Cinema / Viés

Pixote – real demais

Cena de Pixote - A lei do mais fraco

Fonte: http://www.flickr.com/photos/26516557@N03/2505142727/

Certos filmes não podem ser refilmados. São pouquíssimas as obras dignas de pertencerem a esse grupo. Algumas por seu caráter único – refazer Cidadão Kane seria, antes de qualquer coisa, uma prova de coragem (ou demasiada auto-confiança) de um diretor. Outras, pelo importante papel do diretor – Psicose não só poderia ser um fracasso se refilmado, como o foi (nas mãos de Gus Van Sant). Além disso, o contexto histórico do lançamento do filme também pode fazê-lo único – e Bruxa de Blair, que se transformou num dos filmes mais rentáveis da história graças a sua original divulgação pela internet, é a prova.

Há um filme, porém, que não pode ser refilmado pela história que se passa além da tela. Pixote: a Lei do Mais Fraco, de 1981, é o terceiro longa de Hector Babenco. Com a fama internacional alcançada pelo filme, Babenco chegou a Hollywood, onde dirigiu, entre outros, O Beijo da Mulher-Aranha e Brincando nos Campos do Senhor.

Pixote é um garoto de 11 anos, abandonado por seus pais e vivendo de roubos nas ruas de São Paulo. A pouca idade não o impede de exercer várias funções do submundo: Pixote é cafetão, Pixote é traficante de drogas, Pixote é assassino. Babenco não busca dar o menor conforto ao espectador. Ao contrário, o clima do filme é pesado – sem deixá-lo lento. Olhá-lo é sentir dor, pois é de dor que se constrói a história de Pixote – e de Lilica, Chico, Dito, seus colegas de reformatório.

A narrativa parece dividida em duas partes: o reformatório e as ruas. Em nenhuma delas há a mínima possibilidade de encontrar paz. A realidade é sempre a mesma: opressão, abusos, descontrole. Cada um tem uma dor em particular, e cada um tem de enfrentá-la sozinho.

O elenco foi formado por crianças e adolescentes de favelas paulistanas. Talvez por viverem diariamente o filme, muitos têm atuações impecáveis. Principalmente Fernando Ramos da Silva, que interpreta o personagem-título. Fernando tinha 13 anos quando o filme foi rodado. Foi considerado uma revelação e tentou seguir a carreira de ator, trabalhando em mais alguns filmes e algumas novelas. Semi-analfabeto, não conseguia decorar os textos. Acabou voltando para as ruas. Foi preso duas vezes, uma por assalto, outra por porte de arma. No dia 25 de agosto de 1987, após um assalto, foi assassinado por policiais. Tinha 19 anos. Fernando foi Pixote, o filme foi sua história. Por ser real demais, Pixote – a Lei do Mais Fraco jamais poderá ser refilmado.

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1 comentário

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