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O dia em que a Voz do Brasil acabou com o namoro do João

João mora no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Ele tem encontro marcado com a namorada Maria às 20h. Ela mora no Menino Deus. Ele sai de casa às 19h30min. Sai tranquilo, pois há tempo suficiente para ele chegar, mesmo sendo horário de pico.

Ao sair de casa, João liga o rádio para saber quais caminhos estão congestionados e qual o melhor trajeto. Impossível. É hora da Voz do Brasil. Em vez do boletim do trânsito, está no ar o Jornal da Câmara. Indignado, ele desliga o rádio e, sem informação, decide ir pela Avenida Ipiranga. Contudo, há um acidente nessa via e tudo está trancado. Ele chega ao encontro apenas às 20h40min. Maria fica braba e termina o namoro.

A historinha contada nos dois primeiros parágrafos é fictícia, mas perfeitamente realista. A obrigatoriedade das emissoras de rádio transmitirem a Voz do Brasil entre 19h e 20h é um atentado à liberdade e ao direito de informação, pilares da manutenção de um sistema democrático. Em todas as grandes cidades brasileiras, o trânsito nesse horário é caótico. E os condutores são privados de descobrir via rádio quais os caminhos mais adequados para chegar ao destino de forma mais rápida. Tudo por causa do programa estatal.

Entre 19h e 20h, não há outra opção para os ouvintes de rádio, além da Voz do Brasil

Além dos motoristas, os apaixonados por futebol também são prejudicados pela Voz do Brasil. Na próxima semana, o Grêmio enfrenta o Universidad Catolica, no Olímpico, na terça-feira, pela Copa Libertadores da América. O Internacional vai a Montevidéu, duelar com o Peñarol, pela mesma competição. Os dois jogos ocorrem às 19h30min. Em outras palavras, os torcedores serão proibidos de ouvir uma boa parte do primeiro tempo pelo rádio.

Qual a explicação para a obrigatoriedade da exibição da Voz do Brasil? O programa é bom? Tudo bem, tem gosto pra tudo. Mas então que se crie uma rádio estatal para apenas os fãs desse extraordinário programa ouvirem-no. Quem quer escutar o jogo ou saber do trânsito, não pode ter esse direito privado.

Torcedores perdem o futebol e condutores se perdem no trânsito. Por quê? Por causa da Voz do Brasil

A Voz do Brasil foi criada durante o Estado Novo, de Getúlio Vargas, nos anos 30, com o nome de Hora do Brasil. Nos anos 70, os militares, através de Emílio Garrastazu Médici, mudaram o nome para Voz do Brasil. E o fato é que se trata de um programa tão democrático quanto a forma de governo de seus criadores.

A ditadura já acabou. O AI-5, o DOPS, o DIP e a tortura já foram pro espaço. É hora de a (obrigatoriedade da) Voz do Brasil também ir. Em nome da liberdade do povo brasileiro.

A Voz do Brasil foi criada durante o Estado Novo, de Getúlio Vargas

No caso de João, ele perdeu só o namoro. No caso da sociedade brasileira, o risco é perder a democracia.

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3 comentários

  1. Marcelo Salzano says:

    Grande Oliveira. Excelente artigo. Além de ser um excelente repórter da Guaíba, tens um ótimo texto. Rodrigo Oliveira, o profissional multimídia. Abração!

  2. João Batista Filho says:

    Muito bom teu texto Rodrigo, parabéns. Você conseguiu traduzir o sentimento de todo o povo brasileiro nestas palavras. Somos obrigados a ouvir (eu desligo o rádio) um programa totalmente fora de época. Como você disse, com propriedade, que façam um canal para os fãs deste programa, mas que não obriguem os ouvinte a ouvir o que o governo quer.

  3. Excelente o texto! Acho que você tem razão, parece uma ditadura! Creio que a câmara deveria aprovar a flexibilidade do horário. Por mim poderia haver a extinção, no entanto, conheço muita gente que gosta de ouvir. Em respeito a esses, votaria pela flexibilidade.

    Abraço Digão

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