Cultura / Viés

“Foreshadowing”: a bola de cristal da ficção

Árvores projetando longas sombras em um campo

Como longas mãos, as sombras do desenlace espalham rastros no passado... Foto: Sean Hurley (http://www.flickr.com/photos/viennacafe/5865026611/).

Quando se assiste a filmes ao longo do tempo, é inevitável o reconhecimento de certos padrões narrativos ou estéticos. Não se trata apenas de cenas familiares, diálogo lugar-comum ou personagens arquetípicos – se expandirmos o conceito, poderíamos chamar a estrutura de três atos, o desenlace ou até mesmo a presença de um protagonista único de “clichês”. (Por esse motivo, prefiro usar a palavra “tropo”, já que não vejo a ideia como inatamente negativa). Subversão das expectativas pode ser algo iconoclástico, até revolucionário (e, para ser sincero, muito mais satisfatório do que o jeito “fácil” de concluir a trama)…ou pode ser um desastre. O fato de elementos como conflito, intriga, ironia ou humor haverem sido utilizados em um bom número de tramas não significa que a ausência de todos os quatro premie uma obra com mérito artístico – e vice-versa. Elementos narrativos estão presentes em grandes obras do cânone artístico; de fato, muitos deles originaram os agora chamados “clichês”.

Dedico este artigo, então, a um dos elementos narrativos que mais admiro quando utilizado com maestria, mas cuja sedução não sou capaz de explicar com precisão: o fascínio que ele exerce sobre mim não é de todo racional. Refiro-me a aquilo chamado, em inglês (já que nosso vocabulário é um tanto parco quando se trata de tropos de ficção), de foreshadowing.

Alguns autores de livros e roteiristas e diretores de cinema têm uma mania quase compulsiva de dar pistas a respeito do que acontecerá ou será revelado mais tarde em suas obras. Sejam elas um produto deliberado das ações das personagens (por exemplo, uma frase dita pelo antagonista que ganha um novo sentido ao conhecer o final) ou apenas uma piscadela na forma de uma simples coincidência (por exemplo, a menção de um fato aparentemente inócuo que ganha maior significância mais tarde), muitos artistas adoram salpicar suas obras com essas dicas semi-invisíveis. É quase uma versão artística do Charada, inimigo de Batman, conhecido por seus enigmas mirabolantes. Alguns, sabendo que o público já espera “sacadas” como essa e fica de olho em tudo o que não parece essencial, criam até “pistas” falsas ou induzem o leitor/espectador a raciocinar de modo errôneo, truque conhecido como um red herring (“arenque vermelho”).

Alega-se que Anton Tchekhov, célebre contista russo, formulara uma lei: “Se, no primeiro ato, tiver pendurado uma pistola na parede, ela deve ser disparada no próximo ato. Caso contrário, não a ponha ali”. Essa citação não apenas prega a remoção de elementos desnecessários em uma história, mas também exemplifica muito bem o conceito de foreshadowing, o que levou à criação do termo “pistola de Chekhov” (Chekhov’s gun) para descrever elementos que só se tornam importantes mais tarde durante a história. Isso apenas reforça o fato de que a separação entre “truques” narrativos e erudição artística é bastante artificial.

Por que projetar sombras?

Sob um ponto de vista lógico, porém, não há nenhuma raison d’être para esse tropo: se a surpresa é tão importante, por que não pular o confete e manter sigilo até o desenlace?

Consigo pensar em algumas razões: ele mostra que as revelações têm precedentes e não foram inventadas sem conexão com o resto da trama; ele torna a segunda vez que se lê um livro ou vê um filme uma experiência ainda mais singular, como um bônus; ele pode amplificar o suspense ao introduzir uma pista ambígua. No entanto, reconheço que, ao menos para mim, há um elemento estético e até desafiador – diria até sedutor – que não se conforma facilmente a uma pura linearidade narrativa.

O foreshadowing é, por fim, um de vários elementos que trazem sabor ao que poderia ser uma história dividida categoricamente em blocos quase isolados; é o tropo e o anti-tropo em um só conceito. Se adora-lo é artisticamente bucólico, digo: ao menos moro onde a grama cresce, sem hermetismos artificiais que vetam a possibilidade de um auteur “dar uma coxinha” para um público inteligente.

(Crédito da foto: Sean Hurley, http://www.flickr.com/photos/viennacafe/5865026611/.)

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1 comentário

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