Consumo / Esportes / Viés

Gigante da Beira-Rio apequena-se diante da Inclusão.

Copa do Mundo 2014 no Brasil, que fenômeno! A dita Copa das Copas. Perceber que uma efusão de nacionalidades, de credos e de valores pisaram e/ou ainda pisarão a calçada das ruas de sua cidade é um sentimento indescritível. Há uma sensação na qual é nessas veias que pulsam seus cidadãos – a calçada -, cuja direção irradia para um só caminho, para o palco, para o Estádio de Futebol.

Minha fala será acusada ao final dessas escritas de vários adjetivos, que, num primeiro momento, serão deferidos como pejorativos. Enfim, esse será um texto declaradamente com viés, mas quaisquer dúvidas quanto a sua verdadeira intenção poderá ser desconstruída em uma segunda, ou terceira leitura mais atenta e desarmada de concepções pessoais.

Em um primeiro plano, será impossível descolar da qualidade de se parecer com mais um texto de cunho bairrista… próprio do gaúcho, próprio de porto-alegrenses mais radicais. Segundo, porque envolverá, inevitavelmente paixões GreNalizadas, ou, até mesmo, paixões políticas. Aqui encerro essa série de spoilers, e atento-me à sua essência.

Talvez toda reflexão pode ser tomada como bairrista quando se têm apenas um ponto de referência, seja ela a cidade que se vive seu cotidiano… ao menos eu procuro ficar com olhar mais relaxado durante as férias. Minha referência é Porto Alegre, e o palco do espetáculo escolhido pelo Comitê Organizador da Copa Do Mundo Brasil 2014 foi o Estádio Beira Rio. Sou cadeirante há 18 anos, participei desse espetáculo e sou da corrente que defende Copa do Mundo ao estilo Brasileirão… todos contra todos, pontos corridos, com jogos às quartas-feiras, sábados e/ou domingos, durante um ano inteiro. #copadomundooanointeiro

Após esse pensamento utópico e desvairado, hora de aterrizar. Pôr as rodas no chão.

Participei desse espetáculo em 4 das 5 apresentações de Gala em Porto Alegre. Não me fiz presente apenas no jogo, pela fase de grupos, entre Argentina e Nigéria. O curioso é que em todos os outros jogos, eu sempre encontrava praticamente os mesmos PcD’s (Pessoas com Deficiência) nas fileiras reservadas para esse fim. Contudo, no jogo da Argentina contra a Nigéria, as vagas foram “todas” ocupadas … é incrível como surgiram mais PcD’s do que na média de outros jogos, cujas seleções são eram oriundas de países com maior inclusão de PcD’s, com IDH melhores, em que seria muito factível haver um maior número de PcD’s oriundos desses países… Enfim, foi um breve divagação, mas talvez tenha acontecido, nesse jogo em específico, o mesmo milagre que também ocorrera em outros jogos dessa mesma Copa… em que, divinamente, cadeirantes torceram, em pé a maior parte dos jogos, sem maiores dificuldades motoras…

Reconstruindo os passos que antecederam a nossa Copa do Mundo, tenho sérios arrependimentos de não ter comprado os ingressos com uma antecedência maior. Primeiro: muitos dos cadeirantes que encontrei no estádio compraram na mesma época que eu – na terça-feira anterior ao início da Copa, em 12 de junho. Se houvesse uma organização maior, eu teria conseguido não só para a fase de grupos e a para as oitavas em Porto Alegre, mas também teria conseguido para a final no Maraca. Segundo, só no momento da compra – saliento que não foram feitas por mim, mas por um amigo que iria me acompanhar e queria “muito” ir aos jogos –, que eu descobri dois pontos muito significativos: PcD’s levam um acompanhante de graça…. SIM, 0800…, e mais, estudante ainda tinha 50% de desconto. Resultado, rachando o ingresso com o acompanhante, eu desembolsei apenas 25% do valor do ingresso para os 4 jogos. Ao imaginar a proporção desse evento, R$ 190,00 (sim, cento e noventa reais…você leu corretamente!!) é um valor ridículo em virtude dos jogos que houve em nossa capital.

Sinceramente, o sentimento que haveria realmente Copa só se concretizou no sábado seguinte, dia marcado para a retirada dos ingressos no Ponto de Retirada montado no Barra Shopping Sul. Não era possível acreditar que eu havia conseguido ingressos… ainda mais para 4 jogos. Não me preocupei em credenciar o carro para deixá-lo dentro da zona restrita para torcedores. Para mim era muito viável deixar o carro no estacionamento do Barra Shopping Sul e seguir rodando… outro ponto de arrependimento: em nenhum dos jogos que fui, o estacionamento existente dentro da “zona verde” teve a sua capacidade, nem sequer, em 30% das vagas de carro.

