Cinema / Política / Viés

David e Golias

Artista: Orville H. Mills (1968). Óleo sobre tela. Fonte: http://www.flickr.com

A temática do filme Frost/Nixon (2008), de Ron Howard, baseado em peça teatral de Peter Morgan (2006), é uma série de entrevistas talk-show que Nixon concedeu a David Frost em 1977, três anos depois de renunciar. A finalidade de Nixon neste confronto com as questões de seu mandato e com o escândalo de Watergate era uma tentativa de limpar frente ao mundo seu nome, eximir-se de certas culpas através de bom desempenho na entrevista televisionada e quem sabe poder tornar à presidência. Na verdade, Nixon esperava retratar-se escrevendo livro autobiográfico, mas é apresentado, segundo o filme, por Irving Lazar, seu “agente literário de Holywood”, à proposta de Frost: doze programas de noventa minutos iniciados em março. O snapshot, o “momento” da televisão convence-o.

Os bastidores da preparação para a entrevista revelam o porquê da escolha dos assessores do presidente cair sobre a pessoa de David Frost (Michael Sheen), entrevistador e animador de variedades populares. Frost, fraco e fútil, do ramo do entretenimento, britânico e não americano, não estaria preparado. Apenas ter conseguido a entrevista, a princípio, lhe parece ser a realização. Essa ingenuidade mais ou menos se dissolve em face do grupo de auxiliares do entrevistador. Jim (Sam Rockwell) é escritor, casado e com filho (entes referidos, mas quase invisíveis na imagem, a costurarem parte da personalidade muito americana de Jim) e está atrás de condenação para o ex-presidente Nixon. Bob (Oliver Platt) já estivera do outro lado, fizera ensaios de entrevistas para Nixon, nos quais procurava antecipar respostas a perguntas. John (Mattheu Macfadyen) é o amigo de David. Não basta: Nixon (Frank Langella) domina Frost nas primeiras noites de entrevista. O que assistimos ao longo do filme é uma espécie de duelo entre um Golias (Nixon), preeminente, e um David (Frost), humilhado. Na última noite de entrevista, porém, Frost é que acua a Nixon e parece extrair dele frases que não havia planejado proferir, como esta: “decepcionei o povo americano”. O golpe de misericórdia é dado por Frost, em visita de despedida, ao oferecer a Nixon um par de sapatos italianos debochado pelo ex-presidente como efeminado poucos segundos antes da gravação do segundo dia.

O filme de Howard tem um material semidocumental (os atores secundários ressurgem diante da câmera numa imagem atual de sua personagem falando no mais das vezes das atitudes de David Frost vistas durante o filme), mas carece de profundidade em sua visão das coisas, por sinal muito mal explicadas ao longo da história. É como se uma frase de Nixon, em meio a uma resposta da entrevista, dirigida a Frost e ao telespectador na verdade buscasse no assistente de Frost/Nixon seu auditor: “Are you getting a picture?” (Você consegue visualizar o quadro geral?).  Duas cenas, estranhas e sutis, revelam as tentativas de mesclar o cinemascope com o material documental fabricado. A câmera desce com vagar e obliquamente desde Nixon em sua cadeira, passando pela sua imagem na câmera das filmagens, até Frost, que escuta, também sentado, a Nixon. A outra extravagância dá-se quando Nixon lembra a Frost que, por contrato, passará um lenço na boca para apagar os vestígios de sua sudorese após cada pergunta. Na edição isso não apareceria. É como se a edição já ocorresse para o próprio filme e o gesto é mostrado apenas uma vez, apenas para registro. Diante de certas inconsistências formais e da muleta de certos diálogos pouco esclarecedores, o elenco não deixa de ter boa interpretação. Mas a realização acaba sem grandes evidências e sem lembrar mais que o embate entre Golias e David ou a frase de padre Antônio Vieira: “é artifício nosso afear a dificuldade para fazer mais formosa a solução”. Frost é o herói positivo, no entanto sofrivelmente empático, e o enredo lhe dá solução para os eventuais conflitos ao final, sem contar a muito linda Rebecca Hall, formando o par romântico sempre indispensável ao cinema.

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