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O jornalista é ‘multi’, mas e o salário?

Ilustração: Folha de S.Paulo

Em tempos de convergência midiática, jornalista que apura, escreve, filma, fotografa, entrevista e edita (tudo no menor tempo possível) é rei. Na internet tudo é instantâneo e o profissional que não se adequar a essa lógica multitarefas pode se considerar fora do jogo. Pelo menos é assim que as grandes empresas de comunicação estão encarando o processo de fazer jornalismo numa era em que é possível editar matérias inteiras pelo próprio celular. Porém, a sobrecarga de atividades vem baixando o nível dos conteúdos e acabando com a paciência do jornalista, que geralmente não recebe um tostão a mais para fazer o trabalho de cinco.

No ciberespaço, todas as maneiras de seduzir o leitor podem ser usadas, logo, todas devem ser usadas. Isso garante audiência, fidelidade e consumo, ou seja, exatamente o que qualquer conglomerado de comunicação almeja. Ao contratar um profissional, as empresas tomam o cuidado de descreverem em contrato o cargo de “jornalista multimídia”, e é aí que a palhaçada começa. Isso dá aval para a empresa cobrar qualquer tipo de trabalho extra sem ter que pagar por ele, defendendo que a prática também é boa para o profissional já que ele tem seu nome promovido em diferentes meios.

Quando um jornalista sai da redação, hoje, ele leva um kit multimídia com no mínimo: câmera, que filma e fotografa, bloquinho, notebook, gravador de voz e celular. Esses equipamentos são considerados indispensáveis para que o jornalista não só apure e escreva a matéria – como é esperado – mas também grave vídeos, sonoras e fotos “para o online”.

Abaixo, a jornalista Mara Schiavocampo, da NBC News, mostra todo o aparato que um jornalista multitarefas precisa carregar, numa grande empresa de comunicação como a NBC.

Ops, esse é o vídeo que você esperava:

Podemos pegar o exemplo do jornalista esportivo de qualquer portal na internet. Em dia de jogo o profissional vive um verdadeiro malabarismo entre responsabilidades, equipamentos e tempo. O repórter precisa cumprir a tarefa extenuante de fazer o minuto a minuto da partida, a matéria pós-jogo que deve estar no ar no máximo dois minutos após o apito final, entrevistas com atletas, dirigentes, torcedores e depois, ainda, a crônica da partida. Ah, tudo isso carregando o notebook, a câmera fotográfica e filmadora para registrar os momentos em fotos e vídeos que serão utilizados nos blogs e portais da empresa.

Contando por baixo, seriam tarefas delegadas a pelo menos três ou quatro profissionais de diferentes áreas de atuação – texto, fotografia, edição, web. Agora eu pergunto: já que a lógica multitarefas está imposta, esse jornalista não deveria, pelo menos, receber também um ‘multisalário’? Certamente sim, mas não é o que acontece e isso acaba afastando bons profissionais dos veículos.

Muitos jornalistas experientes que não se submetem à metodologia ‘mais por menos’ e pedem demissão. Com isso, a empresa acaba perdendo em qualidade de conteúdo, mas se contenta com os profissionais que aceitam as condições impostas e que vão gerar mais produtos que podem ser vendidos. É a preferência pela quantidade em detrimento da qualidade jornalística. Lembrando que até o melhor dos repórteres continua sendo uma só pessoa e, por isso, quando submetida a diversas tarefas e obrigações ao mesmo tempo pode acabar deixando a desejar em alguma delas, ou em todas.

Justamente por isso essa lógica que já é corriqueira dentro das redações cria um paradoxo que preocupa. O jornalista parece estar perdendo sua voz na mesma proporção em que ganha meios para propagá-la. Preocupados em apertar cada vez mais botões, o próprio profissional e os conglomerados de comunicação precisam repensar a real função do jornalista na sociedade e parar de encará-lo como um malabarista de tecnologias – que, além de tudo, ganha mal.

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