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20 anos de The Doors- O Filme

Esse artigo contém spoilers


The Doors mostra o surgimento, ascensão e queda de uma das mais importantes bandas de rock’n roll americano: The Doors. O foco narrativo do filme, porém, está mais no vocalista da banda, Jim Morrison (interpretado magistralmente por Val Kilmer), sendo que referencial de tempo no longa-metragem tempo que ele permaneceu no grupo. Portanto, a história do grupo é um contexto da vida de Jim, um recorte utilizado pelo diretor para que ele mostrasse a sua visão deste personagem. O filme exibe o lado conflituoso e mórbido do artista, com sua paixão pelas drogas e pela morte, usado pela sociedade ao mesmo tempo em que manipula uma parte dela.

Poster do filme The Doors com Jim morrison caminhando através de uma porta

Um personagem ambíguo: ao mesmo tempo que exerce fascínio pelo seu gênio, Jim Morrison inspira sentimentos avessos a sua conduta

O contexto do filme é o final dos anos sessenta, mostrando os movimentos de uma América recheada de jovens que buscam na música e nas drogas as respostas para os seus conflitos. Los Angeles, cidade onde passa a maior parte do filme, é retratada essencialmente como um antro do movimento hippie e do rock que viria a ser o mais famosos do país. O contexto não mostra luta de classes ou qualquer outra manifestação de revoltas que mereça destaque. Muito pelo contrário, o conflito físico ocorre no outro lado do mar, no Vietnã, fato destacado superficialmente na obra. Mas as pessoas estão passando por um momento interno conturbado, devido a tanta informação chegar até eles e fatos desastrosos estarem acontecendo. Esta acaba sendo a principal influencia do contexto na construção da trama.

No princípio, o protagonista é mostrado como um poeta marginal, extremamente dedicado a sua arte, como um apaixonado pela vida e crente na veradicidade do amor. O Jim Morrison deste momento busca apenas expressar-se em um mundo que move-se em direções diametralmente opostas: de um lado, há as pessoas engajadas com causas sociais, com a guerra que leva tantos jovens a pontos insólitos da Ásia para lá aprenderem como sobreviver em um ambiente hostil. Do outro lado, está a parte alienada que prefere a fuga à luta, quase sempre com o uso de entorpecentes. O curioso é notar que esta divisão não ocorre em indivíduos distintos: os antagonismos estão presentes na própria pessoa. O personagem de Morrison é mostrado exatamente assim: como um desiludido com a sociedade, que vê todos como escravos, seguindo uma linha contínua, a qual todos sabem no que está amarrada. Porém, ele também busca a fuga, ora por uso excessivo de álcool e drogas, e outro, pela sua música.

O conflito é o principal tema do filme, mais do que qualquer lição moral ou até mesmo biográfica. Morrison possui uma relação delicada com a fama: ele a ama e a odeia ao mesmo tempo. Jim é retratado como um artista problemático, até mesmo tímido em um momento inicial, mas que com o passar do tempo acaba gostando de estar presente na mídia. Porém, ele desaprova a sujeição às regras técnicas ou morais, como na cena em que rejeita a sugestão de um produtor do programa Ed Sullivan para alterar a letra de “Light my Fire”. O produtor gostaria que Jim cantasse “Girl, we couldn’t get much better” (garota, nós não poderíamos estar melhor), e não o original que é “Girl, we couldn’t get much hire” (garota, nós não poderíamos estar mais chapados). Jim acaba cantando a versão original e é expulso do programa. Ele ama a fama pelos motivos de prazer óbvios que ela acarreta, como mulheres, dinheiro e drogas. Mas seu lado poético e moral o fazem capaz de resistir à adesão total deste sistema.

Há um outro conflito que é trabalhado de modo interessantíssimo no filme, tendo muito a ver com a psicanálise e com o espiritismo. Quando Morrison é mostrado quando garoto em um flashback logo no início, ele presencia um acidente de carro em que um indígena é morto. Este fato poderia apenas ser visto do viés psicanalítico como um fato traumático, porém Jim mantém contato com o espírito do índio e até mesmo incorpora o mesmo. O músico acaba sendo reconhecido como um xamã, que é o curandeiro espiritual de diversas tribos autóctones, pois ele teria a possibilidade de modificar o espírito doentio e mecânico das pessoas. Através deste fato, o filme exige um pouco de criatividade e interpretação por parte do espectador: será que Morrison está em devaneio por causa do uso de drogas ou realmente há um espírito intervindo em seu corpo? As interpretações são pessoais, porém referências, principalmente no final (última cena, quando a mulher do cantor acha seu corpo no banheiro; momentos antes, no corredor, ela vê um índio nu saindo de lá.) acabam pendendo para uma conclusão de que realmente houve uma encarnação.

Jim Morrison abraçado a sua esposa Pam

Jim e Pam - o amor apesar dos conflitos e das traições

Cada lado da personalidade de Morrison é exposto, porém a parte marginal se sobrepõe pelo olhar viciado do espectador, mais interessado na parte delinqüente do que criativa do artista. O próprio público retratado no filme busca mais as atitudes do que a essência musical de Morrison. Isto também é causa do conflito interno do músico: ele não deseja apenas ser consumido, mas, sobretudo, busca que sua obra seja entendida como arte. As pessoas o vêem como um símbolo sexual, um rebelde, um símbolo do consumismo, mas esquecem que a banda surgiu, pelo menos pela parte de Morrison, como um meio de expressão artística. Jim não despreza totalmente o público, mas busca incentiva-los a transcenderem seus limites morais e legais, passando a promover orgias e performances com forte conotação rebelde.

Jim tem uma morbidez expressada fortemente pelo seu apreço pela morte. Não que ele odeie a vida, mas ele a curte como se cada dia fosse o último. As passagens que falam sobre morte estão muito presentes no filme. Esta seria a solução definitiva para todos os problemas da existência humana, segundo o personagem retratado no filme. Jim, neste momento, parece um escritor romântico do século XIX, sobretudo os do conhecido “Mal do Século”. Ele vê na morte inclusive a solução para o amor, quando ele sugere para sua mulher que para serem eternamente felizes eles devem morrer juntos. Ele não se mostra crente em vidas póstumas, mostra-se inclusive alheio as questões religiosas: para Jim, a morte simplesmente é o fim.
Ao analisar o filme devemos levar em conta a questão do conflito, e ao analisar o protagonista temos que buscar, inicialmente, entender os antagonismos do mesmo. É impossível tentar entender um personagem tão complexo apenas pelo simples rótulo de drogado alucinado: muitos fatos ocorrem no decorrer da história para aceitarmos tal definição. Do poeta marginal, crente no amor, que aparece no início da trama, pouco sobra ao seu final. Ele vai se desintegrando a medida que usa entorpecentes e se desilude com a sua vida e com o mundo. O filme exibe muitos elementos que permitem ultrapassar a interpretação superficial, e creio que apenas uma apuração destas fará o espectador capturar a verdadeira alma de Jim Morrison segundo Oliver Stone.

Fotos: Divulgação

Trailer do filme

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1 comentário

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