Cultura / Viés

Gosto e vergonha

Pessoa retraída cercada por mãos que apontam em sua direção

A humilhação nem sempre é real; não quer dizer que doa menos nesse caso. Foto: Marc-Andre Lariviere (http://www.flickr.com/photos/marcandrelariviere/3251428624/in/photostream/).

A imersão em um ambiente acadêmico pode ser, especialmente para os neuróticos ou inseguros, desafiadora por várias razões. Não só é uma esfera pouco familiar, com um novo grau de expectativas e habitado por pessoas geralmente desconhecidas, mas é um verdadeiro santuário do iconoclasmo. De modo a criar mentes e línguas afiadas que contribuam para o desenvolvimento de um mundo melhor (bem, em teoria…), além de preparar o aluno para as demandas e tribulações rotineiras da vida adulta, é necessário estimular o questionamento das crenças e preconceitos que carregamos conosco desde a infância.

Com certa frequência, aqueles que têm suas bases filosóficas ruídas se veem em um estado constante de ambivalência – especialmente quando a vergonha, sentimento permeado por paradoxos e racionalizações, os leva a temer a possibilidade de estarem errados, serem ridicularizados ou quaisquer outras fantasias paranoicas que lhes ocorram. Às vezes, a menor semente de dúvida, plantada por um jardineiro alheio sem más intenções, pode criar um universo inteiro dentro da mente altamente fóbica de um neurótico.

Essa ambivalência maldita se enraíza, no meu caso, em não ter sempre a certeza do que é aceitável gostar, pensar, querer. Não é uma questão de ser censurado pela ortodoxia de uma instituição arcaica, ou algo romântico dessa natureza; não tenho delírios de ser o visionário iconoclasta que todos achavam que eu, um dia, iria ser devido ao meu apetite pelos livros. Não, o buraco é mais embaixo: eu não sei do que é correto – não apenas socialmente, mas moralmente – gostar.

A academia leva a análise literária bastante a sério. Ler uma obra de ficção é ler um contexto, uma moral, uma ideologia, um zeitgeist, a alma de uma sociedade. Gostar é concordar, é discordar, é desafiar ou demonstrar submissão à mesma. O modo “correto” de se apreciar uma obra é ou em sua descontrução, na dissecação de suas mensagens subliminares, ou em uma apreciação quase orgástica pela beleza de certas obras seletas, que são inevitavelmente contrastadas com o lixo que a “ralé” consome. Se não há uma razão bem definida e intelectualmente sofisticada, a satisfação que você sente após ler um livro é equivalente à de uma criança que se empanturra de chocolate.

Não vou fingir que isso é uma análise abrangente da sociologia acadêmica; é algo muito mais pessoal, mais hiperbólico, mais absoluto – mais paranoico – da minha parte.

Isolamento e esperança

Desde o meu ingresso na UFRGS, minha vida social não deu muitos sinais de atividade; embora conheça várias pessoas pelo nome (menos do que as que me conhecem pelo nome, parece), não as tenho muito mais do que como conhecidos com os quais tenho uma relação amigável e a quem não me importo de prestar favores. Isso não é, até onde sei, produto de algum senso de elitismo ou superioridade, mas – em parte – de um sentimento ubíquo de inferioridade intelectual. Eu penso: o que eu faço aqui, no meio dessas pessoas intelectuais, objetivas e engajadas, dedicadas e flexíveis, analíticas e introspectivas?

Volta e meia, porém, eu leio um relato como o de Gabriela Goularte, escritora aqui do Viés, e me pergunto se minhas fantasias soturnas não são apenas uma distorção da realidade do ambiente que me cerca. Não sei se isso me faz sentir melhor ou pior; mas lhe agradeço muito, Gabriela, por me propor uma perspectiva diferente da do espectro funesto que mora na minha mente.

