Variedades / Viés

Minhas (ini)amigas Ana e Mia

“LEMBRE-SE: COMER É PARA OS FRACOS!!!”

“Olhe se no espelho e diga a si mesma que está gorda e feia.”

“Não acredite no que os outros andam dizendo a seu respeito. Você nunca estará magra o suficiente.”

“Não conte a nenhum amigo que você e MIA… ou ANNA… eles querem acabar com elas.”

Parece absurdo, mas esses são conselhos para quem quer ser “amiga” da Ana e da Mia, para ser mais clara, para quem quer aderir à anorexia e à bulimia.

Anorexia, segundo o CID 10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), é um transtorno caracterizado por perda de peso intencional, induzida e mantida pelo paciente. Já a bulimia é uma síndrome caracterizada por acessos repetidos de hiperfagia e uma preocupação excessiva com relação ao controle do peso corporal conduzindo a uma alternância de hiperfagia e vômitos ou uso de purgativos.

Fonte:giphy.com/

Resumindo, podemos dizer que as duas são doenças que são caracterizadas pela repetição de comportamentos que praticamente toda mulher já teve. Como nossa amiga Emily de The Devil Wears Prada, a maioria de nós já passou muita fome para por sentir culpa por ter ~exagerado no fim de semana, ou para entrar no vestido que compramos para o casamento da prima 5 anos atrás, mas agora não dá para subir o zíper.

O corpo que as mulheres buscam ter, que vemos as revistas e outdoors é sem nenhuma sobrinha de gostosura gordurinha – algo praticamente impossível de se atingir sem uma genética divina. Mesmo com essa travessura do destino que nos faz diferentes das modelos, muitas de nós movem mundos e fundos fazem loucuras para atingir as medidas super restritas das Victoria’s Angels.

Eu sou uma delas. Não sei se é possível ser chamada de ex-bulímica, mas se for, me enquadro nessa classificação. Por quase um ano segui esses conselhos absurdos que a gente vê nesses blogs e tumblr pró ana e mia. Meu objetivo de vida era ter as costelas aparentes, minha única alegria do dia era sentir minha cabaça levíssima e tremeliques nas mãos por falta de nutrição.

Sabia tudo sobre os NF’s (No Food: como são chamados os períodos, na maioria das vezes vários dias, em jejum), os LF’s ( Low Food: dias com baixo consumo de calorias – no máximo 600kcal), os laxantes que fazem efeito mais rápido, os remédios para asma que aceleram o metabolismo, como disfarçar o cheiro no banheiro e o cheiro de banheiro na sua boca. Me acostumei a comer em no máximo 10 minutos, pois a comida é absorvida pelo organismo depois desse tempo é, nada fazia sentido, a comer só uma salada o dia inteiro (quando eu não colocava para fora também), a achar que eu não tinha problemas com a comida, afinal, eu só estava tentando ser bonita.

Perdi 10 quilos em duas semanas. Nunca tinha sido mais magra na vida! Deveria estar nas nuvens, né? NÃO, eu nunca fui tão infeliz quanto na época que a única coisa que me faria feliz era ter “o peso certo”. Quando cada vez que eu me olhava no espelho, só conseguia enxergar uma gorda feia. Fazia dietas loucas, para perder 10 quilos em 10 dias, tomava 2 litros de água toda noite antes de dormir.

Existe uma quantidade absurda de blogs que ensinam as meninas formas de facilitar esses comportamentos e as incentivam a não comer. São vários os blogs de Thinspiration – inspirações de magreza – que são um amontoado de fotos de meninas magérrimas, com muitas saboneteiras, costelas aparentes e coxas separadas. Muitas meninas contam suas dificuldades para manter sua dieta e seus dramas. Muitas delas ainda se auto-flagelam. ah, a adolescência

 

A onda da barriga negativa, uma barriga sem NENHUMZINHO grama de gordura, deu um novo tom a esse tipo de transtorno. Disfarçada de vida saudável, a anorexia está sendo espraiada para todos os lados. Dicas de dietas pseudo-saudáveis dadas por pessoas sem o mínimo conhecimento de nutrição, excesso de exercício físico e posts que enchem de culpa quem ~tem momentos de alegria~ desliza e sai da dieta. Dicas de fruta diurética, farinha seca barriga, floral que acelera o metabolismo pipocam na timeline de quem põe #barriganegativa na busca de qualquer rede social.

Os likes e comentários incentivadores são mais nocivos que imaginamos. Ano passado, uma famosa twitteira porto-alegrense morreu devido a uma hepatite viral, doença que teria sido encadeada pela anorexia nervosa. Cada curtida, comentário, ou qualquer outra demonstração de apoio a esses comportamentos ajudam essas meninas a dar um passo mais para perto deste abismo.

No meu caso, tive sorte de ter uma mãe atenta que, quando percebeu meu comportamento, passou a me seguir até o banheiro e bater na porta até eu abrir. Parei de vomitar e voltei a comer. Como saldo, fiquei com uma anemia e seis meses de reposição de ferro. Fora isso, um ano depois, havia ganhado novamente todos os quilos que perdi mais 10 de brinde.

