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Dançando um tango em Tango

Umas das perguntas que me deixa, frequentemente, sem resposta é aquela clássica: que tipo de filme você gosta? Eu nunca sei responder. Começo a citar gêneros, mas aí percebo que certo filme está fora do gênero que eu gosto, entretanto, assisti e o achei muito bom. Então paro e respondo: depende sobre o que ele se trata. Semana passada, durante uma aula de espanhol, tive a oportunidade de assistir um filme narrado de forma diferente daquela que costumo ver. Geralmente, quando pego filmes em que a edição e montagem não se assemelham com o meu hábito de visão, rotulo-o como “chato”, “sem graça”, “monótono”, “repetitivo” – adjetivações nesse sentido. Sabe aqueles filmes que não mudam o cenário e os personagens ficam na mesmice? Isto mesmo, considero terrível!

Para mim Tango ia ser mais um desses musicais pouco atraentes. Um filme argentino dirigido pelo espanhol Carlos Saura. Mais um drama de 117min sobre as danças de tango. Tudo isso em harmonia com uma trilha sonora do renomado Lalo Schinfrin. Pelo aparente script, seria um perfeito espetáculo dançante.

UM ENREDO PROVOCANTE

Cartaz do Filme Tango de 1998 (Imagem: Divulgação)

O ator Miguel Ángel Sola interpreta o diretor teatral Mario Suez, recentemente abandonado pela esposa. Sua carreira estava por baixo até conhecer Angelo Larroca (Juan Luis Galiardo). Larroca quer investir em um filme para promover a sua protegida Mía Maestro (Elena Flores). Então Suez começa as gravações de um filme sobre tango que, ao mesmo tempo, envolverá as temáticas do amor não correspondido versus o amor correspondido e da onda de imigrantes europeus que chegaram ao país no século XIX.

O que, contudo, nos prende ao filme é a desenvoltura com que os passos e o ritmo do tango se entrelaçam à narrativa. A forma como os personagens expressam seus sentimentos por meio da dança. Em Tango, o tango se mostrou capaz de contar uma história que alimenta paixão e ódio, suspense, traição, vingança. É o compasso do sapateado dos homens e das mulheres, os olhos fixos de um dançarino em direção ao outro e o enrolar das pernas da dupla que transmitem ao espectador uma carga de dramaticidade. Ficamos antenados, angustiados, na expectativa para saber se a cena é real, se faz parte do show ou se é pura imaginação do diretor que ensaia o filme.

Mais por uma questão de estilo cinematográfico do século XXI, do que por uma questão de preconceito contra filmes antigos, confesso que Tango me surpreendeu.  Achei o máximo à sensação proporcionada.  E, diferentemente do que a nossa colega do Viés – Renata – ressaltou em seu post, que o som encontrou no cinema as bases da sua utilização para formar ambientes (como elemento climático), vejo em Tango que o som é a própria história cinematográfica. Ou seja, as danças de tango contando a história do país do tango, incluindo todos os jogos de força/poder e as relações sentimentais que transparecem pela silhueta dos corpos em movimento.

O tango é mais do que uma simples dança cultural, ele é uma trilha sonora com a capacidade de contar uma trama (ou drama) amorosa (o).

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2 comentários

  1. U R A Pirate says:

    Ao assistir o vídeo, não pude deixar de lembrar a cena do Filme “Perfume de Mulher” onde Al Pacino dança “Por una Cabeza”, de Carlos Gardel. Não sou assim, um grande crítico, mas pra mim, o Al Pacino conseguiu demonstrar uma maior expressão que essa dança chamada tango pode passar de maneira bem implícita.

    Linka para a cena do filme “Perfume de Mulher”:

    http://mais.uol.com.br/view/fl5f1xo1art6/cenas-do-filme-perfume-de-mulher–al-pacino-danca-tango-040266C4C10307?types=A

  2. Patricia Valente says:

    Pois é, esse filme eu nunca assisti, mas vejo por esse link que existe certo tipo de expressão também nos movimentos deles, principalmente dele, que deixa transparecer alguns sentimentos. Entretanto, como o ator é cego ali não percebi tanto aquela efervescência nos olhos e nas expressões do rosto, de um mirando o outro como se estivessem querendo dizer algo, como percebi em Tango!

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