Música / Viés

Muito além do fado

Quando o assunto é música vinda de Portugal, qual o primeiro artista que vem à sua cabeça? Amália Rodrigues? Roberto Leal? Mamonas Assassinas cantando o Vira? Estes são exemplos clássicos, mas sempre haverá o que garimpar entre músicos e intérpretes da terrinha. Algumas canções podem ter semelhanças com as que ouvimos no Brasil, enquanto outras mostram possibilidades e têm grande destaque, considerando diversos aspectos.

Na história musical portuguesa, há uma personalidade que quebrou convenções com letras, músicas, visões e, principalmente, comportamento – considerado moderno em demasia para um país como Portugal. Tais quebras nada tinham a ver com jogadas de marketing ou estratégias para atrair público e lucro. Tudo no trabalho deste artista partia da genuinidade e da emoção.

Falo de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, também conhecido por António Variações. Nascido em dezembro de 1944, em uma numerosa família de Braga, cidade ao norte de Portugal, logo na infância teve contato com a música, mas também trabalhou em diversas profissões. Começou ajudando os pais no cultivo do campo, depois mudou-se para Lisboa e exerceu as funções de balconista e aprendiz de escritório, entre outras. Cumpriu o serviço militar em Angola e viajou por Londres e Amsterdã, onde aprendeu o ofício da barbearia.

Uma das imagens mais conhecidas de Variações. Foto do Flickr de Scientific deliriums (João).

De volta a Lisboa e estabelecido como barbeiro, passou por salões unissex até fundar o seu, É Pró Menino e Prá Menina (importante destacar que naquela época, entre os anos 1970 e 1980, salões nesse estilo não eram comuns). Paralelamente, deu início a apresentações musicais e, em 1978, assinou contrato com a editora Valentim de Carvalho. Seu trabalho, no entanto, ainda levaria algum tempo para chegar ao público.

Variações tinha um estilo que se destacava por ser excêntrico. Nas suas diversas fotos e alguns vídeos, aparece com o torso totalmente descoberto. Colares, brincos, luvas e roupas coladas ao corpo também completavam seu figurino. Seu objetivo era mostrar a Portugal formas não convencionais de viver para que todas pudessem co-existir. Mas António não foi bem compreendido pelos portugueses. Em comentários de seus vídeos no Youtube, podem ser lidos relatos de pessoas em apresentações ao vivo de António que assistiram ao cantor sendo vaiado ou atingido por alimentos. Variações era homossexual e o preconceito em relação à sua orientação também era muito frequente.

Mesmo com os percalços, António não desistiu de seu caminho. Em 1981, participou do programa de televisão de Júlio Isidro, conhecido apresentador português. A partir deste momento, os olhares voltaram-se para Variações (claro que sua música e sua imagem influenciaram, e muito, nisto). Em 1983, lançou seu primeiro single com uma releitura de Povo Que Lavas no Rio, de Amália Rodrigues, cantora que António mais admirava (ao conhecerem-se pessoalmente, passaram a nutrir carinho mútuo, de fã). No mesmo ano, seu primeiro LP, Anjo da Guarda, chegou às lojas.

1984 parecia ser um ano promissor. Logo no início do ano, Variações grava seu segundo LP, Dar e Receber, e realiza apresentações em shows e na televisão. Ainda no primeiro semestre, António adoece gravemente. Quando Dar e Receber é lançado, já se encontrava em um hospital de Lisboa, depois de se instalar em casas de amigos. Enquanto seu grande sucesso Canção do Engate tocava nas rádios, também corria a suposta notícia de que as complicações de saúde de António teriam sido causadas pelo vírus HIV, o que só contribuiu para que o preconceito, que já existia em relação ao vírus, aumentasse para Variações.

António Variações, depois de uma trajetória intensa em 39 anos de vida, falece a 13 de junho de 1984. A família, embora não confirme, convive com a especulação de que tenha sido uma das primeiras figuras públicas de Portugal a serem infectadas.

Com o passar dos anos, o barbeiro vindo do norte, sem conhecimento acadêmico ou musical apesar de sua voz potente, começou a inspirar cada vez mais artistas. Foi auxiliado quanto ao trabalho na música, seja em composição, gravação ou produção, mas todas as suas letras têm alguma mensagem reflexiva. A memória de Variações segue tão viva para os portugueses que três grandes projetos foram pensados, iniciados e/ou concluídos: o grupo Humanos, criado por músicos conhecidos de Portugal para lembrar os 20 anos da morte do cantor, gravando músicas inéditas deste; o leilão de objetos pessoais de Variações (cerca de 300, entre fotos raras, fitas cassette e acessórios da barbearia), realizado em novembro de 2009; e um filme sobre sua história, além do documentário Humanos – A Vida em Variações. Passados mais de 25 anos, a obra de um artista que procurou exercer a liberdade de criação em suas músicas e em seu modo de viver ainda é atual e – o que é melhor – atrai a admiração de pessoas que nem desconfiavam de sua existência. O que será que António pensaria disso tudo?

Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou e que faço no campo da música. Aquilo que canto é heterogéneo. Não quero enveredar por um estilo. Não sou limitado. Tenho a preocupação de fazer coisas de vários estilos.

Justificativa de António Variações para o seu nome artístico.

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