Não há nenhum arrependimento por ter ido a pé. Aliás, é por ele que costuro a análise central desta reflexão: o caminho. Não era a Goal Walk – o Caminho do Gol, inovação gaúcha na copa –, por morar próximo a beira do Guaíba, mais além do Barra Shopping Sul, eu escolhi o estacionamento desse shopping estacionar o carro e seguir rodando em minha humilde cadeira. Foi fantástico, eu sempre sonhava com o dia em que eu teria a oportunidade de sair rodando desse shopping até a Usina do Gasômetro. Posso atestar que nunca se pode fazer esse caminho rodando, porque, mesmo sendo plano, ele nunca foi tratado de forma harmônica. Um caminho composto pela orla do Guaíba cujo caminho era composto desde o Barra Shopping Sul, passando pela Fundação Iberê Camargo em direção à calçada da Avenida Edvaldo Pereira Paiva – popularmente chamada de Av. Beira-rio, ainda às margens do Guaíba –, passando pelo Estádio Beira-Rio, perpassando o Parque Marinha do Brasil, Anfiteatro Pôr-do-sol; ainda, ao largo do Parque Harmonia até a Usina do Gasômetro.

Todos esses trechos são lugares espetaculares para se andar com amigos e familiares, admirar o pôr-do-sol, bem como realizar prática de esportes e lazer (caminhar, correr, andar de bicicleta). Contudo, eram tratados como espaços fragmentados. Não havia harmonia entre esses espaços tão próximos, tanto paisagisticamente como na forma de mobilidade urbana universal e integrada. Sob o meu julgamento, esse é o principal legado deixado na cidade pelas obras de infraestrutura provocadas por essa copa aqui em terras tupiniquins. Às margens desse tal hibridismo rio-lago Guaíba, pela primeira vez na história dessa cidade sem pensou, em uma forma tão expressiva a integração, pela mobilidade universal, de uma paisagem que nunca deveria ter sido tratada com um pensamento retrógrado de retalhar o que é belo e único.

No centro desse trecho de aproximadamente 10 km – que estende da rótula das avenidas Diário de Notícias, Wenceslau Escobar e Icaraí, até a Usina do Gasômetro –, está o Estádio Beira-Rio como centro desse pensamento integrado de mobilidade urbano-espacial. Não é exagero afirmar que todos os caminhos levam ao Estádio Beira-Rio, como veias que levam sangue oxigenado para um grande candidato de coração da cidade, promotor de um pensamento a ser espalhado de integração, de inclusão por um acesso facilitador de pertencimento ao meio urbano por qualquer cidade dessa cidade.

Eu ainda não fiz esses 10 km, contudo fiz a metade em cada um dos jogos que fui nessa copa. Foi um caminho prazeroso, de inclusão ao meio e de liberdade. Liberdade da minha escolha em ir rodando, calçadas niveladas com rampas ideais em cada esquina, pela Avenida Padre Cacique, para se subir e descer com uma cadeira de rodas. Piso podotátil presente em boa extensão da primeira parada após a elevada Pinheiro Borda (sentido bairro-centro) até o estádio.

Aliás, eu tinha ouvido boatos que haveria um transporte alternativo para que era PcD, obeso e/ou com mobilidade reduzida naquela espécie de carinho de golfe… contudo, só os vi a 500 m do estádio, em frente do Asilo Padre Cacique, na mesma calçada do palco da copa… e mais, a pessoa me ofereceu todas as vezes que eu passava por ali uma carona… , mas o que era 500m para quem tinha rodado 5 km???

O acesso ao espetáculo foi impecável. Mesmo dentro de um mar de torcedores eufóricos pelo show, havia respeito e cordialidade para pessoas com mobilidade reduzida. Porém o palco possui graves problemas, se atermos ao pensamento que o Estádio fora reformado para partidas padrão FIFA. Com Seleções de, pelo menos 6 países envolvidos em suas seleções de forma direta na fase de grupos, sejam elas: França, Honduras, Austrália, Holanda, Coréia do Sul e Argélia – bem como na partida pelas oitavas de finais entra Alemanha e Argélia.

Respeitados todo o processo de decisão do time Sport Club Internacional em manter sua história nos mesmos pilares plantados a beira do Guaíba pelos longínquos anos de 1969, tido como o time do povo… eu quero muito saber em que tipo de povo foi pensado em relação à pessoas com mobilidade reduzida?

Reitero, não sou colorado e não acompanhei o processo de tomada de decisão a esse respeito, contudo percebesse que, quando não há um pensamento integrado dos diversos públicos possíveis de uma instituição, quaisquer atitudes após a constituição de um ambiente, quaisquer tentativas de conserto não pode ser tratada de outra forma senão pelo nome de remendo.

Sim, REMENDO.

R-E-M-E-N-D-O.

Por não ser colorado, a visão que tenho de todo o processo é superficial, sem dúvida. Percebi que preocupou-se muito em questões financeiras por parte do clube e da construtora Andrade Gutierrez, no atraso das obras, se haveria participação e financiamentos públicos, se haveria empréstimos subsidiados pelo Banrisul com prazos a perder de vista, se haveria atrasos, será que vai ficar pronto… e se… e se… mas o público. Onde está o planejamento para quem, de fato, constrói o sentido de ser de um estádio?

