Literatura / Viés

O pior best seller de todos os tempos

Você provavelmente já ouviu falar de Cinquenta Tons de Cinza, o novo best seller febre do momento que ousou trazer a literatura erótica para a cultura mainstream. O que você provavelmente ainda não sabe é o quanto ele é ruim.

As fanfics, histórias escritas por fãs utilizando universos ou personagens já existentes em outras obras, deixaram a obscuridade ha algum tempo, sendo reconhecidas por autores renomados e lançando seus próprios escritores a fama, como foi o caso de Cassandra Claire famosa pela sua série Os Instrumentos Mortais, antes conhecida por uma trilogia de fanfics de Harry Potter. Essa popularização tem aspectos positivos e negativos. Por um lado fanfics são uma ótima maneira de se começar a escrever e ótimos autores comprovadamente podem advir desse background, por outro editoras se especializam na publicação de fanfics, estudando as leis de copyright para alterarem apenas o necessário para evitar ações legais.

E o que tudo isso tem a ver com Cinquenta Tons de Cinza? Bem, para começo de conversa o livro era inicialmente uma fanfic de outra febre literária famosa por não ser assim tão literária em primeiro lugar: A saga Crepúsculo. Anastacia Steele e Christian Grey, os heróis da história, são ninguém menos do que Bela Swan e Edward Cullen em suas versões mortais. Além da descrição física idêntica a dos vampiros de crepúsculo o conteúdo do livro, em uma comparação direta, difere apenas em 11% da fanfic original, Master of the Universe. Com tão poucas alterações, a maioria delas sendo as 1465 menções dos nomes de personagens principais, pode se dizer que o que está sendo vendido é, quase que completamente, uma fanfic de Crepúsculo.

Deixando para trás as implicações legais de se comercializar o que é basicamente uma fanfic não autorizada passamos para o segundo, e claramente o maior, problema de Cinquenta Tons de Cinza: O quão mal escrito o livro é. Começando com a situação falha da história, que se passa em Seatle (assim como Crepúsculo) apesar de a autora E.L. James ser britânica e nunca ter estado na cidade; passando pelas repetições absurdas que demonstram um vocabulário claramente limitado equanto personagens ‘coram’ 125 vezes, ‘murmuram’ 199, ‘suspiram’ 195 e ‘franzem o cenho’ 124 vezes, sem contar, pelo menos na versão original em inglês, com  impressionantes 92 utilizações do expelativo ‘oh crap’, traduzido para o bom português: merda.

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O livro também é recheado de metaforas absurdas, inseridas em cenas supostamente sensuais, que passam por termos como ‘me encarando com a intensidade de uma mãe hamster prestes a devorar seu filhote de três patas’ e ‘como um trem repleto de espermatozóides dançarinos de cabaret e minha vagina era a broadway’. Isso sem contar com a manifestação antropomórfica da consciência da personagem principal, sua ‘deusa interior’ capaz de dar piruetas, dançar a hula e torcer com pom-pons em sua excitação.

E você pode estar pensando que ele não pode ser assim tão ruim se vendeu tantas cópias, 40 milhões de pessoas não podem estar erradas. Dentre as reviews de sites como a Amazon e Barnes and Nobles aproximadamente 50% dos compradores deram a Cinquenta Tons de Cinza a menor nota possível, com comentários como ‘eu choro pela literatura moderna’. O sucesso da série se deve tão e somente a introdução de um cenário risque, irrealmente descrito,  sadomasoquista em um enredo completamente água com açúcar.

Com uma qualidade facilmente rivalizada por qualquer garota adolescente que escreve fanfics na internet, Cinquenta Tons fez fama justamente com o público contrário, mulheres entre trinta e cinquenta anos que não costumam utilizar a internet, o que deu ao gênero nos Estados Unidos a designação ‘mommy porn’ ou ‘pornografia para mães’ porque realmente qualquer um com um conhecimento mínimo sobre literatura erótica não se submeteria a tortura que são as 480 páginas de Cinquenta Tons de Cinza.

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