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A vida dupla de Mafalda

A personagem de quadrinhos Mafalda carrega um bolo de aniversário.
Mafalda faz aniversário… mas não de 50 anos. (Fonte:http://3.bp.blogspot.com.)

Há poucos dias, houve certo burburinho na Internet a respeito do aniversário de 50 anos de Mafalda, personagem de tiras em quadrinhos argentinas. Seu criador, Quino, porém, refutou o cálculo, dizendo que a menina só completaria o meio século de existência em 2014.

Isso se deve ao fato de que a primeira tira foi publicada em 29 de setembro de 1964 na revista “Primeira Plana”. 1962 foi o ano em que Mafalda foi utilizada em uma campanha publicitária, antes de vir para o mundo dos quadrinhos. Embora possa se argumentar que o nascimento da personagem teria ocorrido, tecnicamente, antes de aparecer no meio onde ficou famosa, tendo a deixar que Quino defina o momento em que sua própria criação cristalizou-se no ícone que conhecemos até hoje.

Dito isso, o intervalo entre a comemoração e a réplica de Quino deu origem a certas reflexões minhas, e por isso as considero relevantes em um sentido jornalístico (se bem que considero Mafalda uma personagem sempre relevante). Embora possua os diversos livros contendo as tiras, não tenho nenhum compêndio de outros cartuns de Quino em minha estante – apesar de já tê-los vistoem livrarias. Meucontato com o material do cartunista mais centrado no mundo adulto é limitado a folhear livros nas lojas (em minha defesa, isso foi alguns anos atrás) e em cartuns partilhados na internet.

Minha exposição, portanto, foi limitada (não por nada ou ninguém em particular a não ser eu mesmo, claro), mas pude notar uma diferença de tom entre o magnum opus de Quino e seus cartuns mais “autocontidos”, por assim dizer.

Em ambos os casos, há uma exploração não apenas das mazelas da modernidade, mas também da condição humana como um todo. Nos cartuns, Quino, não estando preso a um elenco ou a um local, pode fazer uso de pessoas em situações absurdas ou metafísicas – ou simplesmente deixar que interajam em um espaço em branco, sem maiores floreios do pano de fundo. Os personagens são genéricos, representando a humanidade em geral ou certos aspectos seus. Mafalda, por outro lado, tende à política contemporânea devido à sua especificidade de setting, e seus personagens não são simbólicos, embora sirvam frequentemente como representações de setores da sociedade.

O que chama minha atenção nos cartuns surreais de Quino é uma certa brutalidade: o mundo adulto é um mundo de superficialidade, conformismo, opressão, descontentamento e angústia – digno de um romance de Kafka. Ansiedade e confusão são sensações que permeiam a visão de mundo pessimista e desoladora expressa pelo autor. É algo que pode ser visto, por vezes, com as frustrações dos pais de Mafalda – mas, mesmo nesses casos, o lar e a família se tornam uma fonte de alegria e conforto. É esse último aspecto que sumariza o contraste entre as duas produções de Quino.

A pequena Mafalda vive uma vida dupla. A infância e suas alegrias sofrem colisões constantes com a desesperança da vida adulta, o que caracteriza, para mim, o charme da tira. Paralelos podem ser traçados com o célebre Peanuts, de Charles M. Schulz: assim como Charlie Brown mescla a inocência e leveza da infância com a melancolia da idade, Mafalda teme o conflito nuclear e a sopa de sua mãe com intensidade igual. A menina habita a intersecção entre o inferno existencialista de Quino e a simplicidade e candidez características da juventude.

À guisa de uma breve reflexão em homenagem aos 48 anos (ou 50 anos “temporários, até Quino explicar sua posição”), chamo atenção para o que talvez seja o aspecto mais universalizante de Mafalda – mais até, talvez, do que a sátira surreal dos outros cartuns de seu criador: a corda bamba que atravessamos todo dia tentando equilibrar nosso idealismo jovial com uma aceitação e reconhecimento do mundo caótico – embora nem sempre hostil – no qual nos encontramos.

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