Jornalismo / Viés

Cada vez mais, jornalista é tratado como celebridade

Um dos preceitos básicos do jornalismo é o distanciamento que o profissional tem de manter da história a ser contada e das fontes consultadas. O impressionante é como isso está sendo deixado de lado em muitas redações, principalmente quando se fala em TV.

Repórteres e apresentadores vêm se tornando celebridades. Talvez porque os grupos de comunicação atentaram para o fato de que o entretenimento é o que realmente “vende”. A busca pela audiência nos programas jornalísticos, então, dá-se da mesma forma que nas telenovelas e nos humorísticos, com espetáculo. Acontece que jornalista não pode ser celebridade. Por várias razões. A mais básica delas, acredito, é que jornalista não tem o direito de ser mais importante que a notícia, a reportagem, a entrevista. Repórter-celebridade compromete sua matéria quando se destaca mais do que ela, quando deixa de ser o mediador entre a informação e o espectador.

Reprodução/Band

Datena é estrela no "Brasil Urgente"

Se sairmos à rua perguntando quem conhece o Brasil Urgente e quem conhece o programa do Datena, haverá uma grande diferença no número de “sim” que vamos ouvir. Datena é muito maior que o programa que ele apresenta. Ele não agrada a todos, mas agrada a muitos, que gostam do estilo explosivo, dos xingamentos ao poder público e à própria equipe quando ocorre algum erro no programa. Os comentários indignados com as políticas de segurança pública – ou com a falta delas – arrancam elogios entre os que sintonizam a Band.

Reprodução/Claudia

Fátima Bernardes estampa capa

Se de um lado temos o Datena, maior que o programa, de outro, temos Fátima Bernardes, com certeza não tão grande quanto o Jornal Nacional. Também pudera: jamais um apresentador, a meu ver, conseguirá estar acima do maior telejornal do país. No entanto, pelo público do Jornal Nacional (ou não), a jornalista é tratada como uma Christiane Torloni das 20h30min. Quem nunca viu uma capa de revista feminina com a figura de Fátima estampada? Quem nunca ouviu alguém dizer que ela é mais que a mulher que dá ao público o boa noite após o noticiário? No fim das contas, ela é a mulher do William, a mãe da Laura, da Beatriz e do Vinícius. Marcia Benetti e Sean Hagen analisam a questão em um artigo.

O quadro Medida Certa, do Fantástico, em minha opinião, é excelente quanto à pertinência do tema e ao formato. Dinâmico, acompanha semanalmente a rotina de duas pessoas que querem emagrecer; os exercícios físicos, as refeições e as idas à nutricionista. Mas erra, e feio, quando escolhe o apresentador Zeca Camargo e a repórter Renata Ceribelli para serem as “cobaias”. Podiam ser meros desconhecidos ou podiam ser celebridades. Mas não podiam ser jornalistas. Principalmente Zeca e Renata, que têm a imagem associada ao Fantástico. Um erro.

Reprodução/globo.com

Zeca Camargo e Renata Ceribelli no "Medida Certa"

A prática de fazer dos jornalistas estrelas é perigosa. Além de comprometer a informação, que deve ser tratada com isenção, deixa as portas abertas para quem não é do meio se infiltrar nele. Afinal, se jornalista pode ser estrela, por que estrela não pode ser jornalista? É bom lembrar que, para ser repórter ou apresentador de programas jornalísticos na TV, não basta ter rosto bonito e voz adequada. Precisa – com raras exceções – ter passado pelos bancos das universidades, pois é nela que se pensa o jornalismo

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