Ciência e Tecnologia / Viés

Por uma tecnologia útil e acessível

Conceito de tela touch screen flexível da 3M.

Estamos no futuro? As últimas inovações tecnológicas nos mostram que tudo é possível quando misturamos algoritmos matemáticos e fibra ótica. Os filmes de ficção científica já não nos impressionam tanto e Hollywood volta a apostar nas infalíveis comédias românticas ou magos voadores. Estamos na era em que teclados táteis podem ser projetados em qualquer superfície, desde a parede do banheiro até a barriga do nosso cachorro. Tempos em que smartphones estão virando pulseiras fashion e podem combinar até com a cor do vestido.

Mas já parou para pensar como o mundo seria sem essas inovações ou mesmo sem a internet? Fácil, você pode pensar que ele seria como realmente foi há poucas décadas, quando nada disso existia. Mas não… Ele seria exatamente como é hoje. Claro que não como ele é para mim ou para você, mas como é para mais de 70% das pessoas. Isso porque dos 7 bilhões de habitantes do planeta, 5 bilhões não têm conexão com o mundo virtual hoje. É isso, existem dois mundos completamente diferentes.

O dado que impressiona foi apresentado pelo PhD em TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação e desenvolvimento social, Jacques Steyn, na palestra “Small solutions for big problems: connecting the world”. O especialista e atual diretor da School of Information Technology Monash University, na África do Sul, foi um dos palestrantes do ciclo de apresentações “Redes Tecnológicas, Espaços de Interação e Identidade”, organizado pelos PPGCom’s da UFRS e Unisinos na última semana.

Com pesquisas de mapeamento e implantação sustentável das TICs em áreas rurais ou remotas, o professor questiona até que ponto nossas pesquisas e produtos estão de fato caminhando para conectar as pessoas. Afinal, o que um camponês da Malásia faria com uma pulseira wi-fi flexível? Até que ponto um teclado projetado iria mudar a vida de uma cigana romena que vive perambulando pelas ruas europeias? Essas perguntas estão direcionando pesquisas em escolas de inovação do mundo todo que pretendem encontrar soluções práticas para as necessidades mais urgentes da maioria das pessoas.

Mensagem via wi-fi facilitaram a comunicação nas comunidades pobres da África do Sul

“Tecnologia não é fazer dinheiro; é tornar a vida mais fácil”, explicou Steyn. O especialista desenvolve um trabalho de “village web” no interior da África do Sul, onde o acesso à internet é precário ou inexistente. A partir de um celular com tecnologia wi-fi, qualquer morador da comunidade consegue ter acesso a informações locais, desde envio de mensagens e arquivos até compra e vende de produtos, sem a necessidade de ter acesso à rede de telefonia móvel. Além disso, aos olhos dos moradores, a rede em comunidade parece bem menos assustadora e mais útil do que a global, o que acaba atraindo as pessoas para a tecnologia ao invés de afastá-las ainda mais.

A grande questão é que apesar deste mundo offline ter carências bem mais urgentes, como falta de saneamento básico, água, comida e educação pública, ele também gosta e precisa da facilidade das tecnologias. Tecnologias adaptadas às suas necessidades reais. Mas para que se encontre estas carências e soluções práticas, é necessário que os grandes empreendedores digitais também ajam, e não apenas os núcleos de pesquisa universitária.

Os conglomerados da indústria da tecnologia contam com os recursos financeiros e humanos mais aptos para ajudar a realizar as grandes mudanças sociais que necessitamos. Mas as companhias insistem em focar na disputa de vendas, números e enxergar as pessoas somente como consumidores. Isso não parece o futuro, muito menos para o mundo das 5 bilhões de pessoas que não poderão ler esse post por falta de recursos tecnológicos básicos.

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