica é o agressor não a vítima. Parece simples, mas não é.

Vivemos em um país onde a mulher pede desculpas por ser estuprada, exposta, abusada, agredida. Vivemos em uma sociedade onde a
mulher se sente desconfortável andando na rua durante o dia, devido as cantadas nojentas que é obrigada a ouvir, e tem medo de sair durante a noite por ser considerada um “alvo fácil”. E o pior, vivemos em uma sociedade onde tudo isso é considerado “normal”. Isso não é a liberdade feminina que vendemos nos cartões postais.

Desde crianças temos nossa sexualidade reprimida. É natural crianças de 4 ou 5 anos quererem se descobrir, olhar e tocar seu próprio corpo, sem nenhuma conotação sexual, sem nenhuma “malícia”. Esse comportamento nos meninos é considerado “engraçadinho”, nas meninas ele é visto como “feio”. Na puberdade isso se repete, o garoto começa a descobrir sua sexualidade, conhecer o próprio corpo, fazer perguntas, sentir desejos e é incentivado a isso, a garota é instruída a “se guardar”. Na vida adulta, nós mulheres somos pressionadas para termos um corpo perfeito, seguindo padrões de beleza que mudam a todo o momento. A sociedade espera de nós que sonhemos em casar e ter lindos filhos. Precisamos ser excelentes filhas e mães melhores ainda, sem, é claro, descuidar do visual e da carreira. Precisamos ser mães perfeitas, mas sem aquela barriguinha da gravidez e sem esquecer da vida sexual, pois o casamento também precisa ser perfeito. Não podemos transar na primeira noite pois seriamos “fáceis demais”, mas precisamos ser “boas de cama” para “prender o cara”. Precisamos ser sensuais, mas sem usar roupas “vulgares”.

Se para mulheres adultas, instruídas, com a personalidade já formada e carreira estável é difícil lidar com todas essas pressões, imagina o que se passa na cabeça de uma menina de 16 anos que tem sua intimidade espalhada para milhares de pessoas e vê o suicídio como sua única alternativa. Se essa mulher adulta pensa duas vezes antes de colocar um short, imagina o que sente uma menina de 15 anos quando é abusada em uma festa por causa da roupa que está usando. Se ela sente medo de expressar sua sexualidade junto com seu parceiro, o que irá explicar para uma filha?

O país do carnaval despe suas mulheres durante 4 dias para o mundo festejar e as oprime o resto do ano. No fim das contas, esse texto é só para dizer que “nem toda a brasileira é bunda” e que se for não tem nada de errado com isso.

Ps. Recomendo a leitura de dois outros textos aqui do blog sobre a liberdade sexual feminina.

1- Sobre vadias, liberdade e equidade  (sobre feminismo e a Marcha das Vadias)

2- Na primeira, na terceira: quando quisermos (sobre a ideia retrógrada de que uma mulher não pode transar no primeiro encontro)

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1 comentário

  1. Gabriela Trezzi says:

    Se liga, se liga, se liga seu machista!! O Portal Viés vai ser todo feminista <3 <3 <3

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