Depois de carregar esse peso extra por um ano, sem conseguir perder uma grama sequer, resolvi buscar ajuda profissional. Em março deste ano (com vinte pés atrás, pois odeio nutricionistas), eu fui me consultar com uma nutróloga e ela disse sem rodeios: eu estava obesa. Além disso, fui diagnosticada com compulsão alimentar: comia por ansiedade. Acabei percebendo que nunca tive uma relação saudável com a comida e a sempre a enxerguei hora como válvula de escape para as minhas ansiedades, hora como inimiga mortal.

Dois meses depois, dez quilos a menos, fora do sedentarismo que me envolvia há muito tempo to fazendo muay thai, estou fora da obesidade, mas ainda tenho um longo caminho pela frente. Com ajuda médica, medicamentos para auxiliar no controle da ansiedade e exercício físico, estou emagrecendo de forma saudável e (espero) definitiva.

Estamos todos mergulhados numa estética que privilegia o magro e jovem. Nas revistas, na televisão o que vemos são mulheres com corpos “perfeitos”. Estamos condicionados a acreditar que o magro é bom, que gordura é sinal de desleixo, preguiça e feiúra. Kate Moss, deusa dessa estética puro-osso disse uma vez “nothing tastes as good as skinny feels”. É com essa mentalidade que crescemos, a boneca que damos as meninas são tão magras que, se fossem reais, não conseguiriam manter-se em pé. Parece não haver escapatória, parece que o único jeito de sermos felizes é fazer o possível e o impossível para nos encaixar nesses padrões tão fora da realidade para a maioria.

Mas não é esse o caso. Emagrecer não significa ser feliz. Felicidade está muito mais ligada à auto-estima e à visão que você tem de si mesma do que a imagem que você passa para os outros. Para chegar a essa conclusão, tive de passar por tudo que passei e, mesmo assim, não fiz nada sozinha. Uma das minhas grandes inspirações são blogueiras de moda plus size, que me mostraram que não precisava usar tamanho 36 para ficar bem nas roupas e que não existe “corpo certo” para as peças de roupa que eu queria usar.

Entre Topetes e Vini 

Fonte:Entre Topetes e Vinís

 

Nadia Aboulhosn

Fonte:Nadia Aboulhosn

 

The Curvy Fashionista

Fonte:The Curvy Fashionista

 

Entrei em contato com um mundo maravilhoso do feminismo, o qual a Gabriela Trezzi explica bem melhor do que eu jamais conseguiria nesse post do Viés, e nesse mundo eu descobri que sou livre para escolher como meu corpo vai ser, sem ter que enfiar goela a baixo uma magreza que não é do meu biótipo.

Distúrbio Alimentar é coisa séria, algumas pessoas podem tratar como mania que adolescentes que passam o dia em casa tem, mas é muito mais do que isso. É doença, é perigoso e, uma vez que se tenha, é preciso lidar com ela por muito tempo – talvez para sempre. Se você está sofrendo com isso, ou conhece alguém que pode estar, procure um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) na sua cidade e busque por atendimento médico e psicoterapia ou mesmo um posto do SUS que deverá fazer o encaminhamento para o centro de tratamento mais próximo. Aqui em Porto Alegre, o GEATA (Grupo de Estudo e Assistência em Transtornos Alimentares) é especialista nesses casos e você pode entrar em contato com eles por aqui. Há ainda uma seção especializada no assunto no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, com quem você entra em contato pelo e-mail transtornos-alimentares@hcpa.ufrgs.br

Se você precisar de alguém para conversar, sinta-se a vontade para vir falar comigo por Facebook ou pelo e-mail kaila_isaias@terra.com.br e eu vou responder o mais rápido possível.

P.S.: Não coloquei crédito nas fotos de Thinspiration para não fazer apologia às páginas que fazem esse tipo de material.

 

P.S.2: Assistam esse vídeo MARAVILHOSO de blogueiras Plus Size da música da diva Bey (<3) Flawless.

 

#everyBODYisflawless from gabifresh on Vimeo.

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3 comentários

  1. Thais Sardá says:

    Querida Kailã,
    Obrigada por compartilhar algo tão íntimo com a gente.
    E, ao mesmo tempo, mostrar teu ponto de vista de forma crítica e com argumentos bem fundamentados.
    Força.

    • Kailã Isaias says:

      Tomara que quem ler entenda que é uma doença complicada, não uma mania. E dar força pras meninas que estão passando por isso, mostrar que tem solução. 😀

  2. Muito bom o texto! Alguns anos atrás se falou muito sobre esse assunto, mas já faz um tempo que eu não vejo esses temas sendo abordados. Vi muitas matérias sobre a tal barriga negativa e as coxas separadas, mas nenhum deles aprofundava muito o assunto na questão dos transtornos alimentares. Nesse caso a abordagem foi ainda mais importante pq ela veio de alguém que passou pelo problema. É estranho pensar que praticamente todas as mulheres já sacrificaram alguma coisa em nome de um padrão estético arbitrário e assusta pensar o quanto todos os dias estamos tão próximas de cair nesse caminho :/ Tomara que esse teu texto consiga ajudar algumas pessoas a não entrarem nesse mundo ou a darem os primeiros passos para sair dele. Parabéns pela iniciativa de compartilhar algo tão íntimo e tão importante com a gente :)

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