(Crédito da foto: Marc-Andre Lariviere, http://www.flickr.com/photos/marcandrelariviere/3251428624/in/photostream/)

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1 comentário

  1. U R A Pirate says:

    Penso que a maior dificuldade nessa vida é enxergar o outro. Talvez tenha sido a importância de verificar a capacidade de que laços sociais conduzem a nossa vida, não só a nossa vida, mas o mundo, que me fez gostar e escolher a faculdade de RP.
    Mas, gostaria de dividir alguns pensamentos um tanto radicais para reflexão:

    Primeiro – O mundo contemporâneo é fragmentado, evasivo, fútil, volátil e uma série de outros adjetivos abstratos. O retrato, sem dúvida, não só da sociedade, como do mundo (como se ambos andassem separados) seria uma pintura de Pablo Picasso, onde as formas estão desformes, os limites contorcidos, a sincrônia dessincronizada. Como, no meio de um mundo despedaçado querem que o ser habitante seja inteiro? A pura verdade é, ninguém é. Ninguém é inteiro, nem auto-suficiente, nem certo, também nem errado, nenhum Homen é uma ilha, ninguém é detentor de alguma forma de conhecimento superior. Como já dizia Sócrates “Só sei que nada sei”, e depois de mais de (bem mais que) 2 mil anos de existência, aonde o homem chegou? Me desculpem o Niilismo, até pq, nunca me interesei por Nietzsche, mas a sociedade de hoje nada mais é do que um grande vazio que se passa por cheia.

    Segundo – Estamos saturados de já ouvir sobre a sociedade visual, uma sociedade de aparências. E bem, já dizia Maquiável: “É mais benéfico aparentar ter boas qualidades do que tê-las realmente”. E nisso preciso [i]linkar[/i] algo que tu escreveu… “Eu penso: o que eu faço aqui, no meio dessas pessoas intelectuais, objetivas e engajadas, dedicadas e flexíveis, analíticas e introspectivas?”. Quer a resposta? É SÓ APARÊNCIA.
    Muitas pessoas não conseguem se limitar a sua insignificância. Não conseguem entender que não são mais especiais que outras e que estamos todos no mesmo nível. SIM! Estamos no mesmo nível, até aquele funkeiro do morro que trafica (ai que horror, né? preconceito blábláblá) até o médico ou advogado bem sucedido. A diferença nada mais é do que uma só, educação. Pena que educação e aparência (no sentido de se destacar) são coisas que, na minha visão, não andam bem juntas. Educação pra mim, além de outras tantas coisas, é ser discreto.

    Terceiro – Aqui vai um pensamento um pouco mais crítico e profundo, que tem a ver com discrissão, e bate como um forte argumento para difentes assuntos um pouco mais problemáticos. A sociedade é uma só. O cidadão da sociedade é um só. O ser humano sim é vários. O que quero dizer com essas frases? Quero dizer que… no meio do outro, ao interagir com o outro, este espera que tu seja igual a ele. Por quê? Por que a maior dificuldade nessa vida é enxergar o outro. É da natureza humana demorar pra aceitar as diferenças, e existem muitas pessoas que lutam contra isso. Eu, novamente o pessoal, acredito que não devemos lutar, mas sim, aceitar e lidar com isso. Como eu falei, temos a liberdade de sermos diferentes, por que somos, mas temos que ter a responsabilidade de demonstrarmos (demonstrarmos, não ser) ser iguais perante ao nosso próximo. Acredito que o envergonhamento social acontece bem no meio dessa situação, onde demonstramos uma parte de nós aonde deveríamos nos manter privados, e a sabedoria de quando devemos ser nós, e quando devemso ser massa é o tipo de sabedoria que vem com a experiência, com a experiência de nos dar mal.

    Para completar, pode parecer um pouco contraditório eu as vezes defender a diferença e igualdade do ser. Mas, cabe a reflexão própria entender que não somos um ser humano [i]uno[/i], somos um conjunto de reflexões e pensamentos, somos um sistema de ideias, e não uma ideia sólida e conjunta.

    De resto, perdoem os erros de português… hihi

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