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No futebol brasileiro, salário bom é recebido em casa

Ronaldinho na frente de um poster no flamengo

Ronaldinho é apresentado no Flamengo - futebol apresentado justifica seu salário?

Uma tendência recente no futebol brasileiro vêm animando diversas torcidas: a volta de grandes craques. Antigamente, o furor era algo excepcional, pois grandes voltas ao país não eram constantes – podemos destacar nos anos 80 a volta de Falcão, indo jogar no São Paulo, e o badalado retorno de Romário ao Flamengo em 1995, quando estava no auge da carreira. Porém isso era exceção, restrita aos esparsos momentos mágicos de certos clubes e aos devaneios de dirigentes irresponsáveis que gastavam mais que podiam. Os fanáticos e ingênuos fãs sonhavam com o dia que um ídolo voltaria para o Brasil e vestiria a camisa de seu clube. Pois bem, se você tem um ídolo que está meio infeliz aonde trabalha, mesmo com o rendimento em euros, anime-se – ele pode voltar em breve ao seu time, mas não é bem pela razão que você quer…

Todo torcedor fica eufórico com o ídolo, faz parte da mitologia do futebol. Há craques que arrancam suspiros quando sua lembrança é evocada pelas mentes saudosistas dos fanáticos pelo esporte. Ver este herói retornando causa rebuliço nos torcedores, e a imprensa e os jogadores destacam tudo como uma “volta para casa”. Vamos analisar os exemplos mais recentes: “Luis Fabiano acerta volta ao São Paulo“, “Na volta ao Santos, Elano diz que continua sendo um ‘Menino da Vila’” e até mesmo “Ronaldinho Gaúcho, um carioca da gema da Zona Norte à Zona Sul“. Todos estes jogadores voltaram para o Brasil, alguns para seu clubes, outros não, mas sempre ressaltaram que o bom é estar de volta ao Brasil. Claro, nosso país é maravilhoso, as pessoas ficam nostálgicas com o passar dos anos, a Europa é profissional e solitária… Todos estes argumentos são verdadeiros, porém qual o  porquê de os grandes craques resolverem voltar para o seu país de origem ao invés de se aposentar no futebol europeu? Não é pelo fato de estarem em casa, mas por serem os verdadeiros donos dela.

Não há mais uma discrepância monetária que impeça o jogador de ficar no Brasil ou retornar, a não ser em casos excepcionais, como de certos jovens jogadores . O atleta atualmente está mais interessado na Europa por toda sua mítica: primeiro mundo, lugar onde estão os grandes craques com bons salários, aonde seu nome pode ser projetado para o mundo inteiro.  Porém, para quem já fez o seu nome e que agora não tem mais grandes perspectivas no circuito futebolístico internacional, o Brasil oferece os atrativos por ser o seu país de origem, com duas grandes vantagens: a volta do herói engrandecerá ainda mais a sua mítica, e ele ainda será o topo do seu time tanto em respeito quanto em salários. Sem falar que a liga nacional brasileira está no circuito das mais prestigiadas do mundo, afinal o que ocorre no território pentacampeão do mundo interessa à fanaticos do planeta inteiro.

Mas o fator decisivo na hora de pensar uma volta é o grande negócio que é o retorno de um craque, tanto para o jogador quanto para os clubes. As cifras movimentadas pelo futebol aumentam ano após ano. O site http://www.futebolfinance.com aponta um crescimento de cerca de 42% nas receitas geradas com o esporte no Brasil desde 2002, sendo que até a Copa de 2014 este aumento pode ser de até 80%. O Futebol Finance também divulgou os maiores salários de 2009 de futebolistas brasileiros, e vemos que a diferença, apesar de existente, tem menor discrepância quando trata-se de jogadores renomados. Vale ressaltar que dentre os 27 mais bem pagos de 2009, 11 retornaram ao Brasil após 2010 (Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Deco, Elano, Rivaldo, Roberto Carlos, Ricardo Oliveira, Juliano Belletti, Mancini, Diego Cavalieri, Thiago Neves – Ronaldo já estava no Corinthians), e seus dados não estão computados. Para exemplificar tal valorização, o salário de Ronaldinho Gaúcho está na cifra de R$ 1,4 milhões e o de Deco em R$ 800 mil, valores que se convertidos em euro não ficam tão diferentes dos recebidos na Europa.

Os clubes são grandes interessados na volta do craque. O investimento é alto, mas inclui: empatia com a torcida, acordos publicitários,

Deco com a torcida do fluminense ao fundo

Em baixa na Europa, Deco busca recuperar o prestígio no Brasil

visibilidade na imprensa, valorização da marca e, se der sorte, bom futebol. O departamento de marketing do Flamengo espera lucrar com o jogador R$35 milhões, que seria dividido entre o clube, jogador e as parceiras. No fim, todos saem ganhando, e se o jogador corresponder, a torcida também pode ter a sua alegria com alguns títulos. No caso Ronaldo, o Corinthians revela que teve seus dividendos honrosos, mas quem perdeu foi o torcedor, que teve a imagem de um grande ídolo e de um sonho – que é faturar a sua primeira libertadores – desmantelada. Mas a direção conseguiu ter sucesso no seu negócio, assim como o jogador – a “frustração” da libertadores Ronaldo cura com cigarros Benson&Hedges e Dom Perignon – então, tirando os corinthianos, tudo está bem.

O futebol tem ficado cada vez mais profissional e menos pessoal. Todos os jogadores gostam de tratar os seus negócios como sendo profissional -o que é muito bom para eles- e, se for conveniente, partem para conquistar a empatia da torcida – sempre sonhei com essa camisa, é muito bom voltar para casa… A verdade é que a torcida é a parte ingênua do negócio, e sua opinião não conta muito neles. Tudo que interessa é seu poder de compra. Claro que o torcedor tem a consciência do que ganha seu ídolo, mas abstrai tal dado quando ele entra em campo. Tal dívida só é cobrada quando os resultados são ruins ou quando ele pode deixar o clube. Os dirigentes, empresários e jogadores, que antes eram torcedores, agora são negociantes, e os torcedores, que nunca deixaram de sê-lo, são cada vez mais consumidores.  É muito bom ver um herói voltar, mas é bom perder o caráter ingênuo e passar a desconfiar de discursos amorosos que são grandes estratégias de marketing.

Crédito Fotografias: Assessoria Flamengo e Assessoria Fluminense

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