Música / Viés

Çà et là du Japon

Nomiya Maki e Konishi Yasuharu, a formação definitiva do Pizzicato Five (Imagem: Divulgação)

2000. A banda japonesa Pizzicato Five vinha trabalhando vários projetos naquele ano. Tinham feito vários anúncios sobre eles. Lançamento de um novo álbum. Lançamento da terceira parte de uma super coletânea de maiores sucessos. Lançamento dos singles da banda em uma edição especial. Uma gigante turnê pelo Japão com participação especial de ex-membros . E, claro, que Nomiya Maki e Konishi Yasuharu estavam encerrando a banda.

Um grupo influente como P5 terminar assim chamou muita atenção do público. Entrevistas em programas de rádio e TV tratavam do fim da banda. Ingressos para a turnê venderam como água. A coletânea e os singles também, e talvez tudo isso tenha feito com que a banda ficasse mais famosa no exterior que antes (certamente mais no Japão).

O álbum Çà et là du Japon em sua primeira edição (Imagem: Readymade Records, Tokyo)

No entanto, tudo isso tirou a atenção para Çà et là du Japon, o álbum de músicas inéditas que seria o último do Pizzicato Five, lançado em primeiro de janeiro de 2001. Depois da coletânea e dos singles, depois da turnê. Çà et là ficou em pano de fundo e isso, de certa forma, se reflete até hoje.

Por exemplo: a Matador, gravadora que relançava os discos do P5 fora do Japão. Normalmente, o disco saia dois ou três anos depois, pois a empresa tirava músicas, juntava com outras de outros álbuns, pedia versões diferentes; basicamente fazia um álbum de colagens. Mas desde 2001 se passaram nove anos, e a Matador ainda não lançou (nem tem previsões de lançar) Çà et là para o mundo.

Outro exemplo: a internet. Acha-se bastante informação, vídeos, comentários, resenhas, letras de música do P5 pela internet. Desde 1986, quando ainda eram cinco membros originais e Maki nem pensava em cantar ainda até os discos mais recentes. Menos o desprezado último álbum.

Não entendo. Mentira, em parte entendo. Poucas pessoas vêem o álbum como uma coisa inteira, e essa é a minha visão. Para a indústria fonográfica é mais prático, é mais cômodo usar cada música como produto individualmente, muito embora os músicos pensem cada disco individualmente, planejem o disco como uma coisa inteira.

Ora, quase junto com Çà et là du Japon foi lançado o box especial com singles do Pizzicato Five e a terceira e última parte da grande coletânea. Nenhum dos dois teve músicas do último álbum da banda incluídas, pois, por serem da mesma época, não tinha dado tempo de as músicas se tornarem conhecidas. Além disso, com o planejamento da turnê e o fim da banda, não foi lançado nenhum single do Çà et là nem feito nenhum vídeo clipe para divulgação. O álbum perdeu visibilidade.

Maki na capa do relançamento (no Japão) do álbum, em 2006 (Imagem: Columbia Nippon)

O que eu de fato não entendo é como até hoje ainda não se “redescobriu” esse álbum genial. Çà et là du Japon é um pouco diferente do que o P5 vinha fazendo até então. Musicalmente, mostra menos (embora ainda bastante) a influência global de que a banda sempre se alimentava, é um álbum mais japonês. Ao mesmo tempo, tem diversos convidados especiais, em quase todas as músicas, alguns estrangeiros. Mas ainda assim, é puro Pizzicato Five.

Da primeira à última música, o álbum é envolvente como todos os outros. Não se ouve tanto a suave e “naraleonina” voz de Nomiya Maki, mas sua interação com os convidados é sempre harmônica e positiva (em especial a música Sakura, Sakura). O andamento das músicas é muito bem trabalhado e nisso vê-se a mão habilidosa de Konishi Yasuharu, que, no entanto, participou mais da produção do que das músicas em si.

Capa do EP Nonstop to Tokyo de 1999 (Imagem: Readymade Records, Tokyo)

As músicas muitas vezes fogem do que se espera do P5, para quem está familiarizado com o trabalho da banda. Isso não quer dizer que sejam ruins. E, como que para mostrar que são músicas da banda, todas tem um toque sutil bem Pizzicato. A influência da música internacional aparece mais forte apenas em Nonstop to Tokyo (que já havia sido lançada em 1999, dois anos antes do álbum), que grita samba e em Çà et là, com Bertrand Burgalat. A última música do ábum (que fecha quase uma hora exata) é uma versão de Aiueo, da banda (também genial, também japonesa) Happy End, e é a música que mais conversa com o trabalho anterior deles.

É um álbum muito bom, embora não seja o melhor para quem quer ter uma idéia da produção do Pizzicato Five.  Embora, para uma banda tão cheia de diferentes influências como P5, nenhum álbum sozinho faria isso.

Recomendo (o álbum, a banda).

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