Talvez esse texto provoque alguma reação inflamada a essas indagações, mas é importante que elas aconteçam.

Vamos à análise. O entorno do estádio é plano e com acessibilidade total a diferentes públicos. Os portões destinados aos PcD’s, obesos e mobilidade reduzida são os Portões J e N. Eu usei os dois. Através desses portões têm-se acesso a duas porções bem definidas do estádio. Em cada um dos corredores amplos, um a direita e outro à esquerda dessas entrada respectivamente, há três rampas que direcionam para dois níveis distintos ao nível do gramado – localizados em frente a cada uma das bandeirinhas de escanteio de um mesmo lado do campo. São três rampas, em que a do meio direciona para a linha de cadeiras mais próximo ao gramado, bem como as duas rampas situadas nas laterais dessa rampa central direcionam para duas linhas de cadeiras logo acima a linha de cadeira inferior. Há dois espaços em forma de espelho um do outro tanto pela entrada do portão J quanto pela entrada do Portão N. Nesses espaços se mesclam espaços para PcD’s com cadeira de rodas e, ao seu lado, um acompanhante. E, em outra lateral divide-se para pessoas com mobilidade reduzida (salienta-se sem cadeira de rodas) e pessoas obesas. Esses espaços situam-se – serei repetitivo de propósito –, na linha do gramado e sem a proteção da área coberta em dias de chuva.

Na linha do gramado, para quem não tem outra opção a não ser ver sentado, não se têm visão de boa parte das jogas que acontecem na linha lateral que une-se a linha do escanteio, devido às placas publicitárias. Lembre-se que um estádio padrão Fifa não pode vender quaisquer lugares onde há ponto cego em jogos válidos pela Copa do Mundo. Nesses ambientes reservados, não só bastava os pontos cegos, no jogo das oitavas (Alemanha X Argélia) eu não só fiquei encharcado, como meu instrumento de locomoção também ficou – a cadeira de rodas. A cadeira não é uma simples camiseta que é possível deixar em casa secando e usar outra. Absurdo para um estádio que foi remodelado totalmente em sua estrutura interna.

Será que eu devo agradecer por ter acesso a um lugar como esse? Porque afinal a mim foi dado o direito de participar de um show de partida na copa do mundo, é esse o pensamento?

A palavra remendo ficou totalmente em voga devido à rivalidade Gre-Nal. É inevitável utilizá-la sem despertar paixões, mas que defendê-la junto a outro termo, seja ele SEGREGAÇÃO.

Não é aceitável que um público que luta para ser incluído em um ambiente cujas construções e edificações, muitas delas antigas e/ou tombadas pelo patrimônio histórico, nem sempre podem ter adaptadas meios de acesso universal a pessoas com diversas formas de mobilidade reduzida, seja elas permanentes ou provisórias. O que permaneceu no Estádio Beira-Rio foram suas bases primárias, nelas estão uma história de suor e garra; entretanto desmente uma grande história ao não incluir em suas novas arquibancadas opções diversas de inclusão harmônica das PcD’s junto de sua torcida, nos diversos níveis. Há nível intermediário, há superior, há camarote… HÁ ELEVADORES… mas não há acesso para PcD’s nesses níveis, exceto em dias de “temporal”, segundo a fala da sua 2º vice-presidente, Diana Raquel de Oliveira – por sinal, é arquiteta de profissão. Mas não foi o que eu presenciei no jogo pelas oitavas…

O Short Clube Internacional repudia sua histórica bandeira como clube do povo ao não pensar de forma integrada e harmônica a diversidade de seu povo, de seu torcedor que ama sua bandeira.

Ao torcedor colorado informo que àquele estágio às margens da Free Way, que possui várias tantas motivações de piadas segregarias, próprias da rivalidade entre os dois times, possui a integração do torcedor PcD de forma harmônica em sua torcida. Nesse estádio não há ponde cego para PcD’s, e tampouco área descoberta em dias de chuva. Porém, não temos infraestrutura do entorno como há no Estádio Beira-Rio.

O Gigante da Beira-Rio tinha todos os predicativos para se tornar fonte propulsora de inclusão e exemplo de harmonia para a cidade de Porto Alegre. Poderia ser o coração que pulsaria a integração de diferentes públicos ao meio urbano.

O Gigante da Beira-Rio se apequenou ao não exercer a alcunha de time do povo.

Em síntese lutamos não para que um estádio seja melhor que o outro, mas que para o universo diversificado de seus torcedores, os dois clubes tenham palcos dignos de belos espetáculos para essa torcida, que faz a razão de sê-los.

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1 comentário

  1. Thais Sarda says:

    Gostei do texto. Tem bastante paixão clubística, mas o que interessa é que tem paixão. E ver a visão de um cadeirante sobre coisas que a gente observa mas nunca vai sentir da mesma forma é bem interessante. Um abraço.

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