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Fotografia de filme: a antiga novidade


Foto com a vinheta (cantos escurecidos) tradicional das Lomo

Faz um tempo já, mas lembro bem quando segurei a primeira câmera digital da minha vida. Uma Mavica da Sony, em 2002. Era com disquete ainda e, caramba, pesada muito e era absurdamente lenta e ruim. Em 2002, achava muito jóia jóia.

Daí foi passando o tempo e o troço só aumentando de proporção. O digital acabou com o passou do filme em muito pouco tempo. Na verdade, a primeira câmera digital comercializada é de 1981. Mas vamos contar que, de 2002, quando a Mavica começou a ficar popular, até 2005, quase todo mundo já se aventurava bonito pelos pixels. Com toda razão. Quem iria querer pagar por filme, revelação e o escambau se dava pra fazer tudo (quase) de graça e ainda ver na hora?

O mercado, que não é bobo e se ajeita conforme a resposta do consumidor às sugestões do próprio mercado, respondeu: digitais lá em cima, analógicas lá embaixo. Os rolinhos começaram a sobrar nas prateleiras, as fábricas já descontinuavam alguns modelos, os laboratórios já tinham que renovar seus serviços, as câmeras de filme sendo vendidas a preço de banana, novos modelos digitais chegando à granel nas vitrines.

Vale dizer que até 2008, mais ou menos, ainda tinha um certo número de fotógrafos mais “tradicionais”  fazendo trabalho com analógica, por questões técnicas e estéticas. Bom, daí no boom da foto digital, com

eçaram a questionar qual era melhor, qual era a verdadeira. Se a digital iria acabar com tudo quanto era forma de fazer foto analógica. E blá blá… Todo mundo tomava um partido. Os entusiastas diziam que era o futuro – o que eu acho que é, também – os puristas diziam que foto, pra ser bonita e de boa qualidade, tinha que ser analógicas. E nisso, a crise no analógico pegando cada vez mais.

Comprei minha primeira digital em 2006. Uma DSLR. Pegava ela cheio de dedos para cuidar ao máximo. Hoje, por ter comprado outras câmeras, ela pega poeira na prateleira. Fato é que minha primeira digital foi também minha primeira câmera-de-foto-de-todos-os-tempos-ever. Ou seja, me dizia fotógrafo – porque, na época, já comecei a tirar uns trocos aqui e ali com ela – , mas sequer sabia colocar filme numa câmera (!).


Polaroid: vazadas de luz são charme (Imagem: Neil Krug)

Como nada acaba, tudo passa por épocas, a foto também passou e está passando por um ciclo. Esse papo é velho: rádio/TV, cinema/TV, vinil/cassete/CD, publicação impressa/publicação online. Nada aniquilou nada ainda. As coisas naturalmente mudam, vão e voltam, mesmo que adaptadas. Isso é porque, cada um desses meios tem suas tecnologias próprias; com isso, suas estéticas próprias. E estéticas existem aos montes, mas não existe uma só que sirva pra tudo. Por isso, as diferentes tecnologias, de ontem e de hoje permanecem aí, umas capengas, outras maiores e mais estabelecidas, mas tem pra todos os gostos.

A prova disso? Eu mesmo. Acho que faz pouco mais de um ano, me dei por conta do que falei acima, que me dizia fotógrafo e nem sabia abrir uma câmera de filme (não quero dizer que, por exemplo, só porque o produtor de música nunca gravou uma música na fita magnética, não possa ser chamado do que é. Mas, no mínimo, deve conhecer como funciona. Eu nem isso conhecia.). Decidi que era hora. Primeiro, peguei emprestado de um amigo uma Pentax K 1000. Fiz 3 filmes e peguei amor. Depois, surgiu a chance de comprar a primeira câmera de filme. Depois de 3 anos fotografando, parecia que tinha começado a fotografar de novo!

Assim como eu, existem vários entusiastas de filme. Nada comparado ao que era antes da digital, mas muito mais do que há oito, cinco anos. O mercado demandou a volta da tecnologia, de forma diferente, re-organizada e menor, mas que estivesse ali, disponível.

Essa fase da história da fotografia se confunde com a própria história da maior fabricante de câmeras instantâneas: a Polaroid. Em 2008, eles decidiram encerrar suas atividades, que já vinham meio mal há alguns anos. Porém, alguns funcionários da fábrica não quiseram aceitar a nova situação e decidiram criar um projeto que pudesse começar tudo de novo, e mantivesse funcionando a única fábrica da empresa, na Holanda, ainda capaz de produzir os filmes instantâneos. Daí nasceu o Impossible Project, que vem, do zero, com muito esforço, conseguindo o que se propôs a fazer.

Polaroid com dupla exposição e efeitos químicos (Imagem: Neil Krug)

Outra empresa que contribuiu muito para o estabelecimento de mercado para fotografia analógica é a Lomo e seus muitos fãs ao redor do mundo organizados na Sociedade Lomográfica Internacional. A Lomo, originariamente uma fábrica Soviética de armamento bélico e equipamentos óticos para guerra, começou a fabricar uma câmera simples, pequena, fácil e de incrível qualidade para as populações de países comunistas poderem usar. Com o final da Guerra Fria e da União Soviética, a câmera caiu no ostracismo mercadológico. Até que, em 1991, dois estudantes de artes de Viena descobriram as potencialidades dela e começaram uma febre que alavancou a produção das Lomo de maneira espantosa. Hoje, a marca conta com bem mais de 20 modelos de câmeras diferentes vendidas por internet, em lojas de câmera e nas lojas próprias da marca, além de acessórios, filmes, livros e materiais de divulgação como bolsas e camisetas.

Iniciativas como essas duas vêm contribuindo para que essa maneira de fotografar não morra. Se ela é melhor, pior, mais bonita ou mais perfeita que a fotografia digital, eu já parei de discutir faz tempo. Elas são diferentes. Completamente! As duas têm suas vantagens e suas limitações. Existem motivações diferentes e momentos diferentes para se usar uma em vez da outra, que envolvem prazos, orçamentos, conveniência, opção estética, níveis de exigência. Fato é que ela ainda existe. E cresce cada vez mais.


Cores fortes e contrastadas: outr característica das Lomo (Imagem: Izarbeltza)

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