Política / Viés

Agora, manifestação se faz com mouse em punho

Houve  um tempo que manifestação prescindia colheres de pau batendo em panelas de alumínio, ruas fechadas por defensores de determinada causa, reitorias ocupadas por estudantes engajados. Houve um tempo que manifestação prescindia vontade e disposição.

Durante show do Capital Inicial no Rock in Rio, no sábado, 24 de setembro, assistimos a mais um exemplo de como está simples fazer manifestações. O vocalista da banda, Dinho Ouro Preto, fez um discurso contra a corrupção, em especial, contra as falcatruas da família Sarney. Dedicou a indignada Que País É Esse ao rei do coronelismo no Brasil, o público gritou bastante e ponto. Um ato contra as oligarquias na maior festa do rock no país.

Achou fácil? Pode ser mais. Há uma maneira bastante cômoda, rápida e – o melhor – não precisa nem sair de casa. Lutar pela criação do Estado palestino? Um clique. Assinar um manifesto contra a burocracia e inutilidade do Congresso Nacional? Um clique. Por um basta no trabalho escravo de crianças no Camboja? um clique. Na internet, através de e-mails e redes sociais, recebemos quase que diariamente “oportunidades de tornarmos o mundo melhor”. Quanto à eficacia, desconheço totalmente. Não sei se as pessoas realmente acham que estão fazendo algo de útil ou se pensam algo como “se funcionar, ótimo; se não, não me deu trabalho”.

Sindicatos e associações ainda mantêm a prática das manifestações na rua, reunindo centenas, milhares de pessoas. Mas são cada vez mais raras e questionáveis. Umas, pelo resultado. Outras, pelo método. No Rio Grande do Sul, o Cepers/Sindicato sempre foi uma referência de luta por melhores salários e condições de trabalho. Mas, nos últimos tempos, isso não tem se refletido em ganhos para os professores. No mesmo Estado, recentemente, a Brigada Militar organizou atos que incluíram queima de pneus em rodovias, denominados pelo secretário da Segurança Pública, Airton Michels, de “ação criminosa”.

Seria pela dificuldade de transformar as caminhadas, bloqueios e ocupações em benefícios para uma categoria específica ou para a sociedade em geral que os protestos “fora da rede” estão escassos? Ou as pessoas estão cada vez mais comodistas a ponto tentar fazer tudo por traz da tela de um computador? Talvez nenhuma das alternativas, talvez as duas. Mas chamar de luta um clique no mouse para assinar um manifesto ou meia dúzia de palavrões gritados durante show é desrespeito com quem um dia lutou por uma causa e pagou caro pela escolha.

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3 comentários

  1. Muito pertinente essa discussão, Eduardo. Eu ando super preocupada com essas questões também, mas tento continuar otimista quando às mobilizações que estão por vir. Talvez as pautas e reivindicações estejam mudando, e a gente precise encontrar novas maneiras de fazer política (no bom sentido da palavra).

    O importante é pensarmos criticamente em tudo que está acontecendo. :)

  2. Um bom exemplo de comodismo é uma manifestação contra a violência infantil. Como é? Trocar a foto do perfil do Facebook por um personagem de desenho animado ou revista em quadrinho. Poderia até servir como alerta (manifestação não) se trouxesse algum dado, mas não faz isso. A proposta:

    TROQUE SUA FOTO DO PERFIL POR UM PERSONAGEM DE DESENHO ANIMADO, REVISTA EM QUADRINHOS, ATÉ O DIA 12-10 (DIA DAS CRIANÇAS). SERÁ UMA FORMA DE MANIFESTO CONTRA A VIOLÊNCIA INFANTIL!!

    ESPERO QUE ESSA CAMPANHA DÊ CERTO …. ESTOU REPASSANDO PARA AJUDAR !! VAMOS LÁ PESSOAL!!!

  3. Pingback: É hora de avaliar a eficácia das greves | Viés | O outro lado da rede

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