Viés

Paisagens Passageiras

Tic. Cada um tem uma relação diferente com a passagem do tempo. Algumas pessoas têm os olhos voltados pra frente como se os tivessem repuxados num barbante preso em arame farpado, têm uma visão linear e horizontal de vida, o tempo é só um comprimento. Para outras, é elástico, curvilíneo, flutua no ar entre três esferas e para essas não se pode medir algo que se sente tanto e não se vê – tirando as marcas da idade no canto dos olhos- , algo parecido com as crenças religiosas.

Algumas pessoas não entendem quando menciono a palavra nostalgia, ora, como alguém relativamente jovem poderia já estar sentindo tanta saudade de uma época passada? Supostamente eu deveria estar construindo as histórias da “flor da idade”, sem olhar pra trás, alguns diriam. Do outro lado uma avalanche imediatista e midiática me empurra pra ideia do “agora ou nunca”, o tempo é agora, bem agora, de fazer tudo que se quer; afinal o tempo é elástico, mas as ranhuras do tecido jamais voltam para o lugar uma vez que espichadas.  Alusões sem fim para um aproveitamento desenfreado do presente. Concordo em agarrar essa oportunidade momentânea da vida com unhas e dentes, mas eu preciso de uma reflexão maior, antes que o presente vire um conjunto “frankstein” de momentos e eu já não saiba onde eu estou.

Foto: Paul Kelly

 

Tudo passa. O passado é passado, dizem. Mas em alguns casos o passado é um relatório fidedigno – nem que seja de uma romantização mental – dos outrora “presentes”, uma compilação temporal, um mapa que me trouxe até aqui, no bem agora. O passado, por muitas vezes, é renegado, tratado como descartável, sendo que só deveria o ser quando se torna uma moradia. Só o passado permite releituras bem feitas do presente. Mal sabem esses discursos imediatistas pró-futuristas que eu só vou viver e viver bem o presente, o “right now”, se eu souber identificar minhas falhas e souber preencher lacunas, que, quem diria, o próprio passado criou. O problema sempre foi essa separação civil dos tempos, em outro sistema, o tempo poderia ser um emaranhado só de experiências, uma solução só, não o passado/presente tratado como água e óleo insolúveis num pensamento totalizador sobre o passado.

Estar no presente é estar consciente do passado. Ou ao menos daquilo que imaginamos mentalmente ser passado. Talvez o segredo mágico de presente plano que tanto querem nos vender não seja um quadro estático do cenário que vivemos ontem, nem a ansiedade dolorosa de se sentir cada segundo como se fosse o último, mas caminhar pelo tempo ciente de que nem tudo passou e nem tudo é, somos passageiros. Tac.

 

1 comentário

  1. Cássia Tavares says:

    Curti a “vibe” mais literária do texto e a ideia do “tic – tac” no início e no fim (:

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