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A “Boa Música”

Está intrínseco na nomenclatura que damos a algumas coisas as suas qualidades, ou que de alguma maneira, são atribuídas como julgamento de valor em tal nominação. Música eletrônica. Por mais genuína e orgânica que seja qualquer manifestação sonora, não a chamamos de “música orgânica” ou “música mecânica” e sim há uma profusão de ritmos muito bem definidos e diagnosticados: “isso é hard rock” ou “isso é pós-punk”. Não na música eletrônica. Que suas derivações fiquem por conta de seus entusiastas, o que é comum de outras manifestações de nicho. A questão aqui está na forma como é apresentada: a necessidade de declarar sua natureza “eletrônica”, antes de qualquer coisa, soa como um degrau a menos no pedestal daquilo que é considerado boa música. É automatizada, técnica, é só “tunt tunt” que serve para as raves, qualquer um pode fazer, descartável. Bom não é verdade. A música eletrônica (e aqui até eu me rendo a essa caracterização), além de ser digna de todos os elementos de composição – melodia, harmonia e ritmo – é capaz de criar grandes narrativas e reflexões a partir de sua construção. Também é verdade, como qualquer outro tipo de som, que tenhamos as versões comerciais e absorvidas pela indústria pop (e que não devem ser desmerecidas).

Quando os alemães do Kratwerk (percursores da dance music moderna) revolucionaram a maneira como os elementos sintéticos de som poderiam se tornar música em si e se apropriaram dos ruídos da computação ainda nos anos 70, já era possível identificar a critica social do pós-guerra e temáticas relacionadas à automatização da vida urbana. Não são os sintetizadores que impedem a erudição da e-music (como muitos pensam), por muitas vezes são eles que tornam possível a abordagem de temas recorrentes contemporâneos e a criação de  uma reflexão sobre os próprios. Entre eles a corrida tecnológica, a automatização da vida e do trabalho, a obsolência programada, o pós-humanismo, o neoshamanismo, futurismo, entre outros. O experimentalismo permite hipertextos dignos de análise sobre um mundo contemporâneo em uma metalinguagem do som.

Divulgação

 

O vencedor do Grammy Awards de 2012 Skrillex e principal responsável pela difusão do dubstep no cenário mundial sublima os críticos de música convencionais – e aqueles que profanam a e-music como arte – na primeira faixa de sua obra-prima “”Scary Monsters and Nice Sprites” ao colocar uma mensagem reveladora sobre a narrativa sintética que a antecede:

 

“You have technicians here, making noise. No one is a musician.They are not artists because nobody can play the guitar.”

(Rock’n Roll Will Take You To The Mountain/Scary Monster And Nice Sprites/2011)

Divulgação. Big Beat Records

 

O projeto “Africanism All Stars” contempla outra vertente da e-music que se apropria dos elementos tribais de percurssão para incitar construções de rito e de magia. Na própria música pop, a faixa “This Used to be the Future” do duo Pet Shop Boys conta com uma epopeia de um pouco mais de 1 minuto de sintetizadores que claramente sozinhos conseguem representar uma crítica à progressão tecnológica e aceleração do ritmo de vida.

 

A grande questão é que a música não deveria ser classificada pela natureza de seus elementos. “Boa música” é uma porção individual de referências que a vão criar para quem aprecia. Muitos acreditam que os sintetizadores e maquinaria eletrônica não merecem ser levados a sério, ou até que estejam dominando e sublimando as outras organizações “convencionais” de música. Sejam os acordes de um violão ou os “loops” ajustados digitalmente, nossos ouvidos vão ser estimulados por aquilo que nos toca, e ambos aqui são capazes.A música se torna música pela intenção e recorte sonoro de cada artista. Tanto as incontáveis bpm (batidas por minuto) em uma festa, a construção e reflexão de elementos compostos digitalmente ou qualquer coisa que sequer tenha passado perto desse processamento merecem a mesma prerrogativa: se os pelinhos do braço levantarem, essa é a “boa música”.

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3 comentários

  1. Concordo Maurício! Os rótulos usados para atribuir característica a determinados ramos musicais quase sempre cometem injustiças com quem atravessa essas fronteiras

  2. Este conceito de “boa música” sempre me intrigou. Ótimo texto!

  3. Christiana Cirne Lima says:

    Baita texto. Mesmo não entendendo (essa expressão cabe melhor) nada de música eletrônica, não faz sentido criar categorias de qualidade para nenhum tipo de arte.

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