Cinema / Viés

O Eterno Judeu: Hitler vai ao cinema

Cartaz do filme. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:EwigerJudeFilm.jpg

Desde o início de sua carreira, Hitler reconheceu o potencial do cinema para conquistar o povo alemão. Enquanto esteve no poder, foram produzidos 1350 filmes na Alemanha, número só superado pelos Estados Unidos. Uma das principais produções dessa época é o “documentário” O Eterno Judeu (Der ewige Jude), de 1940, que apresentava o povo judeu como um inimigo a ser vencido.

Josef Goebbels, ministro da Cultura Popular e Propaganda durante o governo nazista, controlava também a Ufa, empresa estatal voltada para a produção de filmes de propaganda. Ele enviou uma equipe, chefiada por Fritz Hippler, para registrar imagens dos judeus que passaram a viver nos guetos. Com esse material, Hippler produziu O Eterno Judeu.

Logo que inicia o filme, diz-se que o público veria “cenas autênticas”. Busca-se forjar uma aura de “realidade” para dar credibilidade às imagens, uma vez que, sendo autênticas e documentais, não teriam sofrido manipulação e seriam retrato fidedigno da realidade. Passava-se a ideia que as imagens, gravadas no local e acompanhando pessoas comuns no seu dia a dia, eram exatamente aquilo que o público veria se fosse pessoalmente à Polônia e que a câmera fazia as vezes de olhos do espectador. Assim, os julgamentos proferidos em off pelo narrador seriam semelhantes aos que os espectadores fariam se estivessem lá.

O texto do narrador é, aliás, importantíssimo no filme. As frases são sempre categóricas, não deixando espaço para contestações. Por vezes, usam de um ar científico, como se assim comprovassem que aquilo não era pura ideologia, mas sim um fato. Todas essas técnicas são utilizadas de forma a legitimar a autoridade do Führer e tornar a adesão aos seus ideais quase natural ou óbvia.

É evidente a tentativa de desumanizar os judeus, comparando-os a animais. A migração dos judeus por toda Europa chega a ser comparada à dispersão de ratos pelo continente. Dá-se a entender que tanto judeus quanto ratos seriam “espécies” nocivas, que espalhariam doenças por onde passavam. Curiosamente, no final do filme o abate de animais praticado pelos judeus – no qual o animal sangra até a morte – é considerado cruel.

É possível traçar uma semelhança entre O Eterno Judeu e O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation), faroeste de cunho racista realizado em 1915 por D. W. Griffith que mostra o surgimento da Ku Klux Klan. Os dois filmes tornaram-se polêmicos por serem expoentes de ideologias racistas e atualmente são considerados mais objeto de estudo que obra cinematográfica. Assistir a filmes como esses podem não explicar, mas ao menos ajudam a entender as ideias racistas e, no caso específico de O Eterno Judeu, como um povo pôde aderir a uma ideologia agressiva e odiosa como a nazista.

Tags: , , , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*