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Duas novas séries, mas com gostinho de déjà vu

Eu admito, sou viciado. Há muito tempo larguei a televisão (aberta e paga) por um simples motivo: não tem nada de interessante passando. Novelas, reality shows, filmes de dois anos atrás, não consigo mais ver. A TV paga até oferece uma grande variedade de séries e filmes, mas estão com um péssimo habito de dublar tudo que vai ser transmitido para o público brasileiro. Portanto, comecei a procurar as séries que eu gosto, e vê-las no computador, quando eu quiser. Esse é o meu vício. Eu já perdi a conta de quantas séries eu já assisti e está difícil acompanhar os novos episódios que saem toda a semana, das séries que eu acompanho.

Daí surge outro problema: a cada 6 meses, novos dramas e sitcoms são lançados e um punhado de episódios-piloto aparecem, dos quais, muitos deles eu vejo, mas apenas os melhores vão entrar para a minha lista semanal de downloads. Duas delas, eu vou falar aqui: The Event e No Ordinary Family. Essas foram duas estréias que, para mim, se destacaram no Fall Season americano e ganharam a atenção e a audiência deste que vos escreve. Vou começar com a segunda, mas antes, um aviso:

Este artigo fala de duas séries recém lançadas, mas ainda assim, pode conter spoilers dos dois ou três primeiros episódios de cada uma. Aprecie com moderação.

No Ordinary Family:

Família sentada na sala, conversando

A família (imagem: Divulgação/ABC)

Os Powells são a típica família americana. Problemática, com filhos adolescentes (e seus típicos problemas juvenis), a mãe (interpretada pela excelente Julie Benz, de “Dexter”) é uma cientista com uma carreira de sucesso e workaholic, o que faz com que não tenha muito tempo para a sua família. O pai (Michael Chiklis, conhecido pelo papel de “O Coisa” em “O Quarteto Fantástico”) é um fisionomista policial, frustrado por não ir a campo e prender os bandidos. Um belo dia, eles resolvem fazer um programa familiar e vão para Belém (sim, no Pará) para conhecer a floresta tropical. Eles estão num avião, em meio a uma tempestade, o avião cai num rio, eles sobrevivem, o piloto não. Quando voltam para casa, percebem algo de estranho. Todos eles estão com algum tipo de superpoder: a mãe pode correr uma milha em seis segundos, o pai tem uma força anormal, pode segurar balas e pular muito alto, a filha é telepata e o filho ganha inteligência superior. Assim começa a série.

Eu sempre gostei muito de séries (e filmes também) que se preocupam com o desenvolvimento do personagem, e foi isso que prendeu a minha atenção em No Ordinary Family. Eles não são superheróis, nem mesmo gostam de quadrinhos e histórias desse tipo, e agora precisam saber lidar com essa situação, além dos seus problemas no trabalho/escola e suas inseguranças. Claro, só isso não seria combustível suficiente para uma temporada inteira, soma-se a isso tudo, alguns vilões, que também possuem poderes como teletransporte, um empresário poderoso que está do lado dos caras maus, mas é chefe da sra. Powell, e o constante complexo de Homem-Aranha do sr. Powell, que pensa que deve usar seus poderes para combater o mal.

Hummm, deixe-me ver. Onde é que eu já vi uma familia de superheróis, que confrontam os seus poderes com a vida familiar e que, apesar das dificuldades, acaba se tornando mais unida justamente por causa das suas vidas fantásticas superpoderosas?

Família de superheróis

(imagem: Divulgação/Disney)

Não que o filme da Disney tenha sido ruim (admito, eu gostei), mas eu acredito que o formato de série, semanal com uma hora de duração e com um desenvolvimento mais devagar, vai proporcionar um aprofundamento maior em cada um dos personagens, imperfeitos como todo ser humano, e o ambiente familiar pode ser um diferencial mais interessante numa história de pessoas com poderes, diferenciado-a de Heroes, séries essa que eu não aguentei terminar nem a primeira temporada.

Vejam o promo de No Ordinary Family, vale a pena, a série promete.

The Event

Pra falar dessa série, eu vou fazer diferente, eu vou começar com o promo:

OK, até aqui, vimos uma tentativa de assassinato ao presidente americano, um misterioso grupo de prisioneiros altamente perigosos para a sociedade, um jovem rapaz, prestes a ficar noivo, vítima de uma conspiração, a sua noiva desaparecida, um sequestro de um avião e um título instigante. Além, é claro, de um monte de perguntas!

Afinal, qual é O Evento? A série é guiada por vários mistérios, e a medida que alguns são respondidos, outros vão surgindo e a trama começa a engrossar. O avião sequestrado está sendo pilotado pelo pai (chantageado) da jovem desaparecida, enquanto que o seu (quase) noivo está tentando impedi-lo de direcionar o avião à casa de praia do presidente americano, que dará um discurso bombástico ao lado de uma prisioneira de uma instalação secreta da CIA numa montanha em algum lugar remoto do planeta. Instalação essa que está mantendo sob custódia, seres muito parecidos com humanos, mas com algumas diferenças genéticas que os tornam muito… peculiares. Quando o avião está prestes a acabar com todos no discurso presidencial, uma explosão eletromagnética faz o avião simplesmente desaparecer.

Ainda por cima, a série adotou uma narrativa fragmentada, assim, meio Amnésia, do tipo “2 horas atrás” e “13 meses antes” e volta para “2 horas depois”. Sim, bem confuso.

Agora, recapitulando: eletromagnetismo, conspirações, um grupo de pessoas mantidas em reclusão, um acidente de avião, narrativa fragmentada, pessoas “especiais” e muitos mistérios… onde foi que eu já vi isso?

Cast de Lost

Copyright: ABC/Touchstone TV

Sinceramente, eu não vi tanta semelhança assim quando vi o primeiro episódio, mas depois de assistir, fui ver o que as pessoas estavam falando sobre a série, que mesmo antes de estreiar, já estava rendendo muita discussão. Os fóruns de discussão sobre seriados me mostraram essas particularidades. De fato, se pegarmos essas características, podemos ver PELO MENOS uma certa inspiração em Lost. O problema é que Lost foi pioneiro no formato, na narrativa, e The Event não é a primeira série a tentar aproveitar o embalo para fazer sucesso. Outras, como FlashForward, também tentaram e muitas não passaram da primeira temporada. Mas o que muitos reclamaram de Lost, que foi a lenta resolução dos mistérios, The Event parece ir no caminho contrário, explicando coisas mais rapidamente, mas trazendo coisas novas, como alguém que tenta resolver um problema e se afunda cada vez mais nele.

Enfim, essa série passou no meu teste de 3 episódios (se depois de 3 episódios eu não gostar, eu paro de ver). Os atores, familiares no mundo da TV e não tanto do cinema, desempenham bem os seus papéis. Blair Underwood, de Law & Order, é o presidente americano, Laura Innes, de E.R., é a líder dos prisioneiros geneticamente avantajados, enquanto Jason Ritter, de Joan of Arcadia, é o herói de ação tentando salvar a mocinha. Nenhum dos atores se destacou, com atuações dignas de um Emmy, mas nenhum foi medíocre a ponto de estragar a série. Enfim, vou ver, pois acho que a série tem muito o que crescer, tem muito o que contar, vai depender da competência dos roteiristas e diretores saber contar a história direito.

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