Cinema / Viés

As comédias morreram?

Eu estava pensando em filmes de comédia e como decaíram com o passar do tempo. Isso significando como é raro, pelo menos nos últimos quinze, vinte anos, acharmos filmes bons de comédia. E eu não tenho altas expectativas para um filme de comédia, não precisa ser um filmes de altas pretensões. Quero apenas um que me divirta. Ainda assim, sempre me decepciono.
Digo isso por vários motivos. O principal: comprei o box com todos os filmes da Pantera Cor de Rosa, os antigos, de Blake Edwards, com Peter Sellers como o inspetor Clouseau. Revendo os filmes, que tinha visto quando era criança, fiquei maravilhado com o humor retratado de todas as maneiras possíveis. No diálogo, na atuação, na direção, na música. E eu, que tinha gostado dos filmes com Steve Martin de Clouseau, mudei minha opinião. Não que tenha passado a odiá-los, mas certamente não chegam aos pés do original.
São filmes de comédia que é puramente comédia. Ao contrário de outros filmes de Peter Sellers, como Muito Além do Jardim, que é engraçado mas tem uma mensagem, ou filmes como os do grupo inglês Monty Python, que usava as piadas para falar algo, os filmes da Pantera Cor de Rosa são sem propósito que não a comédia. E é isso que faz com que sejam tão geniais, não ter pretensões que não divertir e conseguir fazê-lo com tamanha perfeição. Comparando com as comédias que são feitas de uns anos pra cá, quase me convenço a não mais assistir nada de comédias.

Com Ferris, facilmente me identifico.

 

Começando com American Pie. Um filme que tem, teoricamente, tudo para dar certo, e não passa de lixo. Achei isso da primeira vez que assisti, e mais tarde acabei me surpreendendo, pois as continuações são ainda piores. E são muitas. E têm público. Todas. Acho irritante. Até porque sei (e é isso que quero dizer quanto as pretensões de um filme de comédia não precisarem ser altas) que filmes com histórias adolescentes podem ser muito engraçados. Cresci vendo filmes de John Hughes entre outras comédias do tipo dos anos oitenta na sessão da tarde. A franquia de American Pie são filmes que não falam nem nunca falaram comigo enquanto adolescente, nunca houve nenhum tipo de identificação. Enquanto, nos primeiros minutos de Picardias Estudantis, Curtindo a vida adoidado (odeio essas traduções) ou Clube dos Cinco já me sentia preso àquela história e àqueles personagens. Nunca sequer cogitei fazer sexo com uma torta, mas sempre, todo dia, quis matar aulas e incomodar professores. A série de American Pie, junto com outros filmes do gênero da época, mataram a comédia adolescente. 

Com isso, nunca.

 

Assim como Adam Sandler matou a comédia romântica. Embora nunca tivesse sido um gênero essencialmente de comédia, eram filmes divertidos, entretinham. Meg Ryan, Julia Roberts, Hugh Grant. Com Adam Sandler, nasceu uma série de abominações no gênero, filmes ridículos, doloridos, até. Sem graça, incapazes de despertar sequer um interesse mínimo, com diálogos mal-feitos e a atuação sempre igual e pobre de Adam Sandler (sem contar o fato de que ele simplesmente não tem graça). E, com público, esses filmes acabaram mudando a maneira com que comédias românticas eram feitas, migrando toda a idiotice sem razão de Sandler para filmes que, em outras épocas, poderiam ter sido bons. Ben Stiller consegue escapar disso, embora também nem sempre. Escapa quando tenta fugir um pouco da comédia romântica, tirando o foco do filme do romance em si (caso de Entrando numa fria).
Há alguns anos, os produtores estadunidenses aparentemente descobriram a paródia. Mais especificamente a paródia de gênero, produzindo diversos filmes parodiando sucessos de bilheteria da forma mais babaca possível. É o caso de todos os Todo mundo em pânico (também são muitos), Uma comédia nada romântica, Deu a louca em Hollywood, entre vários outros. São filmes em que o roteiro nada mais é que uma desculpa para que a história transite da paródia de um filme para outra. Às vezes, parodiando filmes com cenários completamente diferentes em sequência, sem nenhuma noção de continuidade, como que fazendo disso uma característica de estilo, embora na verdade seja preguiça. A caracterização dos personagens beira o ridículo, cópia barata e forçosamente mal-feita da indumentária dos originais parodiados. Assim como o são os cenários, os diálogos e todos o resto. As piadas, então (e parece ofensa a todas as outras piadas chamá-las assim), são sempre fora de contexto e sem conteúdo nenhum. O que leva o enorme público que essas produções tem para as salas de cinema é a fama dos filmes parodiados, de modo que os produtores, roteiristas, atores e diretores nem tentam se esforçar para fazer um filme melhor.

Sim, é idiota.

 

Não gosto de ser pessimista. Encontro, não vou mentir, muitos filmes recentes de comédia que de fato sejam engraçados. Pouquíssimos estadunidenses (deixando de fora filmes infantis como os da Pixar, que conseguem ser muito, muito engraçados, mas não é o tipo de comédia de que falo), quase todos independentes. E mesmo os independentes, com o sucesso, são incorporados e estragados pelos grandes estúdios. Entre os de outros países, são diversos os exemplos. Vou citar um, que não gosto de fazer textos muito pessimistas. Warai no daigaku, um filme japonês de 2004, baseado em uma peça de 1997.

O cenário do filme A Escola do Riso

 

Dirigido por Mamoru Hoshii (um nome por si só engraçadíssimo pra quem entende japonês), é um filme simples, acontece todo basicamente em uma sala, com basicamente dois atores, o censor e o escritor. Este tentando fazer sua peça de comédia ser aprovada (Warai no Daigaku, a Escola do Riso, é a companhia de teatro dele), aquele querendo retirar todas as piadas do texto. É um filme que, além de engraçado, tem algo para dizer. Embora não precise.

  

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