Variedades

Um judeu em Porto Alegre

Sou jovem, sou judeu, e vivo em uma sociedade onde sou minoria. Isso não é novidade para ninguém. Todos nós, jovens judeus, sofremos preconceito, mesmo que este não seja negativo, ainda assim, é preconceito. Sofremos preconceito de árabes, de cristãos, de ateus e, por incrível que pareça, dos próprios judeus.

As pessoas realmente não sabem o que é ser judeu, não sabem nada da nossa cultura, não entendem nossas tradições. Acham que os judeus são diferentes. Narigudos, barbudos e se vestem de preto. Acabam se esquecendo que somos pessoas normais, apenas com origem diferente. Já ouvi várias vezes: “Mas tu és judeu? Nem parece…”. Como assim, não parece? Eu deveria parecer como? Somos pessoas! Talvez se dissessem “Tu és filho da Sara? Nem parece…” eu entendesse, mas por que um judeu precisa parecer fisicamente com um judeu? Besteira.

Quem já teve a experiência de estudar fora do Colégio Israelita, provavelmente teve que responder muitas perguntas que para nós parecem óbvias. Nossos amigos “Goys” (não-judeus) perguntando por que os judeus não trabalham no sábado, ou por que os judeus jejuam emYom Kipur. Ser judeu é tão “anormal” para o resto da sociedade, que é comum um judeu fora do contexto ser apelidado de “Judeu”. Também podemos perceber que nem todos entendem que ser judeu não significa ser religioso. Podemos ser judeus laicos, não podemos?

Sou judeu porque minha mãe é judia, mas isso não significa que eu acredite em D´us, ou na Torá (Bíblia Judaica). Se eu me desconectar da comunidade judaica e estudar em um colégio de freiras, continuarei sendo judeu. Mas e se minha mãe não fosse judia? Eu seria judeu? Eu estudei quase a vida toda no Colégio Israelita, participei durante dezesseis anos de um Movimento Juvenil Judaico, morei durante 1 ano em Israel. Nessas condições, eu seria considerado judeu? Para muitos sim, para outros não. Então, afinal, o que é Judaísmo? Povo? Crença? Origem? Cultura? Tradição? Se for origem, ou povo, eu não poderia ser considerado judeu, mas sendo crença, cultura ou tradição, talvez eu fosse mais judeu do que muitos filhos de mãe judia por aí. No caso, minha mãe é judia, então eu preencho todos os “pré-requisitos” para fazer parte da comunidade judaica, mas tenho muitos amigos que sofrem preconceito até mesmo dos próprios judeus, porque são filhos de “goy”.

Recentemente, Israel se envolveu em conflitos com o Hamas em Gaza. Para os judeus de Porto Alegre, foi preocupante também. Tivemos que lidar com pessoas cada vez mais odiando Israel, e precisamos de muita informação para poder debater o assunto e esclarecer os fatos. Fomos considerados culpados por atrocidades cometidas pelo exercito de Israel. Tivemos que escutar frases como “Pô, e essa matança lá no teu país” como se fôssemos nós que estivéssemos envolvidos.

As pessoas tendem a acreditar que os judeus sempre vão defender Israel a qualquer custo, independente da situação. Mas não é assim que acontece. Existem milhares de judeus que são a favor da criação do Estado Palestino, contra o atual governo de Israel, mas mesmo assim são considerados “farinha do mesmo saco”.

Manifestantes do grupo “Shalom Achshav” (Paz Agora) (Foto: http://www.betar.org.il/en/content/view/52/)

Como podemos lidar com o preconceito contra o nosso povo? Acho que antes de qualquer coisa, nós devemos saber a nossa própria historia, e tudo que nos envolva, para depois podermos explicar para quem não sabe, e quem sabe, terminar de vez com isso.

Mas devemos nos preocupar com qual preconceito? O dos não-judeus ou o dos judeus?

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