Variedades / Viés

Construções do “eu” nas redes sociais

 

Um dia desses um amigo me perguntou: “Eu me pareço com meu Instagram?”

A pergunta pode parecer estranha, mas os sentidos que ela traz a tona, nem tanto.

Já faz mais de uma década que nos foi possível usufruir de uma rede social como as conhecemos hoje, principalmente no nosso caso tupiniquim que povoou o Orkut, migrou tardiamente pro Facebook e está atualmente alimentando inúmeras contas em aplicativos como Instagram, Twitter, Snapchat , entre outros. Somos bem treinados no que essas ferramentas podem oferecer, e já nos acostumamos a conviver com uma existência paralela de nós mesmos de acesso constante e sem territórios. Nenhuma criança dos anos 90 precisa novamente de um Tamagotchi para cuidar, afinal nossos perfis em redes sociais funcionam como os bichinhos digitais: precisam ser alimentados, geram uma demanda e estão fadados a morte – nesse caso o esquecimento, a morte digital do usuário – se não nos ocuparmos deles.

A verdade é que o que muitos de nós esquecemos mesmo, é que estamos nos enganando pela nossa própria representação. Pode parecer uma afirmação generalizante, globalizante, mas a premissa é a mesma: uma vez inserido numa rede social, nenhum sujeito está livre do modelo construtivo que isso gera em torno de si mesmo. Consciente ou Inconscientemente, construímos um modelo de nós mesmos, o mais desejável possível – e mesmo aqueles que tentam subverter isso, expressam desejo de qualquer forma.

Jen Lewis / BuzzFeed / Disney

Não precisamos falar de uma foto esteticamente perfeita construída em software para construirmos nosso arquétipo, a simples seleção do conteúdo já é uma edição da realidade mais violenta que qualquer outra. São representações “nutridas a toddy”: fotos selecionadas a dedo, expressões carimbadas, hábitos e costumes escancarados e definidores de status, discursos ideológicos e políticos bem articulados, necessidade de diferenciação pelos gostos, e no fundo um desejo incessante de aceitação e reconhecimento. Há uma simulação de gestos e costumes já bem institucionalizados para atrair esse reconhecimento.

E nós somos mais esquecidinhos ainda: ignoramos que os outros usuários usufruam das mesmas táticas. É aí que o bicho pega, as comparações começam, os julgamentos de valor com o próximo se viram para o tabuleiro virtual onde juízes e réus se encontram no mesmo paradigma e interpretam o mesmo papel simultaneamente. Ouvimos todos dias “olha que absurdo o que fulaninho postou”, e ao mesmo tempo estamos nos esgotando por dentro pela aceitação dos nossos reflexos. Reflexos, obviamente, não mais que isso. Foi isso que meu amigo inconscientemente não sabia mais definir: não sabia mais desassociar a imagem que construiu dele mesmo; aquela compilação em quadrinhos era o seu sujeito como um todo naquele momento. E se ele inventasse de se comparar com outro perfil então? Aí ferrou. Ninguém precisa mais de modelos de revista para se comparar e chorar as pitangas: seus amigos do facebook – teoricamente mortais como você – estão ali como modelos perfeitos de si mesmos e como modelos desejáveis, usando os mesmos truques de construção que usamos, mas não percebemos.

Jen Lewis / BuzzFeed / Disney

Já cheguei a me sentir mal por não expressar ideologias e argumentos políticos textuais como tantos outros, mas me dei conta que não me expressar dessa forma pública não significa silêncio, significa escolha. Eu não sou um perfil, aquilo é somente uma redução de mim mesmo, um pedaço desejável daquilo que queremos ser. E a prerrogativa vale pro próximo também: saibamos ser críticos, não deixar uma comparação mal feita e no momento errado nos subjulgar, mas também não julgar simploriamente a representação do outro. Nunca se está por inteiro ali. O rapazinho que não sabe fotografar bem e posta umas cafonagens pode ser incrivelmente real, assim como a menininha saída direta das campanhas Benetton dos anos 90 pode ser uma perereca do brejo, realmente reduzida somente àquilo.

Minha resposta ao meu amigo naquele dia foi: “Tu é mais que teu Instagram”. Sejamos mais.

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