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Estupro não é sexo!

Infelizmente ser biscate não é só assumir o controle dos seus desejos e corpo, porque o mundo, machista como é, insiste em não apenas ignorar nossa atitude como insiste também em tentar controlar nossos corpos, desejo e prazer. E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência. E como o assunto do momento é o estupro de uma “biscate”, é sobre isso que precisamos falar.
Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.
Precisa de exemplo? Apontar a arma pra uma pessoa na rua a deixa vulnerável. Bater numa pessoa a deixa vulnerável. Ameaçar o emprego, a família, os amigos a deixa vulnerável. Estar bêbada, dormindo, drogada, é estar vulnerável. Aproveitar-se de relações de trabalho ou familiares pra forçar sexo é aproveitar-se de vulnerabilidade. Não importa se é um marido, namorado, colega, amigo, vizinho, desconhecido, não importa o grau de intimidade e confiança… Tocar, se esfregar, penetrar, inserir objetos no corpo da outra pessoa sem que ela deseje isso e consinta explicitamente sem coação de nenhuma ordem, É VIOLÊNCIA.
Entenda: estupro não tem atenuante. Mulher pode gostar de sexo, de beber, usar roupas provocantes e se divertir e isso não dá a ninguém o direito de estuprá-la. Vamos desenhar, atenção: não é porque ela estava bêbada que pode estuprar; não é porque ela estava na rua sozinha depois das 22hs que pode estuprar; não é porque ela estava com um grande decote, saia curta ou maquiada que pode estuprar; não é porque ela é prostituta que pode estuprar; não é porque ela tem relações sexuais com várias pessoas que quer ter com você também; não é porque ela é gostosa que pode estuprar; não é porque ela dança de forma provocante que pode estuprar; não é porque ela é “feia” e nunca ia arrumar namorado que pode estuprar; não é porque ela concordou em conhecer sua coleção de figurinhas de jogadores das seleções asiáticas de futebol que pode estuprar; não é porque ela se deitou com você e ficou trocando carícias embaixo do edredom que pode estuprar. Não pode usar força, não pode insistir com ameaças, não pode se aproveitar que a pessoa dormiu, não pode chantagear.NÃO PODE ESTUPRAR!
Quando alguém diz não, significa exatamente isso: NÃO. Não importa o que ela “quer dizer”, importa o que ela efetivamente disse. E se a pessoa está desacordada, bêbada, drogada ou sonolenta e não tem condições de dizer sim ou não, saiba: é sempre não. Se a pessoa não pode decidir, guarde a viola no saco (guarde o pinto dentro da cueca) e espere outro momento.
Para os que se perguntam se a responsabilidade não é dos dois, um esclarecimento: a culpa de ser estuprada não é da vítima. Não, ela não provocou. Ela tem o direito de vestir o que quiser, de beber o quanto quiser, de dançar, sorrir, beijar e decidir não fazer sexo. O corpo dela não é brinquedo. Ela é uma pessoa, com liberdade e direitos. Essa é a parte que o moralismo parece esquecer. As mulheres são sujeitos e têm direitos. As mulheres não estão no mundo para provocar ou satisfazer os homens. Estão por aqui pra ser felizes, tal como eles. Antes de apontar o dedo e afirmar que ela mereceu a violência sofrida, é bom pensar que os agressores não são previsíveis. Estupra-se criança, idosas, estupra-se mulheres cobertas da cabeça aos pés, estupra-se homens, meninos, estupra-se freiras e prostitutas. Estupra-se mulheres que bebem e estupra-se as abstêmias. Porque sempre a culpa é da mulher? Porque é tão mais fácil dizer que ela deu sopa, que “pediu por isso”, que “fez por onde”? Não é o “dar sopa”, ser biscate, estar bêbada ou “a mão” que a torna alvo do estupro. Homens estupram porque acham que podem, que têm esse direito, que o mundo lhes serve. É relação de poder, pura e simples.
Então, você mulher “direita” que está aí se dando o direito de julgar e apontar o dedo para a “biscate” e dizer que “ela pediu”, “mereceu” ou no mínimo que “aguente as consequências dos SEUS atos” (como se ela tivesse escolhido ser estuprada), saiba que você não está a salvo de um estupro e toda a sua “direitice” e moralismo não irão te salvar na hora em que algum homem te olhar e achar que pode se satisfazer no teu corpo mesmo contra a tua vontade. Porque a violência contra a mulher é ampla e democrática, não julga comportamento, idade, cor, profissão, classe social, origem.
Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.
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7 comentários

  1. KARINA ALMEIDA says:

    excelente post Bruna. Demais :)

  2. Andiara Moraes says:

    Bruna, eu não tenho muito a dizer, a não ser o fato do teu texto ter me tocado muito. Minha posição é a mesma, acho um completo absurdo (a ponto de me sentir ultrajada, ofendida) a tentativa de justificar o estupro. No mais, baita texto, parabéns!

  3. Anderson Lopes says:

    Ola,
    Eu li o seu comentário e concordo com vc em gênero, numero e grau.
    Como o homem sinto me enojado e com ódio de morte por ver que miseráveis (e esta é a palavra) que deveria passar pelo msm sofrimento que passam suas vitimas.
    O Fizeram com quem quer que seja, deveria ser feito com eles.
    Esses dias aqui no RJ estamos vendo o caso um bárbaro de estupro e assalto com um casal de estrangeiros (a nacionalidade deles não foi divulgada), eles foram abordados, o rapaz foi espancado e a moça foi violentada . O que mais me choca é que não há por parte dos dois malditos (eu não tenho outro termo pra colocar) arrependimento ou remorso, com relação ao que fizeram.
    Eu não sou a favor da pena de morte, mas algo tem que ser feito, pois isso não pode continuar.
    Como homem estou envergonhado, ultrajado e humilhado, pois homem de verdade não faz isso.
    Me perdoe o desabafo, mas minhas reações sobre esse tipo de crime são tão intensas que eu prefiro nem pensar no que eu faria com um “lixo” desse tipo.
    Um Abraço, Fique com Deus e continue a divulgar.

  4. Concordo com tudo que você escreveu.
    Só quem sofreu um estupro sabe como é ter nojo do propio corpo,desconfiar das pessoas,fica se perguntando porque isso ter acontecido com ela,e se ela merecia.
    Me ajudou muito.
    Obrigada

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