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Frida Kahlo: “Pinto a minha realidade”

Frida Kahlo: “Pinto a minha realidade”. Foto: Divulgação

Quando se pensa na personalidade e na obra de Frida Kahlo, não se pode deixar de considerar uma série de acontecimentos que marcaram a sua existência e fizeram dela uma das maiores pintoras cujo trabalho o mundo já viu. São justamente esses acontecimentos que a historiadora alemã da arte Christina Burrus resgata na biografia Frida Kahlo: “Pinto a minha realidade” – lançada, no Brasil,  em 2010, pela editora Objetiva.

Dividido em quatro capítulos, o livro conta a história de Frida indo desde antes do seu nascimento, permeando parte da vida dos seus pais – o jovem alemão Karl Wilhelm Kahlo, que chegou ao México em 1890 sem saber falar uma palavra em espanhol, e a linda filha de um general espanhol de ascendência indígena, Matilde Calderón y Gonzalez –, até a sua morte, aos 47 anos, vítima de uma broncopneumonia, um ano após a sua primeira exposição individual no México.

O que não falta são infortúnios vividos pela artista ao longo de sua trajetória, os quais Christina Burrur usou de grande sensibilidade para expor. No primeiro capítulo, “EM MINHA VIDA, FUI VÍTIMA”, a menina Frida é apresentada ao leitor através de fotos de família e bilhetes, esboços e retratos de autoria da pintora – o que, cá entre nós, além de ser um material belíssimo, é indispensável em qualquer publicação que pretenda falar da vida de alguém que dedicou a sua vida às belas-artes.

Quarta filha do casal, a pintora nasceu de um parto complicado. Sua mãe sofria de atrofia nas trompas e já havia perdido um menino antes de Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nascer em 6 de junho de 1907, na cidade de Coyoacán, no México. Com depressão, Matilde entregou o bebê a uma ama de leite indígena e, mais tarde, quem passou a cuidar da menina foram suas meio-irmãs, Matita e Adriana, frutos do primeiro casamento de seu pai.

Para Karl , Frida é um pouco o menino que ele perdeu. Grande apreciador de música erudita e xadrez e dono de uma biblioteca repleta de clássicos europeus, sobretudo filósofos como Nietzsche e Schopenhauer, Karl Wilhelm Kahlo – que depois de instalado no novo país trocou o seu nome para Guillermo, muito mais compreensível – enviou Frida para o Colégio Alemán de México. O primeiro fotógrafo do patrimônio cultural do México, também levava a filha, que amava tanto, para praticar esportes na tentativa de fortalecer os músculos da perna direita da menina, que, aos 6 anos de idade, foi vitima de poliomielite, rendendo a ela o apelido  “pata de palo” (perna-de-pau). Mas, Guillermo também sofria de uma doença, ele era epilético, e presenciar as crises do pai fizeram Frida sentir pela primeira vez a presença da morte em sua vida.

"La columna rota", Frida Kahlo (1944). Foto: Divulgação

A segunda vez se deu no início de sua vida adulta, durante um episódio que seria determinante para a construção da identidade evidente na obra de Frida Kahlo. Aos 18 anos, quando voltava para a sua casa ao lado de seu primeiro amor, Alejandro Gómez Arias (colega na Escuela Nacional Preparatoria, onde ela se preparava para exercer Medicina), a artista sofreu um grave acidente. O ônibus onde estava se chocou com um bonde. Frida teve fratura tripla na coluna vertebral, fratura na clavícula, fratura das terceira e quarta costelas, luxação no ombro esquerdo, tripla fratura na bacia, perfurações no abdômen e na vagina, 11 fraturas na perna direita e deslocamento do pé direito. Abalados, seus pais não têm coragem de visitá-la. Quem lhe prestou assistência é sua irmã mais velha Matita, que havia fugido de casa aos 15 anos para viver com o namorado. Alejandro também não foi vê-la, sua família o mandou para a Europa para que se afastasse de Frida. Ela se sentia sozinha e, quando obteve alta, um mês depois, ganhou uma cama com um dossel, no qual foi pendurado um pequeno espelho, um cavalete especial e uma caixa de tintas.  A recuperação demandou muito repouso, ela não podia sair de casa, assim, seus primeiros desenhos foram autorretratos, cuja técnica remete aos grandes retratistas alemães e italianos e o conteúdo a uma profunda introspecção.

Ainda jovem, Frida Kahlo viu ainda o ditador Porfirio Diáz cair em meio a revolução de 1910 e sua família passar por dificuldades financeiras. Foi então que ela começou a trabalhar no atelier do celebre gravador publicitário Fernando Fernández e fez parte do Cachuchas – grupo composto por sete rapazes e duas moças que se reúnia na Biblioteca Ibero-Americana para falar sobre política e literatura.

Na sequência dos capítulos, pode-se ler sobre a ligação de Frida ao Partido Comunista Mexicano, a descoberta da sua feminilidade, seu conturbado casamento com Diego Rivera, seu desejo de ser mãe, os abortos decorrentes das sequelas do acidente que sofreu aos 18 anos, seu affair com Leon Trotski, etc. Mas, o mais importante é que Christina Burrus é  muito feliz na forma como conduziu tal abordagem: sempre conectando fatos e quadros, com a intenção de revelar a o leitor o que está por traz de cada tela. Burros é muito feliz principalmente quando, ao final do livro, traz, como anexo, “TESTEMUNHOS E DOCUMENTOS” – uma série de trechos do diário de Frida Kahlo e cartas escritas por ela às pessoas próximas.

Através dessa biografia, pode-se ver, não só através dos olhos do pesquisador, mas por meio das próprias palavras da biografada, a sensibilidade gritante nas obras da artista. Alegrias, desilusões, reflexões a cerca da política e da vida e seus medos estão lá. Em Frida Kahlo: “Pinto a minha realidade”, é como esse ser humano tão fascinante pudesse falar diretamente com quem lê.

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1 comentário

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