Cinema / Viés

A trilha sonora como elemento climático

O cinema nunca foi totalmente mudo. Sempre houve som. O único problema é que não havia uma boa forma de sincronizá-lo com a imagem. Acompanhar imagens sem som, até hoje, causa estranhamento. E isso não se justifica pelo costume que temos hoje de assistir filmes sonoros. Desde as tragédias gregas, o desenrolar da narrativa já era acompanhado por instrumentos e coro. No cinema não foi diferente.

Desde a sua criação pelos irmãos Lumière, em 1895, havia um pianista nas salas de exibição encarregado de criar climas narrativos para a cena, improvisando sobre um repertório próprio conforme sentia as imagens, com uma função meramente ilustrativa.

Em 1927, surgiu o Vitaphone, uma máquina de projeção que sincronizava o filme a um disco de trilhas. Suas inconveniências eram grandes: a baixa qualidade da amplificação da época, o chiado do disco e o perigo dele riscar e tirar o filme de sincronia. Algum tempo depois, esse sistema foi aperfeiçoado para o Movietone, que imprimia o som na própria película, acabando com o problema de chiado e sincronismo.

Mas, como em toda inovação, o som trouxe alguns problemas para o cinema. O principal deles foi de ordem estética: o que fazer com o som? Onde ele pode ajudar na narrativa? Até onde  é apenas mais um elemento decorativo, como a cenografia? Passou-se, então, a utilizar o som de duas maneiras: como elemento climático e como foco da ação. É, porém, através da primeira forma, que o cinema encontrou as bases da utilização do som para formar o ambiente.

É ai que chegamos num dos mestres do duo trilha/clima narrativo. Alfred Hitchcock trabalhou nos seus melhores filmes com o compositor Bernard Hermann. Hermann compunha toda a trilha dos filmes pensando em criar climas narrativos intensos. Fez isso em Psicose, no qual o som é construído a partir da densidade psicológica da obra. A textura da música é compatível com a textura do filme. Por exemplo, todas as cenas as quais aparece o personagem Norman Bates, a trilha dá um salto brusco do agudo para o grave, representando a dupla personalidade do personagem. Outro exemplo é na famosa cena da morte no chuveiro em que o ritmo das punhaladas está sincronizado com o ritmo das notas agudas do violino e a música vai se tornando mais grave e lenta conforme a respiração da atriz também torna-se lenta.

A instrumentação de Hermann atingiu uma dramaticidade e expressividade essencial para a compreensão dos filmes em parceria com Hitchcock. Sucesso de público e vendas, Psicose conseguiu arrancar gritos da platéia, como o próprio Hitchcock afirma, graças à utilização do som como elemento comunicador.

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